MULHERES NA HISTÓRIA
 
HANNAH SZENES - POETISA E HEROÍNA



Foto Ilustrativa

Edição 38 - Setembro de 2002
Hannah Szenes nasceu em Budapeste, na Hungria, no seio de uma abastada família de intelectuais judeus. Seu pai, Bela Szenes, escritor e jornalista de sucesso, morreu quando ela e Giora - seu único irmão, um ano mais velho - eram ainda muito jovens. Hannah tinha apensa seis anos e sua mãe, Katherine, teve que cria-los sozinha.
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Durante a infância, Hannah teve pouco contato com o judaísmo, pois seus pais, assim como muitos judeus húngaros, haviam-se assimilado totalmente ao meio circundante.
Hannah era uma criança especial. Desde pequena demonstrava a força de caráter que moldou sua vida, sempre dizendo que queria “fazer uma diferença, no mundo”. Brilhante desde a infância, logo demonstrou um notável talento literário especialmente para a poesia, primeiro em húngaro e, posteriormente – após se tornar uma ardente sionista – em hebraico. Com 13 anos iniciou um diário no qual registrou seus pensamentos e os acontecimentos que marcaram sua curta vida. É através de suas palavras no diário e de suas poesias que Hannah se revela.
Sua vida em Budapeste

Hannah e seu irmão receberam uma excelente educação, freqüentando as melhores escolas de Budapeste. Até completar dez anos, a menina, excelente aluna, estudou em escola pública de Budapeste, até conseguir ser aceita em uma escola particular protestante, só para meninas. A escola havia recentemente aberto suas portas a católicos e judeus, desde que pagassem uma mensalidade maior. No caso de uma jovem católica, a escola cobrava o dobro da mensalidade “normal” e, quando se tratava de uma judia, o triplo. Apesar do crescente anti-semitismo na Budapeste da década de 30, a mãe de Hannah nunca cogitou colocar os filhos em uma escola judaica.
Foi nesta escola protestante que Hannah começou a conhecer e amar o judaísmo. Um de seus professores era o rabino-chefe de Budapeste, Imre Benoschofky. Grande estudioso e ardente sionista, o rabino Benoschofky teve uma profunda influência sobre o nascente interesse da jovem pelo judaísmo e sionismo, por tudo que dizia a respeito de seu povo. Foi também nesta escola que Hannah teve seus primeiros contatos com o anti-semitismo e com a discriminação imposta aos judeus.
A década de 1930 foi difícil para os judeus da Europa, um prelúdio do terrível pesadelo que iria abater-se sobre a população judaica da região. Após a Primeira Guerra Mundial, um crescente sentimento anti-semita começava a tomar conta da Hungria. Assim como em outras partes da Europa, os judeus eram vistos como os “grandes responsáveis“ por todos os males do país. O crescente anti-semitismo oficial resultara na promulgação de uma dura legislação antijudaica .
Na época, Hannah era uma jovem bonita, talentosa e decidida. Ao completar 17 anos foi eleita presidente da sociedade literária da escola, mas não assumiu o posto, pois foi informada de que jamais uma judia poderia assumir a presidência de tal – ou de qualquer outra – sociedade. Na ocasião, a jovem escreveu em seu diário: “Você precisa ser alguém excepcional para lutar contra o anti-semitismo... Só hoje comecei a realmente entender o que significa ser judeu em uma sociedade cristã. Mas eu não me importo. É porque temos sempre que lutar muito por tudo que queremos; é porque é sempre mais difícil para nós, judeus, atingirmos nossos objetivos que acabamos desenvolvendo qualidades excepcionais... Se eu fosse cristã, todas as profissões estariam abertas para mim”.
Hannah sabia que se tornar cristã, como lhe havia sido sugerido e como outros haviam feito, não era uma opção para ela. Ao invés de se converter, abandonou a sociedade literária, cortando todos os vínculos que tinha com a entidade. Na mesma época tornou-se membro de um grupo sionista jovem e muito ativo, os Macabim. No final de outubro de 1938, escreveu em seu diário: “Tornei-me sionista e esta palavra tem para mim inúmeros significados. Agora sinto de uma forma consciente e profunda que sou judia e muito orgulhosa de o ser. Minha meta é ir para Eretz Israel e tudo farei para consegui-lo”.
Em março de 1939 Hannah se formou. Era uma das melhores alunas da classe e seus professores tentaram fazê-la desistir da idéia de deixar a Hungria e ir para Eretz Israel, pois acreditavam que ela devia tornar-se cristã e, com suas notas,poderia ingressar na universidade e ter “um futuro promissor”. Mas a jovem estava mais do que decidida. Assim que recebeu a resposta de sua admissão em uma escola agrícola em Nahala, embarcou rumo ao seu sonho – a Terra de Israel. Era setembro de 1939 e a Alemanha já iniciara sua campanha mortífera contra a Europa e os judeus.

Sonho realizado

Ao chegar em Eretz Israel, Hannah escreveu sua primeira carta para a mãe revelando sua felicidade por lá estar: “Estou em casa. Aqui é para onde me trouxe a minha ambição de vida – poderia dizer minha vocação, porque sinto que, por estar aqui, estou cumprindo uma missão, não apenas vegetando; aqui cada vida é o cumprimento de uma missão.” Para completar sua alegria, seu irmão Giora juntou-se a ela poucos meses depois.
Em 1941 Hannah integrou-se ao Kibutz Sdot Yam, perto de Cesáreia, e se alistou na Haganá. No ano seguinte, entrou para o Palmach, braço armado da Haganá. Enquanto estava em Sdot Yam, Hannah escreveu várias poesias e uma peça sobre a vida no kibutz. Mas as terríveis notícias sobre a situação dos judeus na Europa a deixavam angustiada e preocupada. Assim como todos em Eretz Israel, ela sentia que devia fazer algo para ajudar os judeus europeus. Estava também preocupada com sua mãe, que ainda vivia em Budapeste. Hannah queria de alguma forma voltar para a Hungria para salvar a mãe e ajudar a organizar a saída de judeus – especialmente os jovens – do país e da Europa. Em 1943, um milhão e duzentos e cinqüenta mil judeus ainda estavam vivos na Hungria, Eslováquia, Romênia e Bulgária.
Em 1943, Hannah se alistou no exército britânico para poder participar da luta contra os nazistas, voluntariando-se para uma operação de salvamento. O projeto se originara nas pesadas perdas sofridas por bombardeiros aliados durante os ataques. Os britânicos estavam convencidos de que havia necessidade de mais informações sobre as defesas alemãs. Diante disso, a liderança da Haganá fez uma proposta à Grã Bretanha: judeus com ligações nessas regiões poderiam ser lançados de pára-quedas, sobre a Europa, para exercer a dupla função de agentes secretos, ajudando os Aliados na Europa, e, ao mesmo tempo, tentar organizar alguma forma de resistência nas comunidades judaicas.
Depois de muita hesitação, os britânicos aprovaram o plano e 32 judeus palestinos – 30 homens e 2 mulheres – foram aceitos para a missão. Hannah estava entre os primeiros a se alistar. Os britânicos levaram os jovens para o Cairo, no Egito, onde foram treinados. Todos que haviam-se voluntariado para a missão eram nativos das regiões para as quais seriam eventualmente enviados, falavam as línguas fluentemente e ainda tinham parentes nesses países. Ninguém punha em dúvida a coragem e a bravura dos jovens; todos sabiam que a missão era muito perigosa e que poucos retornariam com vida. Hannah incentivava seus companheiros, dizendo: “Somos os únicos a poder ajudar, não temos o direito de pensar em nossa própria segurança; não temos o direito de hesitar, de ter medo... é melhor morrer com a consciência do dever cumprido do que voltar sabendo nem haver tentado”.

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