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Em outubro de 2000, Shimon Ohana, um oficial da polícia de fronteiras, de 18 anos, foi dado como morto, ainda em campo. Mas eu pedi ao motorista da ambulância que o trouxesse ao hospital. Algumas decisões são difíceis de serem tomadas no local da ocorrência. Tirei o pano que o cobria, abrimos a sua cavidade torácica e começamos a trabalhar. Trouxemo-lo de volta à vida, mas ele ficou em coma durante 17 dias.

Por fim, acordou.

Hoje, ele é um rapaz perfeitamente normal que amestra cães e adora computação. Ele vive em Beersheva, mas vem com freqüência ao Hospital Hadassah para acompanhamento de seu tratamento ou para servir de estímulo aos nossos outros pacientes. Não consigo resistir e o abraço, apertado: ele me faz lembrar, continuamente, que não podemos perder as esperanças.

Todos são tratados da mesma forma

As ambulâncias enfileiradas trazem, inevitavelmente, uma percentagem razoável de pacientes árabes.

Não podemos distinguir se são os perpetradores ou as vítimas. E mesmo se pudéssemos, não faria diferença alguma: todos os que entram no pátio do Hospital Hadassah são tratados da mesma forma.

E, pois é, já operei terroristas.

Certa vez, fui acordado às 2 da madrugada, num Shabat, para realizar uma cirurgia de emergência em um terrorista que tinha sido ferido enquanto era cercado e preso. Eu já tinha visto os resultados pavorosos de suas explosões no ônibus.

Antes de qualquer outra coisa, todos – amigos, visitantes e até mesmo pacientes – querem saber como me sinto ao usar minha especialização médica para salvar a vida desses assassinos em massa.

Pelo fato de eu ser médico, de ser um judeu fervoroso, um ser humano, eu jamais deixaria um paciente morrer se o pudesse salvar. Mas este salvar vidas é mais do que uma exigência da profissão de médico: é uma missão.

Ao tratar dos orifícios no tórax e abdome deles, estou dando um atestado de que não sou como essas forças do mal que querem mergulhar este país em sangue.

Será que eles entendem? Não tenho a menor dúvida de que sim. Eles me agradecem. Eles me olham de forma diferente. Eu e o meu povo já não somos mais os demônios pintados em sua vil propaganda. E eles compreendem, subitamente, aquilo que as mulheres americanas da organização feminina Hadassah – que fundaram nosso hospital e a maioria dos hospitais e ambulatórios desta terra, sem fazer distinção entre raça ou credo – entenderam há 90 anos.

O lema do Hadassah foi tirado das palavras do profeta Jeremias, em seu clamor: “Cura e salva, Senhor, o Teu povo”.

A cura de todos os povos é a única forma de se salvar o futuro desta região.


Traduzido por Lilia Wachsmann com permissão do Dr. Avraham Rivkind é chefe do departamento de cirurgia geral e da unidade de traumatologia do Hospital Universitário Hadassah, em Jerusalém
Publicado no The Chicago Tribune,
em 14 de julho de 2002
Direitos autorais (c) 2002, Chicago Tribune.

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Ela se foi para sempre...

Na terça-feira, 18/06/02, Shiri Nagari saiu de casa, em Guiló, subúrbio de Jerusalém, para ir ao trabalho. Estava, temporariamente, trabalhando em um banco onde pretendia ficar até o início do próximo ano letivo, quando entraria para a faculdade. Perdeu o ônibus que sempre tomava, mas pegou uma carona com a mãe, que saía de carro para levar o filho menor para a escola. Deixaram Shiri no meio do caminho e ela tomou o ônibus que perdera, naquela manhã fatídica.

Na parada seguinte, um terrorista suicida subiu no ônibus e, logo depois, fez detonar uma potente bomba que trazia numa sacola. O ônibus, repleto de escolares e pessoas que se dirigiam ao trabalho, voou pelos ares. O teto ficou destampado como uma lata de sardinha. As testemunhas oculares descreveram a cena atroz – uma explosão sem tamanho, pedaços do ônibus, partes dos corpos dos passageiros espalhadas por todo lado. Shiri era muito especial. Parecia irradiar uma qualidade espiritual difícil de se definir. Era a personificação da inocência e da beleza. Desde criança conseguia atrair as pessoas por sua beleza tão natural. Nunca cortou os cabelos e sua linda e longa trança dourada se tornou sua marca pessoal.

Adorava rir e fazia com que os outros rissem com ela. Adorava dançar e sabia aproveitar as pequenas coisas da vida. Tinha o talento especial de ver bondade e beleza em todos os que conhecia e fazia amigos em qualquer lugar. Era o reflexo do ambiente alegre e vibrante em que crescera, em casa de seus pais. Sempre cheia de vida, cantava e compunha suas próprias músicas. Uma atriz nata, deliciava os familiares e amigos com suas improvisações e descrições espontâneas e vívidas. Escrevia poemas. Adorava nadar. E, mais do que tudo, era conhecida por seus elevados padrões morais e pela lealdade incondicional aos valores da educação religiosa que recebeu de seus pais.

Durante o serviço militar, Shiri serviu como instrutora e trabalhava com jovens evadidos das escolas. Passava horas sentada, discutindo com eles seus problemas. Esse período foi a primeira vez em que se separou de casa e da família, começando a desenvolver sua independência. Aquela garotinha religiosa, frágil, tornou-se moça forte, resoluta e independente, apesar de sua aparência de adolescente.

Shiri pretendia começar os estudos universitários na Universidade Hebraica de Jerusalém, em outubro próximo. O suicida-bomba que matou Shiri, naquela manhã fatídica de 18 de junho, destruiu, de um golpe só, todas as promessas que o futuro guardava para nossa Shiri. Ela não voltará a cantar, ela nunca se casará nem terá filhos. Nunca mais ouviremos seu riso. Ela se foi para sempre.

Lila wachsmann

 

 
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