Mundo Judaico
Epopéia no Iraque



Foto Ilustrativa

Edição 38 - Setembro de 2002
Em uma operação clandestina que durou cinco anos, cinquenta e quatro rolos de Torá do Iraque para Israel, sendo salvos da destruição. Oficiais de exército, ministros de governo, homens comuns e de diferentes nacionalidades, rabinos, especialistas em pergaminhos, contrabando, disfarces e, principalmente, muito segredo.
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Estes são, com certeza, componentes que qualquer escritor criativo transformaria em enredo de uma boa história de ficção. Mas, desta vez, juntos compuseram a trajetória de uma trama verídica que começou no Iraque e terminou em Israel, com a chegada de 54 rolos de Torá resgatados sob o regime de Saddam Hussein com a participação de um comerciante jordaniano, dois rabinos israelenses e outros personagens.

Mantida durante cinco anos em segredo, a epopéia dos Sifrei Torá iraquianos tornou-se pública em meados de 2002, quando a pressão da imprensa israelense levou o governo a quebrar o sigilo e expor os pontos principais da operação secreta, encabeçada pelos rabinos Itzhak Steiner e seu cunhado, Itzhak Goldstein. Mais tarde os dois deram detalhes da missão, que foi mantida em segredo justamente para que não fosse prejudicada e nem colocasse em risco a vida dos envolvidos.

Os dois rabinos são dirigentes de uma organização, em Jerusalém, chamada Ot (em hebraico, “letra”) que tem como objetivo resgatar e restaurar rolos de Torá de comunidades judaicas extintas ou em fase de desaparecimento. Durante os governos comunistas, a Ot conseguiu resgatar centenas de pergaminhos da Europa Oriental, principalmente da Checoslováquia e da Hungria, levando-os a Israel. Os que podem ser restaurados são posteriormente distribuídos pelas sinagogas de Israel; os demais são enterrados, de acordo com as tradições judaicas.

Segundo as palavras do rabino Steiner, tudo começou com um telefonema recebido de Hebron e com uma pergunta de seu interlocutor: “Quer comprar rolos de Torá? Meu parente, um jordaniano, tem um para vender”. “Como costumamos receber inúmeros telefonemas como este, justamente em função do trabalho que fazemos, não o levamos muito a sério e dissemos que, se realmente o pergaminho existia, gostaríamos de vê-lo”, conta o religioso.

Alguns dias depois, um homem contrabandeou dois rolos da Jordânia. Imediatamente os dois rabinos confirmaram a autenticidade do valioso pergaminho iraquiano, escrito sobre pele de veado e não de carneiro, como geralmente ocorre. Steiner explicou que os judeus iraquianos criavam veados e após abater os animais, seguindo as leis da Halachá, comiam sua carne e usavam a pele para fazer os pergaminhos. Sem demonstrar sua excitação e contentamento, os dois resolveram ir à Jordânia em busca de outros rolos. Assim, em 1995, Steiner e Goldstein foram a uma modesta casa em Amã, onde morava um indivíduo que eles passaram a identificar apenas como Abed. Ele não lia hebraico, mas era perito em relação à mercadoria que desejava vender. Sabia onde faltava uma linha ou uma página. E dizia que seu objetivo não era apenas comercial, pois acreditava que se os rabinos um dia encontrassem uma cópia antiga do Alcorão também a devolveriam a um muçulmano.

Abed então lhes contou que a história dos pergaminhos começara em 1991, durante a Guerra do Golfo. Os judeus fugiram abandonando tudo nas sinagogas e Saddam Hussein resolveu recolher os rolos, ameaçando destruí-los. Para comprovar sua teoria, Abed mostrou aos rabinos a foto de uma sala, em um subúrbio de Bagdá, com dezenas de rolos, dizendo que um oficial das forças armadas iraquianas logo percebeu que poderia ganhar muito dinheiro com essa coleção de objetos religiosos e forjou uma assinatura, determinando a transferência dos pergaminhos para outro local.

Teria sido através deste contato que Abed envolvera-se no caso, chegando então aos rabinos Steiner e Goldstein. Foi o início de uma longa batalha até se chegar a um acordo comercialmente aceito por ambos os lados. Inicialmente Abed pediu US$ 1 milhão por cada rolo, mas após muita negociação concordou em vender os seis rolos, por US$ 15 mil cada um. E este acabou sendo o preço estipulado para os outros rolos. Os dois rabinos receberam, em sigilo, do Ministério de Assuntos Religiosos e de alguns doadores, o apoio financeiro necessário para concluir a transação.

Segundo os especialistas, estes pergaminhos têm um valor inestimável, pois não se fazem mais rolos assim. Uma Torá nova custa cerca de US$ 30 mil; uma antiga, bem conservada, custa US$ 100 mil. Abed levou os primeiros seis rolos através da Ponte Allenby e quando questionado pelos guardas de fronteira, afirmou que estava importando couro para sapatos. Ele conseguiu fazer a primeira entrega na Ot, recebeu o seu dinheiro e voltou para casa, em Amã.

Uma descoberta tão importante como esta não poderia passar desapercebida das autoridades e, em pouco tempo, um representante do Gabinete do Primeiro-Ministro de Israel ofereceu ajuda para o resgate do restante dos pergaminhos iraquianos, desde que a operação fosse mantida em sigilo absoluto. Apesar do perigo, era importante para Israel resgatar os rolos da Torá.

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