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Mais conhecida apenas como Hospital Israelita Albert Einstein
(HIAE), a Sociedade vem desenvolvendo vários projetos na
área de atendimento médico, pesquisa e assistência
social, colocando a instituição à frente de
inovações na área de saúde, como por
exemplo, o trabalho com dependentes de drogas e álcool. O
oftalmologista Cláudio Lottenberg preside atualmente a Sociedade
Beneficente Israelita Brasileira Hospital Albert Einstein e concedeu
esta primeira entrevista à Morashá, sobre o dia a
dia do hospital e seus novos desafios. Na próxima edição,
Morashá entrevistará o Dr. José Pinus, presidente
do Conselho Consultivo do HIAE.
Morashá: Dr. Cláudio
Lottenberg, imaginamos que muitos gostariam de lhe fazer esta pergunta:
o que leva um jovem médico a se entregar, de corpo e alma,
a um compromisso da envergadura da presidência de uma instituição
como o Hospital Israelita Albert Einstein?
Cláudio
Lottenberg: Aprendi com meu saudoso pai, falecido em 1991,
um ser solidário e envolvido em trabalhos comunitários,
que a vida não pode ser vivida simplesmente quando o bem-estar
restringe-se ao conforto individual e ao da própria família.
Somos parte de um todo e devemos viver sem distinguir entre o que
é de responsabilidade pública e o que é de
responsabilidade privada. Portanto, é natural o meu sentimento
de atuar em atividades que não se restrinjam diretamente
ao meu bem-estar, mesmo porque, como parte deste todo, ganho com
o seu fortalecimento.
Como médico, a única diferença
foi agregar uma sólida formação acadêmica,
sem jamais esquecer meu forte vínculo de solidariedade humana
canalizado através de minha atividade médica e das
instituições em que atuo. Fui funcionário do
Hospital Israelita Albert Einstein, passei a integrar o seu Conselho,
a convite dos saudosos Jozef Fehér e Max Eberhardt, e, quando
da primeira gestão de meu antecessor, Reynaldo André
Brandt, passei a integrar a Diretoria. Em função de
dedicação, de preparo adquirido dentro da cultura
médica e de gestão, perpetuando valores que herdei
de minha família, como caráter e compromisso, e com
a confiabilidade de nossos colaboradores e de nossa comunidade,
recebi a incumbência de dirigir um hospital do porte do Hospital
Israelita Albert Einstein.
Morashá: Quais os projetos
prioritários que pretende realizar em seu mandato?
CL: A Sociedade
Beneficente Israelita Brasileira Hospital Albert Einstein é
formada por três áreas principais: o Hospital, o Instituto
de Ensino e Pesquisa e as Ações Sociais. A administração
do Hospital está profissionalizada sobre as vertentes de
qualidade, tecnologia de ponta e valorização de recursos
humanos, procurando estabelecer um relacionamento amistoso com clientes,
médicos, fornecedores e fontes pagadoras. Isto o torna cada
vez mais dinâmico frente às necessidades desses públicos.
Portanto, a visão do Hospital é absolutamente profissional;
todo o rigor técnico é aplicado para fortalecê-lo
e mantê-lo líder de mercado. Paralelamente, valorizamos
aquilo que nos diferencia desde nossa fundação
um forte sentimento de humanização. Temos que considerar
que o crescimento do Hospital está correlacionado ao mercado
da saúde. E, hoje, a saúde é estudada internacionalmente
através de ferramentas que a vêem não somente
como um direito social, mas também como bem financiável,
correlacionado ao PIB, à renda per capita, ao surgimento
de indústrias importantes, que influenciam todo esse encaminhamento,
além de contar com a participação de grandes
seguradoras. Isto tudo altera os mecanismos de sobrevivência.
Não são poucos os casos de instituições
norte-americanas, semelhantes à nossa, que não se
aperceberam disto e que foram obrigadas a encerrar suas atividades.
Em relação ao Instituto de
Ensino, temos a necessidade de dar-lhe a mesma visibilidade. A matéria-prima
para o nosso Instituto de Ensino e Pesquisa é o conhecimento
gerado no próprio Hospital. Alguns de nossos setores têm,
atualmente, expertise absolutamente diferenciada, como é
o caso da Unidade de Terapia Intensiva, do Programa de Transplantes,
da Oncologia, da área de Neurologia. Estes setores têm
uma base de conhecimento sólido, representando nichos estratégicos
de atendimento, dentro do Hospital, e também áreas
para ensino e pesquisa que se estabelecem com a massa crítica
que estamos estimulando. Fora isso, em nosso Hospital, através
de programas de qualidade e creden-ciamentos de órgãos
internacionais, adquirimos importante conhecimento de gestão
diferenciada. Evidentemente, podemos utilizá-lo não
só para aprimorar nossos processos de gestão interna,
mas para criar uma verdadeira escola de gestão. Esta poderá
beneficiar todo o nosso meio, considerando que a solução
do problema de saúde depende de uma boa alocação
de recursos humanos e materiais. Portanto, toda essa capacidade
de geração de informação, através
de nosso Instituto de Ensino e Pesquisa, conduz à formatação
de uma verdadeira universidade corporativa, que inclui os existentes
cursos de Técnicos de Enfermagem, os da Faculdade de Enfermagem,
os de Pós-Graduação e os demais cursos profissionalizantes
a serem criados.
O terceiro braço é a área
de Assistência Social. Nossa Sociedade Beneficente, apoiada
no valor da tsedaká, foi criada para praticar também
a justiça social. Temos assistido o empobrecimento da população
brasileira e, particularmente da comunidade judaica, acelerado pela
globalização. O problema não é a baixa
renda da população, mas, sobretudo, as discrepâncias
em sua concentração. Essas diferenças têm
repercussões importantes na violência que se observa
nas cidades. Aquilo que pudermos fazer em Saúde, no sentido
de minimizar tais discrepâncias, trazendo este bem à
população carente, fazendo dos excluídos seres
incluídos na sociedade, esta Sociedade Beneficente HIAE irá
fazer. Estamos trabalhando em áreas que o governo coloca
como sendo prioritárias, como por exemplo a formação
de agentes de saúde com treinamento na área de gestão.
Os transplantes, o Hospital Albert Einstein os realiza através
do Sistema Único de Saúde e isto privilegia em grande
parte a população carente e nos diferencia na alta
complexidade. Quanto à comunidade judaica, temos planos de
poder viabilizar todo um processo de atendimento que crie condições
de tratá-los melhor, no ambiente do próprio Hospital,
e, sobretudo, de aprimorar a sua qualidade de vida, através
da prevenção e reabilitação. Entendo
que o compromisso do médico é tratar não apenas
a doença, mas ter a consciência de que por trás
desse estado existe um ser humano que, temporariamente, precisa
de interferência médica.
Morashá: Como está
o Brasil quanto à pesquisa científica?
CL: O Brasil
está aumentando significativamente sua presença no
cenário mundial. Entre 1994 e 1999 os investimentos em pesquisa
e desenvolvimento aumentaram 34%. Somente nos gastos com pesquisa
de novos tratamentos, estima-se um investimento de mais de US$ 130
milhões. No mundo, este montante é de US$ 60 bilhões.
Na pesquisa clínica, saltamos de 169 estudos, em 1997, para
958 no ano 2000. Este número deve, pelo menos, quadruplicar
em 2002. O Brasil tem legislação específica
nesta área e a Comissão Nacional de Ética em
Pesquisa registra mais de 300 entidades autorizadas a fazer estudos
clínicos em nosso meio. Na área de pesquisa biomédica,
nossas universidades e centros de pesquisa têm auxiliado muito
nas descobertas em várias áreas do conhecimento. Só
para exemplificar, citamos as contribuições na área
genômica com o seqüenciamento de pragas agrícolas,
como o caso da Xylela, integralmente estudado na USP; e o projeto
Genoma Clínico, com várias universidades e centros
de pesquisa participantes, sob a tutela da FAPESP (Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Tudo
isso sem falar nos grandes ex-poentes em pesquisa que temos no Brasil
e na pesquisa aliada ao desenvolvimento de produtos. Hoje os institutos
brasileiros são capazes de produzir testes laboratoriais,
vacinas e medicamentos. É o caso da Fundação
Manguinhos e do Instituto Butantã. Por tudo isso, estou extremamente
otimista com o cenário no qual o Brasil está-se inserindo
e nós, do Einstein, esperamos poder contribuir fortemente
neste sentido.
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