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Para Kipur, os preparativos culinários
começavam com a entrada dos frangos, que, liberados das capoeiras,
se soltavam no quintal em algazarra de cacarejos. Nunca se sabia
ao certo antecipadamente quantos iriam ser submetidos às
caparot. Às vezes entrava na conta um casal de
franguinhos, se uma filha casada estivesse gestante. Mais dois ou
três galos, para parentes solteiros. E sempre o infalível
galo do seu Jacob. Nós o esperávamos com
ansiosa curiosidade, e só o traziam, propositalmente, no
último instante, para causar o efeito de uma apoteose triunfal.
Era uma ave enorme, arrogante, cabeça erguida coroada pela
túmida crista vermelha que lhe dava imponência real,
acentuada pelo manto da plumagem de brilhante matiz. Levado ao quintal,
tomava logo um ar altaneiro, dando voltas para reconhecer o chão
em que pisavam seus pés fortes de dedos grossos e esporões
protrusos. Sentindo-se de pronto senhor do terreiro, inflava o peito,
estremecia de júbilo e, de bico desmesuradamente aberto,
mandava aos ares um cocoricó reboante. Os outros galos se
acovardavam, escondiam-se pelos cantos. As galinhas, fascinadas,
brigavam entre si, disputando-o, e ele, se por simpatia ou insistência
de alguma a cortejava, nem sequer lhe arrastava as asas, a cobria
de um salto, com certo desdém, e crivava-lhe de bicadas sadistas
a cabeça indefesa. Largava-a com o mesmo impulso brusco com
que a tomara e, de novo impávido, exibia seu canto de homérica
ressonância.
Com tanta beleza e galhardia, o
galo do seu Jacob merecia um pedestal que glorificasse a nobreza
da sua estirpe. Seu destino porém era outro. Como qualquer
galináceo seria sacrificado em benefício de alguém,
à véspera de Yom Kipur. Agarrado à força,
debater-se-ia algum tempo, até que mãos firmes conseguissem
sujeitá-lo. O shochet o ergueria, admirando-o
primeiro com fuga emoção, e logo, inexorável,
o faria rodar três vezes sobre a cabeça daquele por
quem o imolava Zê, capará zê....
Piedosamente lhe esconderia a crista altiva entre as asas coloridas,
despia-lhe o pescoço das plumas que o guarneciam e, na pele
nua, passava num golpe certo e fundo a navalha afiada. Jogava-o,
então, ainda estrebuchante, para baixo de uma enorme bacia
emborcada, onde jaziam seus irmãos plebeus.
Vinha depois a depenagem de todas
as galinhas, a seco, procedida durante longas horas. Já limpas,
a maior parte das aves deveria ser frita, para melhor conservação,
naquele tempo em que não se conheciam refrigeradores. Durante
dias, na casa e no quintal, onde crepitavam as brasas dos fogareiros,
o cheiro de frituras ensebava o ar. Agora eram as galinhas que seriam
servidas na tarde de tomar Taanit, no jantar depois
do Kipur e, nos seguintes, até quando não mais as
suportávamos. Uma semana antes, haviam sido as fijuelas,
cascalhos deliciosos de massa de pastel frita, próprios para
quebrar o Taanit. Elas surgiam das panelas de azeite
douradas, leves, salpicadas de bolhas de ar, enroladas como peças
de fita larga, apetitosas, e mais apetitosas ainda depois de embebidas
na calda perfumada com água de flor de laranja e polvilhadas
de canela. Que suplício de Tântalo para nós,
crianças, vê-las, tocá-las, mas como era
pecado comê-las antes do Kipur, nem sequer prová-las.
Kipur era o grande acontecimento.
Todos os homens vestiam-se a rigor. Nosso avô materno, David
Benoliel, e outros senhores do mesmo nível sinagogal ou etário,
envergavam sobrecasaca e cartola. As mulheres ostentavam um luxo
exagerado e carregavam em si quanta jóia pudessem exibir,
enfiadas em dedos e braços, penduradas nas orelhas e pescoços,
emplacadas no peito. Kipur era um longo dia, marcado por emoções
várias, mudáveis no correr das horas. Pela manhã,
sorrisos serenos, olhares de beatitude. Os homens meldavam*
alacremente, em altas vezes, muitas vezes emendando, corrigindo
uns aos outros, em atmosfera fraternal. As mulheres, que não
sabiam ler hebraico e na sinagoga representavam apenas figura de
realce, conversavam sobre os mais diversos assuntos mundanos e só
faziam silêncio à passagem do Sêfer. Então
levantavam-se e integravam-se nos rituais com três gestos
rápidos mãos estendidas para a Torá,
mãos cobrindo os olhos, mãos sobre os lábios,
beijando-as. Nessa curta contrição, dezenas de rogos
lhes borbulhavam na mente. O milagre de que aparecessem noivos para
as filhas, estava em primeiro lugar.
Kipur era assim em Belém do
Pará, um dia de esperanças, de repouso espiritual
e em que, realmente, se purgavam os pecados com a fome agravada
pelo calor sufocante, a partir do meio-dia. Mulheres desmaiavam,
sobretudo algumas recém-casadas, em lua-de-mel. Como elas
esperavam que acontecesse, o marido vinha correndo socorrê-las
Rebi Shimon, minha vida, me vá a capará
por ti e o desmaio passava imediatamente. Entre os
homens, as fricções se repetiam cada vez mais amiúde.
Uns, ofegantes, se derreavam na cadeira, apáticos, e se irritavam
com os que oravam em tom estridente. Nosso avô, versado nas
leis mosaicas e dominando o hebreu perfeitamente, parecia se embalar
nas cantilenas dos sefaradim e usufruir bem-estar que o mantinha
sempre de bom humor. Seu meldar era solene, cadenciado,
e quando alguém ao seu lado lhe feria os ouvidos, perguntava-lhe,
espirituosamente Você compreende o que está
lendo? Não? E por que grita? O Kol Nidrei, na sua voz
harmoniosa, estremecia em vibrações místicas,
emocionantes, e no silêncio em que era ouvido, tinha-se a
sensação de que um coro vindo do além o acompanhava.
Mesmo entre os mais velhos, poucos tinham sequer noção
do que significavam os textos daqueles livros de folhas gastas,
tão manuseadas por gerações e gerações.
Era o tempo em que não se imprimiam novos livros judaicos,
ou que, pelo menos em Belém do Pará, só existiam
aqueles trazidos um século antes pelos imigrantes sefaradim.
No entanto, entendendo ou não, todos liam, e à proporção
que as horas passavam, o vozerio ia-se adensando num bruaá
que enervava os pusilânimes. Surgiam protestos, rinhas, discussões
que chegavam às vezes a situações sérias.
Enquanto apaziguava-se os contendores, os serviços eram interrompidos
e logo mais reatados com a mesma contrição, qual se
nada de anormal houvesse acontecido. O momento em que soava o shofar
era sagrado e de extrema solenidade. Sufocavam-se as desavenças
em respeito e fé. A vaidade de nosso pai, Eliezer Levy, então,
era abrigar sob seu grande talet como em uma tenda
os seis filhos varões e ainda algum futuro genro.
Foi por expressar num vozeirão
vibrante todo o seu ardor judaico, só extravasado uma vez
por ano, que seu Jacob nosso convidado, tradicional, sofreu a humilhação
de ser mandado calar-se, de maneira para ele ofensiva. Revidou de
modo a mais exasperar o outro, resultando numa troca de murros em
que ambos saíram levemente feridos.
Nessa noite, nossa mesa que era tão
alegre à hora de se quebrar o Taanit com as saborosas
fijuelas, e animada pelas narrativas dos acontecimentos
do dia, manteve-se em silêncio em respeito à mágoa
do seu Jacob. Sentado no primeiro lugar, junto à cabeceira,
ao lado do nosso pai, seu rosto ainda arroxeado, ele se queixava
e se maldizia, em soluços. Não tocou em comida e nem
sequer provou um pedaço de galinha, que bem podia ser seu
famoso galo. E nós todos também perdemos
o apetite, constrangidos pelo seu amargor. Seu Jacob não
era um membro da família, era um estranho, mas um velho e
respeitável amigo. Era, em verdade, parte das comemorações
do nosso Yom Kipur. Para ele, Kipur era um encontro com os pais,
com a infância, seu lar paterno, seus antepassados. Era a
remissão do pecado que sempre o torturava, de se haver desviado
do rebanho. Talvez, com essa triste ocorrência, temíamos,
ele cortasse para sempre o único vínculo que o atava
ao seu povo.
No próximo ano, quando um
dos meninos anunciou exultante O galo do seu Jacob!,
que animação! Nem que um rei estivesse entrando em
nossa casa...n
Sultana Levy Rosenblatt
Virgínia, Estados Unidos
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