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Para dar continuidade à missão, Steiner e Goldstein
foram à Jordânia para determinar como continuar com
o projeto. O esquema elaborado exigiu a contratação
de mais pessoas, incluindo um indivíduo do Iraque que arrendava
caminhões, com pneus enormes. Tais pneus tiveram um papel
preponderante para o êxito da operação, pois
foram nestes que os pergaminhos foram escondidos depois de serem
enrolados em plástico. Os pneus eram esvaziados, o material
escondido, e novamente preparados para seguir viagem, sem chamar
a atenção de ninguém.
Foi em um hotel de Amã, no qual um dia funcionara a Embaixada
de Israel, que Steiner e Goldstein efetuaram o minucioso trabalho
de examinar cada parte dos pergaminhos para comprovar sua autenticidade,
antes de efetuar a compra. Marcações e códigos
foram utilizados para separar os que estavam perfeitos, os que poderiam
ser restaurados e os que deveriam ser enterrados. Apesar de inicialmente
estarem dispostos a apenas comprar os que poderiam ser restaurados,
os dois religiosos acabaram levando todos, mas pagaram apenas pelos
que seriam novamente usados.
Para proteger a missão, Steiner e Goldstein foram obrigados
a recorrer a vários disfarces, envolvendo inclusive os seus
familiares nas constantes viagens à Jordânia. Uma vez
viajaram como turistas curdos, por causa de suas barbas. Outra vez
Steiner levou seu filho, fazendo-se passar por um empresário.
Também não foram poucas as vezes nas quais levou a
esposa Riki, pois, como afirmou, todos sabem que mulheres
costumam carregar muitas malas quando viajam e assim ninguém
estranharia o tamanho da nossa bagagem, no meio da qual estavam
os pergaminhos.
As viagens foram consideradas pela esposa de Riki como experiências
marcantes, pela maneira hospitaleira como foram recebidos por Abed
e sua família e também por serem na Jordânia.
Ela disse que, para ela, era muito difícil acreditar que
estava na Jordânia, pois cresceu em Abu Tor, região
fronteiriça da Jordânia com Israel, e se acostumou
a ver os soldados do outro lado da cerca e a considerá-los
inimigos. E, agora, ela estava na Jordânia sendo recebida
em um lar jordaniano!
A missão de resgate dos 54 rolos da Torá do Iraque
recebeu também a bênção do Grão-Rabino
sefaradita Mordechai Eliyahu, de descendência iraquiana, que
se mostrou entusiasmado com o que eles estavam fazendo pois era
uma grande mitzvá salvar rolos da Torá. Segundo o
Grão-Rabino, suas ações correspondiam à
mitzvá de salvar os cativos, os prisioneiros, pois podia-se
dizer que os pergaminhos estavam presos no Iraque.
No total, foram feitas cerca de sete viagens à Jordânia.
Não se pode dizer, no entanto, que esta tenha sido uma operação
tranqüila, pois quando começaram a circular os primeiros
boatos sobre o caso, um membro do governo de Israel cujo
nome foi mantido em sigilo pelos rabinos resolveu transformar
a missão em um evento da mídia. Entrou em contato
direto com Abed, combinou uma entrega de pergaminhos na Ponte Allenby
e, no dia marcado, levou a imprensa e a televisão ao local.
Ao saber do fato, o rabino Steiner, temeroso das conseqüências
tanto para Abed como para o projeto, tentou convencer, sem sucesso,
o representante do governo e a televisão a não irem
adiante com o plano.
No dia marcado, estavam na Ponte Allenby, à espera de Abed:
o membro do governo, seu staff, e as câmaras de televisão,
mas o jordaniano não apareceu. O evento acabou sendo um grande
fiasco. Abed não aparecera para o encontro porque havia sido
preso e acabara numa prisão israelense. Só após
fazer contato com o rabino, foi libertado graças à
intervenção direta de Steiner.
A missão foi, então, retomada e o último dos
54 rolos chegou a Israel, há dois anos. Steiner e Goldstein
dizem que teriam mantido o segredo para sempre, pois acreditavam
que ainda havia pergaminhos no Iraque.
A operação chegou ao fim quando Abed foi preso, há
cerca de dois anos, no Iraque. Ultraconfiante de seu esquema, começou
a desrespeitar normas de segurança básica e a fazer
as viagens para Bagdá em seu próprio carro. Já
não alugava caminhões nem usava pneus grandes para
esconder sua mercadoria, guardando-a em suas botas sem sequer envolver
os pergaminhos em plástico. Ao ser preso, foi acusado de
contrabando, as autoridades iraquianas confiscaram quatro rolos
de Torá que estavam com ele e ameaçaram enforcá-lo
como colaborador do Mossad.
O Rabino Steiner contou que perdeu o contato com Abed, sendo informado
apenas que ele desaparecera. Surgiram histórias posteriormente
de que ele teria pago US$ 100 mil para sair da prisão, sendo
expulso do Iraque para sempre. Certo dia, Steiner recebeu um telefonema
de Abed que, dizendo estar em Bethlehem, prometeu-lhe mais rolos.
Apesar de se terem encontrado e conversado bastante, nada de concreto
ficou definido. Steiner acredita que Saddam Hussein mandou destruir
o que havia restado das Torot, pois do contrário, Abed teria
encontrado uma maneira para contrabandeá-las para o exterior.
Todos os pergaminhos resgatados foram examinados e recuperados,
sendo distribuídos a sinagogas. Todos, exceto um, que ficou
com o rabino Steiner. Recentemente, durante uma viagem aos Estados
Unidos para examinar uma Torá, encontrou um pergaminho de
pele de veado com uma de suas anotações. Provavelmente,
este rolo que fazia parte do primeiro lote de rolos resgatados foi
comprado por algum colecionador que o vendeu e, de alguma forma,
chegou até a América do Norte.
Quando perguntados sobre seus sentimentos sobre este episódio,
os dois rabinos falam de sua satisfação por saber
que fizeram o melhor que podiam para salvar os pergaminhos, impedindo
que fossem destruídos. Espalhados pelas sinagogas de Israel,
são lidos pelos fiéis nos dias da semana e nas comemorações
festivas.
Baseado em artigo publicado no
Jerusalém Post, 29 de maio de 2002
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