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A missão

Em março de 1944, uma semana antes de que os alemães ocupassem a Hungria, Hannah e mais quatro pára-quedistas foram lançados por aviões aliados sobre a Eslovênia, rumo a Budapeste. Esperavam conseguir, com a ajuda dos partisans de Tito, atravessar a fronteira da Hungria. Hannah ficou três meses com este grupo para que a ajudassem a chegar até a Hungria. Foi nesta época que ela escreveu um de seus mais famosos poemas – “Abençoado o fósforo”.

No dia 7 de junho de 1944, no período da mais intensa deportação de judeus húngaros pelos nazistas, Hannah cruzou a fronteira da Hungria. Atravessou com dois companheiros e alguns guias mais de 450 quilômetros de território controlado pelas tropas alemãs. As ordens britânicas eram precisas: primeiro deveriam ser socorridos os pára-quedistas britânicos em mãos dos nazistas. Só depois de completar esta missão os jovens poderiam ajudar os judeus locais.

Mas toda a missão chegou bruscamente ao fim poucos dias após sua chegada. Traída por um informante – um dos partidários de Tito que fazia parte do grupo – Hannah foi capturada pela polícia húngara. No momento em que foi detida, estava de posse de um rádio transmissor.

Presa, foi levada para uma prisão em Budapeste. A Gestapo e o serviço de contra-espionagem húngaro a interrogaram e torturaram brutalmente durante vários meses. Queriam que ela revelasse detalhes de sua missão e o código britânico de rádio. Mas Hannah não revelou qualquer informação. Na tentativa de fazê-la falar, a polícia prendeu no dia 17 de junho sua mãe, Katherine Szenes, que ainda vivia em Budapeste, acreditando que seus filhos estivessem a salvo em Eretz Israel. Ameaçaram a jovem de torturar sua mãe na sua frente e depois matá-la. Mesmo assim, Hannah não cedeu e não revelou o código. No primeiro dos poucos encontros que teve com a mãe, apesar de ferida pelas torturas e espancamentos, pediu que a mãe compreendesse por que tinha que ficar calada – não poderia trair seu povo. “Mãe, me perdoa” disse, chorando, a jovem à mãe que a olhava sem acreditar no que via: sua filha, naquela prisão, presa e ferida, e não a salvo em Eretz Israel. No fundo de seu coração Katherine sabia que – apesar de Hannah negar o fato – sua filha voltara à Hungria por sua causa, para tentar salvá-la. Enquanto na prisão, vários dos detentos contaram para Katherine quão gentil e bondosa era a jovem; contaram que antes de sua chegada, haviam perdido toda e qualquer esperança, mas que ela era uma como uma luz na escuridão, que transmitia a todos a força para continuar a lutar e a ter fé. Ela cantava, ensinava músicas, danças, o hebraico. Contava sobre Eretz Israel, a história de sua Terra, a esperança no futuro, a esperança do dia da vitória do povo de Israel. Um deles escreveu: “Sua atitude frente à Gestapo e às SS foi memorável. Ela sempre parava à sua frente, alertando-os sobre o destino que teriam após sua derrota. Curiosamente, aqueles animais selvagens, dos quais qualquer traço de humanidade parecia ter desaparecido, sentiam-se envergonhados na presença dessa jovem refinada e corajosa”.

Convencidos de que a jovem não falaria e sentindo que os alemães estavam prestes a serem derrotados, a policia húngara acabou libertando Katherine Szenes em Yom Kipur.

O julgamento

Depois de cinco meses na prisão, no dia 28 outubro de 1941, Hannah foi levada a um suposto julgamento, acusada de “traição” contra a Hungria. O “julgamento” ocorreu apesar de ser evidente desde setembro que a Alemanha estava perdendo a guerra, e que a Hungria queria libertar-se do jugo nazista.

Durante o “processo” ela defendeu com firmeza suas ações e seus ideais. Recusou-se a pedir clemência. Corajosa até o fim, foi executada por um pelotão de fuzilamento no dia 7 de novembro. Na hora da execução não quis colocar a venda sobre os olhos, queria encarar seu destino e seus carrascos. Prisioneiros que testemunharam a sua execução ficaram emocionados com tanta coragem. Suas últimas palavras para os companheiros foram: “Continuem no caminho, não se deixem deter. Continuem a luta até o fim, até que a liberdade chegue, o dia da vitória para o nosso povo”. Hannah tinha somente 23 anos.

Poucos dias depois os russos tomaram Budapeste, prendendo ou matando todos os nazistas ou aqueles que os haviam apoiado. Sua mãe conseguiu sair de Budapeste e foi juntar-se ao filho Giora, em Israel.

Hannah se tornara um símbolo de heroísmo e dedicação. Sua coragem pessoal foram fonte de inspiração e estímulo para os judeus da Europa, mesmo que ela e seus companheiros não tivessem tido sucesso em suas missões. Sua imagem jovem e radiante, usando o uniforme militar, podia ser vista nas casas de cada cidade e vilarejo de Eretz Israel.

Em 1950, os restos mortais de Hannah foram levados a Israel e novamente enterrados, com honras militares, no cemitério militar localizado no Monte Herzl. Um vilarejo foi nomeado Yad Hannah em sua homenagem. Seu diário e seus trabalhos literários foram publicados em hebraico, em 1945, sendo posteriormente traduzidos para vários idiomas, inclusive o húngaro. Ela foi também tema de inúmeros trabalhos artísticos, entre os quais uma peça teatral de autoria do escritor israelense Aharon Megged e um filme. Vários poemas de autoria de Hannah, entre os quais “A caminho de Cesaréia” e “Abençoado o fósforo” foram musicados.n

Bibliografia
Sachar, Abraham, The Redeption of the Unwanted
Slater, Elinor and Robert, Great Jewish Women
Entrevista de Katherine Szenes a David Alster Yardeni, em 7 de maio de 1987, na internet.

 
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