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Abrahão madruga, no dia seguinte, e inicia a jornada, levando
consigo dois moços e seu filho, Itzhak. Viajam por três
dias. Explica o Midrash a razão para ter tardado tanto a
caminhada para que não se dissesse que pai e filho
tinham agido num estado de estupor com o mandamento Divino, sem
ao menos raciocinar. Pelo contrário, estavam plenamente cônscios
do que faziam; não estavam cegamente cumprindo uma ordem
de Dus.
Entretanto, Satã percebe que sua armação se
virara contra ele. Sabia que Abrahão e Itzhak passa-riam,
incólumes, pelo teste e, em conseqüência disto,
seus descendentes seriam abençoados para todo o sempre. Um
dia, num futuro distante, seus descendentes fariam acontecer uma
era em que seus poderes de morte e destruição seriam
vencidos, e ele, Satã, deixaria de existir.
Assim sendo, o anjo do mal novamente entra em ação,
tentando, desta vez, interromper o evento que ele mesmo instigara.
Começa por Abrahão, tentando convencê-lo a poupar
Itzhak, desobedecendo ao mandamento Divino. Mas, apesar das provocações
e zombarias, o velho Abrahão não titubeia. Ao falhar
com o pai, passa Satã para o filho. Revela-nos o Midrash
que ele se disfarça, perante Itzhak, como um garoto: Onde
vais? pergunta. Estudar a Torá, responde
o filho de Abrahão. Agora ou depois de tua morte?,
pergunta-lhe. Que pergunta tola. Não sabes, porventura,
que a Torá só é dada aos vivos?, responde-lhe
Itzhak. É quando Satã, finalmente, deixa-se desmascarar:
Pobre filho de uma pobre coitada. Durante anos a fio ela orou
por ti, e agora teu pai, tendo perdido a razão, está
prestes a te matar!
Itzhak volta-se, então, a seu pai: Cá estão
o fogo e a madeira, mas e o carneiro para a oferenda? Abrahão
retruca: Dus irá prover, Ele mesmo, o carneiro
para o sacrifício, meu filho. E o filho percebe, finalmente,
o que está para acontecer. O Midrash revela que em vez de
se desesperar, Itzhak passa a confortar o pai: Não
sofras, pai. Cumpre, por meu intermédio, o desejo de Teu
Criador. Que meu sangue sirva de expiação para teus
futuros descendentes.
Pai e filho seguem seu caminho. Um para executar, o outro para ser
executado, mas ambos igualmente decididos a cumprir a ordem Divina.
Finalmente, na manhã de seu terceiro dia de viagem, chegam
ao Monte Moriá, descrito no Midrash como uma esplendorosa
montanha sob uma nuvem de fogo. Os dois homens que os tinham acompanhado
ficam para trás, enquanto pai e filho iniciam a subida rumo
ao sacrifício. Juntos, recolhem os gravetos e juntos os dispõem
sobre a pedra que serviria de altar. Abrahão ata seu filho
e o coloca sobre os gravetos, no altar. Itzhak pede ao pai que o
amarre com força, para que o sacrifício transcorra
da maneira correta. Abrahão toma da cintura o facão
para sacrificar seu filho. E então, quando já parecia
certa a morte de Itzhak, um anjo de Dus chama, dos céus,
Abrahão! Abrahão!
Não estendas tua
mão contra o rapaz nem faças nada contra ele, pois
agora sei que és um homem temente a Dus, já
que não poupaste teu filho, teu único filho, de Mim.
Abrahão ergue seus olhos, e vê um carneiro preso pelos
chifres num galho da árvore, e Abrahão tomou
o carneiro e o ofereceu como sacrifício em lugar de seu filho.
Foram escritos inúmeros comentários sobre a Akeidá.
Por que teria Dus posto à prova os dois homens a quem
Ele mais amava? O Midrash nos dá uma resposta: Dus
testa apenas os fortes, não os fracos; como a cerâmica,
a fraca quebra quando atirada ao solo, enquanto a de alta resistência
permanece intacta. Outra explicação: Dus, que
é Onisciente, conhece de antemão o resultado e, portanto,
o propósito de uma provação é permitir
que o homem descubra suas forças mais intrínsecas.
Dus testa os fortes para que, mais tarde, Ele os possa recompensar.
E, de fato, Abrahão e Itzhak foram recompensados para todo
o sempre. Após a Akeidá, enquanto ambos estão
ainda no Monte Moriá, o anjo lhes aparece pela segunda vez
e anuncia: Por Mim, jurei, disse o Eterno! Porque fizeste
esta coisa, e não Me negaste teu filho, teu único
filho, Eu te abençoarei, e multiplicarei tua semente, como
as estrelas dos céus, e como a areia que está à
beira-mar; e... E, em tua semente, se abençoarão todas
as nações da terra; porque tu ouviste a Minha voz.
Por que teria um anjo e não Dus, Ele pró-
prio revogado o decreto? O Midrash oferece uma bonita explicação
para isto: somente Dus pode decretar uma morte, mas basta
um anjo para salvar uma vida humana.
Muitas lições podem ser tiradas da Akeidá.
Destaca-se particularmente uma: um homem pode ficar passivo diante
de um decreto quando este diz respeito apenas a ele próprio,
não quando se trata de outros. A Torá conta que antes
ainda de Itzhak nascer, Dus aparece a Abrahão informando-lhe
que Ele estava prestes a destruir as cidades da perdição,
Sodoma e Gomorra. Abrahão implora ao Criador que Este poupe
a cidade se nelas houver, ao menos, dez homens justos. Abrahão
ousa mesmo questionar a Justiça Divina nesse decreto. No
entanto, anos mais tarde, quando Dus ordena que Abrahão
sacrifique seu próprio filho, ele atende, sem sequer e jamais
questionar o mandamento Divino. O primeiro patriarca dos judeus
ensinou-nos que nunca devemos permanecer passivos diante do sofrimento
de outrem, ainda que tal sofrimento tenha sido decretado por Dus.
A pessoa pode mesmo aceitar seus próprios infortúnios,
enfrentando, em silêncio, o horror de uma Akeidá, confiando
em Dus que aquilo certamente será para o seu bem
gamzú le-tová. Mas nunca poderá o indivíduo
ousar fazer o mesmo quando se tratar da desgraça e do sofrimento
alheios.
No que toca a Itzhak, vemo-lo exibir semelhante comportamento ao
de seu pai. Ao perceber que estava para ser sacrificado, expressa
preocupação por seus pais, não por si próprio.
Ouçamos, novamente, o que nos tem a dizer o Midrash: Pai,
o que farão, você e minha mãe, quando eu tiver
partido? Aquele que nos consolou até agora continuará
a nos consolar, responde-lhe Abrahão. E, mais tarde,
Itzhak pede a seu pai que tenha cuidado especial ao levar a notícia
de sua morte à Sara: Pai, ao contar à minha
mãe, certifique-se que ela não esteja perto de um
poço, nem no telhado, pois do choque poderá cair e
se ferir.
Ainda mais reveladora é a reação de Itzhak
após a Akeidá: o silêncio. Nem um suspiro de
alívio, nem uma palavra de graças por ter sido poupado.
O segundo patriarca judeu, que personificava o atributo Divino da
guevurá, tinha alcançado o absoluto auto-controle
e disciplina no atendimento a Dus. A ele não importava
se viveria ou morreria, se seria ou não sacrificado, desde
que estivesse atendendo a vontade do Criador. Qualquer sentimento
de horror ou desespero que ele possa ter sentido, referia-se a seus
pais e a seu povo. Ele sabia que a vida dos patriarcas é
um sinal para seus filhos e, portanto, sua história assombrosa
seria reencenada e revivida por vários de seus descendentes.
Muitos outros de nosso povo foram, de fato, levados ao extermínio,
optando pela morte e por não trair a seu Dus e a sua
fé, mas diferentemente de Itzhak, estes outros não
foram poupados.
Ele rirá
O tema da Akeidat Itzhak é central em nossas orações
de Rosh Hashaná. O trecho da leitura da Torá no segundo
dia da festa é justamente este. O Talmud nos ensina que Dus
considera que nosso antepassado Itzhak realmente foi sacrificado
e que seus restos mortais foram queimados no altar erguido por seu
pai no Monte Moriá. E conta que a razão para isso
seria que o Eterno considera uma intenção sincera
e honesta como equivalente a uma ação. Em Rosh Hashaná,
período em que Dus julga cada um de nós, invocamos
os méritos de Itzhak como fonte de bênção
e proteção para nós, seus descendentes. Esta
é uma das razões pelas quais tocamos o shofar em Rosh
Hashaná. O shofar, feito do chifre de um carneiro, remete-nos
à Akeidá, quando um animal foi sacrificado em lugar
de Itzhak.
O Templo Sagrado de Jerusalém foi erguido no Monte Moriá,
no local exato em que se realizou a Akeidá. Esta foi mais
uma das dádivas de Dus a Itzhak e a seus descendentes.
O Templo era o centro da espiritualidade, de onde as preces seguramente
alcançavam o Firmamento. Era, então, muito apropriado
que o Templo fosse erguido no local em que Itzhak fora levado e
poupado do sacrifício, pois a Akeidá é uma
reafirmação de que Dus valoriza a vida e a misericórdia,
e não a morte, mesmo se esta for em Seu Nome Sagrado.
Voltemos, pois, à nossa pergunta inicial: por que teria
o segundo patriarca do povo judeu recebido o nome de aquele
que rirá? Pelo fato de que ele veio a este mundo para
nos ensinar que mesmo tendo sobrevivido a um evento traumático,
o propósito da vida é continuar vivendo e amando,
rejubilando-se e agradecendo a Dus e, acima de tudo, compartilhando
todo esse amor e esse júbilo com nossos semelhantes. Seguindo-se
aos acontecimentos da Akeidá, Itzhak casa-se com uma mulher
linda e bondosa, chamada Rivka Rebeca a quem ele muito
amou. Ele instituiu o serviço de minchá, a reza do
entardecer. Ele também trabalhou muito, sempre cumprindo
com a obrigação do dízimo de seus rendimentos
aos pobres, à viúva e ao órfão, sendo,
em troca, abençoado por Dus, tornando-se extremamente
rico. O homem que simbolizava o auto-controle soube ensinar a generosidade
e as virtudes da riqueza. Itzhak e Rivka tiveram um casal de gêmeos.
Um destes, Yaacov, terceiro e último dos patriarcas do povo
judeu, foi o mais justo dentre todos os seres humanos na face da
Terra.
E, por isso, Itzhak recebeu o nome de ele rirá.
Pois ele, como muitos de seus descendentes, simboliza o sobrevivente
que foi abençoado e prosperou.
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