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O sagrado e o profano

Rav Kook era profundamente voltado aos conflitos dialéticos da religião e do modernismo. Fazia parte do pequeno grupo de pensadores judeus religiosos que discutia abertamente os problemas contemporâneos de natureza social e política. Seu pensamento, de profunda tendência mística, não o fez esquecer, no entanto, as necessidades do mundo físico e passou a interessar-se ativamente pelos assuntos políticos e sociais.

Empenhou-se em unir o físico e o espiritual, considerando como uma providencial oportunidade para atingir a harmonia o restabelecimento do judaísmo nacionalista, o renascimento de Eretz Israel como país e de Am Israel como nação. Kook ficava fascinado com a oposição dialética do declínio religioso, assimilação corrosiva, reforma social e exaltação ao nacionalismo. "A nossa geração é maravilhosa", escreveu. "Consiste de opostos; escuridão e luz coexistem na confusão".

Com este conceito harmonioso de homem e mundo físico, Kook negava qualquer separação entre o sagrado e o profano, dizendo: "O sagrado e profano, juntos, influenciam o espírito do homem e este se enriquece ao absorver de cada um o que seja apropriado."

A doutrina de teshuvá

Esta é de fato, a semente da doutrina do "retorno" de Rav Kook, ou teshuvá em hebraico. Este tema esteve presente em toda a sua vida e obra. Embora não seja um termo novo na teologia judaica, passou a ter um novo significado sob a filosofia de Kook. Originado nos tempos talmúdicos, teshuvá deriva da raiz shuv (retornar), que significa "voltar para D’us" ou "arrepender-se". Dificilmente houve um trabalho sobre teologia ou ética sem um capítulo sobre este importante tema.

O pensamento cabalístico ensina que o real arrependimento é a reintegração da alma à sua forma primordial na sefirá biná, através de um processo de tikun ou "recuperação". O termo também foi descrito no conceito tradicional da shivá ou do "voltar para Sion", através da raiz cognitiva. Esta relação foi enfatizada nos próprios escritos de Kook sobre a teoria de teshuvá.

As luzes do retorno

A sutileza e a profundidade de suas reflexões sobre teshuvá estão em um livro chamado Orot HaTeshuvá, As luzes da volta. Embora pequena no tamanho, esta obra destaca-se em meio ao legado literário de Kook. Ele próprio tinha uma estima especial por este trabalho, usando-o para meditar em determinados momentos solenes, como por exemplo durante os Dez dias de penitência.

Desde a primeira edição, publicada em Jerusalém em 1925, já foram lançadas várias reedições e apareceram inúmeros comentários abordando seus diversos aspectos. É uma das obras mais populares de Kook. A edição original possui 17 capítulos abordando os diferentes aspectos da "conversão", pois, na visão de Kook, há duas dimensões para a teshuvá, a individual e a coletiva, a particular e a universal.

O retorno de todos componentes do universo para a origem divina é a concretização do processo evolutivo cósmico.

De acordo com o ponto de vista de Kook, a evolução não é somente uma luta sem leis pela sobrevivência, condicionada apenas pelo triunfo do mais forte. É, sim, um mecanismo Providencial ao qual se supõe uma existência repleta de significados. Ao contrário de Darwin ou Bergson, que consideravam a evolução um resultado espontâneo, de seleção natural, Kook acreditava que a evolução era um processo intencional e cósmico dirigido por D’us. Um processo por meio do qual cada partícula de realidade seria desenhada à semelhança de D’us, como objetivo máximo da história individual e universal.

Universalismo e particularismo

Embora a criação inteira seja uma unidade, o homem tem um papel especial no centro do universo. Ele não está só no caminho para a perfeição. É guiado pelo exemplo e pela inspiração de indivíduos bons, cujos méritos preservam a sabedoria para a humanidade e a transformam em lição benéfica de força, enaltecendo-a e enriquecendo-a até que esta, finalmente, atinja a perfeição. A luta pelo universalismo deveria necessariamente passar pelo conceito de nacionalidade. Cada nação tem um papel particular para desempenhar no processo evolutivo e deve dar sua contribuição através de sua própria e específica qualidade.

De acordo com esta visão, o povo judeu ocupa um lugar especial. O nome Israel significa "guerreiro de D’us", e tem a tarefa de disseminar divindade pelo universo. A identidade nacional judaica difere da de outras nações no sentido de que seu propósito não é social, econômico ou cultural. É essencialmente divino e profundamente imbuído do sentido de justiça, que foi o primeiro a vir ao mundo. A particularidade de Israel é sua busca pela justiça absoluta. No entanto, a cada contravenção moral cometida por um indivíduo judeu, enfraquece-se o seu vínculo com a alma da nação.

Outras nações desenvolveram diferentes talentos, como inteligência, moralidade e estética. Israel, no entanto, recebeu como dádiva a capacidade de descobrir a Luz Divina em cada aspecto da realidade.
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