|
Morashá:
Sabemos que o HIAE mantém diversas parcerias. Quais são?
CL:
Nossa Sociedade mantém parcerias em todas as suas áreas.
No âmbito da assistência social, mantemos uma estreita
relação com a Unibes, o Lar Golda Meir e o Lar das
Crianças, sempre respeitando nossa vocação,
isto é, saúde. Dentro do conceito da família
carente e de forma equilibrada para não inviabilizar o atendimento
do número cada vez maior de excluídos em nossa comunidade,
respondemos com atendimento integral à saúde a cerca
de mil judeus. Isto inclui consultas, exames, internações,
fisioterapia e, mais recentemente, programas de medicina preventiva
na área de câncer ginecológico, de mama e de
próstata, diabetes, hipertensão, além das campanhas
de vacinação. Destinamos a esses pacientes tudo o
que há de melhor, não visando apenas o tratamento
da doença, mas, sobretudo, valorizando a qualidade de vida
deles. Atuamos com nosso apoio junto às entidades representativas
da comunidade, isto é, Federação Israelita
do Estado de São Paulo e Confederação Israe-lita
do Brasil. Este apoio se reflete em programas específicos
destas instituições nossas parceiras irrestritas.
Ainda nesta área podemos lembrar as parcerias que mantemos
com órgãos governamentais, participando do Programa
de Saúde da Família, tanto na sua execução
como na formação e capacitação de seus
gestores, o que significa estarmos beneficiando, juntamente com
Secretaria da Saúde do Município de São Paulo,
cerca de dois milhões de habitantes. Além disto, ressaltamos
nosso já mencionado programa de Transplantes, realizados
pelo SUS, em conjunto com o Ministério da Saúde e
a Secretaria de Estado da Saúde. Este apoio traduz a participação
da comunidade judaica nas políticas e demandas públicas
de Saúde, na sociedade maior, trazendo excelência em
atendimento médico também a populações
carentes.
O Programa Einstein na comunidade
de Paraisópolis é, em grande parte, viável
graças a parcerias com empresas, concretizadas principalmente
em seu Centro de Promoção a Saúde. Na área
de Ensino e Pesquisa, as parcerias são inúmeras com
instituições acadêmicas do Brasil, como UNIFESP
e PUC, e internacionais, como o Instituto Pasteur, MD Andersen,
Universidade de Tel-Aviv, embora o nosso desejo aqui seja ampliar
e dar-lhe uma dimensão ainda maior. Entendo que realizar
pesquisa de alto padrão exige, hoje, sinergias com a sociedade.
Os interesses são muitos e envolver vocações
é fundamental para encurtar os tempos necessários
para obtenção de resultados palpáveis. No plano
do Hospital, evidentemente isto já ganhou uma consistência
de mercado maduro e, portanto, falar-se em parcerias significa buscar,
em grande parte das vezes, vantagens de caráter comercial
e de aprimoramento de gestão. Mas, até aqui, mesmo
com nossos concorrentes, tem sido possível realizar parcerias
como a de uma central de compras conjunta que minimiza custos, fruto
de um trabalho desenvolvido pela Associação Nacional
dos Hospitais Privados, no qual, desde o princípio, houve
importante atuação de nosso Hospital. Portanto, dentro
de uma visão peculiar para cada segmento, contemplando necessidades
de nossos públicos e de nossa imagem, sempre é possível
e necessário buscar novos parceiros.
Morashá: Os bons hospitais
estão localizados nos grandes centros. É possível
levar bom atendimento médico-hospitalar, do nível
do Einstein, para as cidades mais distantes, por exemplo, clínicas-satélite
com profissionais do gabarito do HIAE?
CL:
Existe uma necessidade fundamental de entendermos a medicina como
algo associado ao conceito de agregar valor. É fato que temos
excelência de qualidade e isto é percebido pela população.
Entretanto, esta excelência nasce da vontade de ser exercida
e de um investimento humano e de capital. Os Estados Unidos investem
cerca de 16% de seu PIB em saúde e em nosso País este
valor atinge cerca de 4,5%. Portanto, num país tão
heterogêneo, no qual cerca de 50% do PIB estão concentrados
em 10% da população, acho fundamental definir, de
maneira clara, papéis que se mostrem viáveis. É
absolutamente possível criarem-se estruturas semelhantes
à nossa fora de nossa cidade, com recursos humanos de excelente
qualidade, trabalhando-se com protocolos e com regras rígidas
de qualidade. Mas, para isto, a sociedade deve ser instrumentalizada
de uma maneira madura, a ponto de exigir algo sustentável.
Nosso Hospital foi pioneiro em tecnologia;
foi pioneiro em programas de qualidade; jamais se esqueceu de programas
de humanização. Com isto construiu credibilidade a
ponto de conquistar uma grande clientela e de, hoje, projetar-se
na área da alta complexidade. Nesse ponto entendo que poderíamos
repetir o modelo aqui criado, evidentemente respeitando-se as regras
do mercado de saúde e não com sonhos fora da realidade
de quem efetivamente deseja comprar e arcar com estes serviços.
Esta é uma realidade. Embora a saúde seja um direito
social, ela depende efetivamente de um excelente gerenciamento para
ser sustentável.
Morashá: Em sua opinião,
que providências de maior prioridade o Ministro da Saúde
do próximo Governo deve tomar?
CL:
Tivemos um grande avanço na área de saúde,
em nosso país, nos últimos anos. As batalhas contra
AIDS, genéricos, mutirões, programa de saúde
da família, todas foram iniciativas com muita lógica
que trouxeram ganhos para a população. Entretanto,
o modelo envolve, a meu ver, o princípio da eqüidade.
Em outras palavras, falar de saúde é falar de algo
muito sério. Vejo a atitude pública sob duas vertentes.
A primeira, de caráter estrutural: são as ações
educativas que colaboram para um mecanismo de inclusão social,
no qual o indivíduo instrumentaliza-se para saber reivindicar.
A segunda, de caráter compensatório, na qual certas
necessidades primárias são preenchidas, mas não
mudam o perfil de comportamento, pois não passam a integrar
automaticamente uma necessidade percebida pelo cidadão.
Temos que continuar oferecendo recursos
de saúde, mas substancialmente educando para integrá-la
definitivamente em cada brasileiro, como sendo um bem ao qual ele
tem pleno direito. Isto exige programas básicos, essencialmente
preventivos; investimentos que fortalecem o capital humano e que
aumentam a produtividade da nação, com melhor aproveitamento
escolar e na área de trabalho. O que precisamos é
um aproveitamento adequado dos recursos existentes; uma melhor distribuição
das redes de acordo com complexidades que respeitem demandas e características
epidemiológicas regionais, informação ao leigo,
instrumentalização aos profissionais de saúde
sob temas de gestão e de racionalização de
recursos, com finalidade de uso daquilo que realmente agregue valor
e não necessariamente o que é mais caro ou mais novo
dentro do conceito de economia da saúde.
Esse tipo de ação é
cobrado atualmente da área de medicina privada, que está
sujeita às regras do mercado e entendo que deve ser aplicada
na esfera pública. Isto significa atuar em muitos interesses,
quebrar paradigmas, mas só nasce quando o consumidor final
consegue entender todo o processo. Ele exige e nós temos
que ofertar. Portanto, o desafio, a meu ver, está em agir
com o espírito com o qual hoje se atua no nosso Hospital,
com uma percepção clara da importância da saúde,
instrumentalizando o cidadão e, ao mesmo tempo, exigindo
da área pública que hoje responde pelo atendimento
a 75% da população rigor de qualidade técnica
e de gestão.
Morashá: Fale um pouco sobre
o novo projeto com dependentes de álcool e drogas.
CL:
O Projeto Álcool e Drogas é um projeto antigo no marco
de nossa Sociedade. Há cerca de quatro anos nos interessamos
por essa área como um instrumento para minimizar a violência
em nossa cidade, que tem forte associação com o consumo
de drogas. O álcool é uma droga lícita, acessível
a todos e que tem grande importância epidemiológica,
sendo hoje entendida como uma prioridade pública, inclusive
com uma legislação que regulamenta seu consumo por
motoristas. Trabalhamos inicialmente em mutirões, posteriormente
no Colégio I.L.Peretz, envolvemo-nos com as iniciativas comunitárias
e detectamos a necessidade deste projeto como sendo um verdadeiro
produto vinculado a todo um setor hospitalar de saúde mental.
a de Katherine
Szenes a David Alster Yardeni, em 7 de maio de 1987, na internet.
|