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Enquanto isso, Moisés estava no Monte Sinai, sorvendo os ensinamentos da Torá e recebendo as Tábuas que continham os Dez Mandamentos. É quando, subitamente, recebe nova ordem Divina: “Vai, desce; porque o teu povo, que fizeste sair do Egito, se corrompeu e depressa se desviou do caminho que lhes havia Eu ordenado. Fizeram para si um bezerro fundido e se prostram diante dele, em adoração, e a ele oferecem sacrifícios” (Êxodo 32:7-8).

D’us revela a Moisés Sua intenção de destruir o povo judeu por estar adorando o bezerro de ouro. Mas antes de aplicar seu castigo decisivo, o Onipotente diz a seu profeta: “Tenho observado este povo, e eis que é um povo obstinado. Agora, pois, deixa-Me; para que se acenda contra eles o Meu furor e Eu os aniquile; e de ti farei uma grande nação” (Êxodo 32: 9-10).

Um decreto trágico aparentemente fora selado. Mas, nas próprias palavras da severa sentença do Criador, jazia o segredo para reverter tão infausto destino. Moisés nem chegara a responder à acusação feita por D’us a Israel e já continuava a lhe dizer o Eterno, Todo-Poderoso: “...deixa-Me; para que se acenda contra eles o Meu furor e Eu os aniquile...” E o profeta compreendeu o que lhe queria dizer D’us: “Deixa-Me, senão não poderei aniquilá-los. Pois que o destino de Israel está em tuas mãos. Se rezares por eles, eles serão redimidos”.

E com isto voltamos à história verdadeira com que iniciamos. Moisés põe-se, de imediato, a orar a D’us: “O Eterno, o Eterno, tarda em irar-se …”. E eis que lhe responde o Santo, Bendito Seja, “Mas não foste tu mesmo que Me disseste que Minha misericórdia deveria ser reservada apenas ‘aos justos’?” Ao que responde Moisés: “E Tu não me afirmaste que seria aplicada ‘também aos iníquos’?” Faze, agora, portanto, com que Tua bondade de ser tardio em irar-se seja concedida também aos pecadores, fazendo com que se cumpram Tuas próprias palavras”.

Relata-nos a Torá que o profeta prevaleceu sobre o Criador: “... Então se arrependeu o Senhor e reconsiderou o mal que dissera havia de fazer a Seu povo” (Êxodo 32:14).

O confronto com o Criador


No dia 17 de Tamuz, Moisés desceu do Monte Sinai com as Duas Tábuas em suas mãos. Quando viu que o povo dançava e adorava o bezerro de ouro, soltando das mãos as Tábuas, lançou-as ao solo, quebrando-as em pedaços, no sopé da montanha. E, a seguir, pegando o bezerro, atirou-o ao fogo onde se queimou por completo. No dia seguinte, 18 de Tamuz, ordenou à tribo dos Levitas, os únicos a não participar do culto ao bezerro de ouro, que matassem os 3 mil homens que haviam incitado o povo ao mal.

No 19.o dia do mês de Tamuz, Moisés ascendeu ao Monte Sinai, mais uma vez, em busca de expiação para seu povo. “Vós cometestes grande pecado”, disse-lhes antes de subir, “agora porém, subirei ao Senhor e farei propiciação junto a Ele, tentando obter perdão pelo vosso pecado” (Êxodo 32:30).
A Torá, a seguir, narra o que talvez seja a mais dramática permuta entre um homem e seu Criador. “Te imploro!”, rogou Moisés. “Este povo cometeu grande pecado, fazendo para si uma divindade de ouro. Agora, pois, perdoa-lhe o pecado! Ou senão, imploro-Te, risca-me do Livro que escreveste!” (Êxodo 32:31-32).

Os comentaristas revelam, com riqueza maior de detalhes, o diálogo que se travou entre Moisés e D’us: “Se perdoares Israel, quanto júbilo! Mas se não o fizeres, tira a minha vida e apaga da Torá qualquer menção à minha pessoa, pois não poderei ser líder se falhar em obter o perdão para meu povo” (Rashi). Segundo o Rabi Ovadia Sforno, grande erudito em Torá, Moisés disse a D’us: “Independentemente de Tu os perdoares ou não, retira os meus méritos pessoais de Teu livro e credita-os na conta do povo de Israel”.

Moisés, o homem mais humilde de todos os tempos, ousava enfrentar o Criador Infinito. Face à escolha, preferiu ser o pastor de Israel do que o profeta de D’s. O Rebe de Lubavitch, quando falava desse incidente, explicava: toda a existência de Moisés estava contida na Torá que ele trouxera para seu povo. A Torá era mais do que uma lição que ele iria transmitir adiante. Era o que ele representava. E ainda assim, quando chegou o momento de escolher entre a Torá e o seu povo, ele optou por seu povo. Pois que bem no íntimo de sua essência, no mais profundo de seu ser, residia a sua identidade e a sua unicidade com seu povo.

Moisés permaneceu no Monte Sinai, novamente, durante 40 dias, implorando por seu povo. Ele desceu ao acampamento dos judeus no 29dia do mês de Menachem Av. Foi então que recebeu uma ordem Divina, que valia a pena ser celebrada: “Lavra duas tá-buas em pedra, como as primeiras; e Eu escreverei nelas as mesmas palavras que estavam nas primeiras, que quebraste em pedaços. E prepara-te para amanhã, para que subas pela manhã ao Monte Sinai e ali te apresentes a Mim, no cume do monte” (Êxodo 34:1-2).

Como lhe fora ordenado, Moisés lavra duas estelas em pedra. No primeiro dia do mês hebraico de Elul, ele madruga e ascende ao Monte Sinai pela terceira vez. Após ter chegado ao topo da montanha, aparece-lhe o Eterno e ensina-lhe o texto de uma prece que, no futuro, serviria para sempre invocar Sua misericórdia. Esta oração, os Treze Atributos da Misericórdia, contém treze descrições sobre D’us, todas acerca de Sua compaixão e bondade infinitas. Com esta invocação ninguém jamais deixa de merecer a Graça Divina.
Moisés permaneceu no Sinai – em jejum ininterrupto – por mais 40 dias: “E ali esteve com o Eterno quarenta dias e quarenta noites; não comeu pão nem bebeu água...”. (Êxodo 34:28). Durante esse período, D’us ensinou a Moisés toda a Torá, uma vez mais. E então, indicando, finalmente, Seu perdão total para o povo judeu, D’us ordena que Moisés escreva as palavras dos Dez Mandamentos sobre as tábuas que ele lavrara e trouxera ao Monte Sinai.
No 10.o dia do mês de Tishrei, Moisés retorna ao acampamento dos judeus levando consigo as novas Tábuas com os Dez Mandamentos. Desta vez, foi recebido por um povo em júbilo pelo perdão Divino que lhes fora outorgado.

Aquele dia se tornou o primeiro Yom Kipur, o primeiro Dia do Perdão. D’us decidiu que, a partir de então, o 10.o dia de Tishrei seria o dia no ano em que Ele se dedicaria aos rogos, remorsos e preces pelo perdão. Assim como perdoara o pecado cometido através do bezerro de ouro, no futuro, nesse mesmo dia, Ele também perdoaria as futuras transgressões que o povo judeu cometesse contra Seu Nome.

Como vimos, então, Yom Kipur – o Dia do Perdão – é celebrado no 10.o dia do mês judaico de Tishrei. É o dia mais sagrado de nosso calendário, uma data mencionada na Torá como o “Sábado dos Sábados”, Shabat Shabaton. A Torá nos ordena guardá-lo de acordo com todas as leis que estipula, “...porque naquele dia se fará expiação por vós, para purificar-vos; e sereis purificados de todos os vossos pecados perante o Eterno” (Levítico 16:30).

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