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Quase sempre, ao volante de meu próprio
carro, chego ao hospital antes das primeiras ambulâncias,
mesmo se estiver dormindo ao receber a primeira ligação.
As sirenas cantam, estridentes, à
medida que as ambulâncias, uma após a outra, param
na praça principal do Hospital Universitário Hadassah.
Espero diante delas, com o coração querendo saltar
do peito, de pavor. Quando as portas se abrem, par a par, meu maior
temor é que um de meus quatro filhos ou de um dos vizinhos
lá esteja deitado, entre as vítimas do terrorismo,
tantas das quais são apenas crianças.
Nossos inimigos escolhem seus alvos visando
mutilar nossos jovens. Atacam em pizzarias, ônibus escolares,
sorveterias. Os paramédicos tomam suas próprias decisões
rápidas no campo: os pacientes em estado mais grave são
trazidos para o Hospital Hadassah, o único centro de traumatologia
de nível 1 na região do Vale do Jordão até
Beersheva. Sou o responsável por essa unidade. Cabe-me em
primeiro lugar fazer a triagem, avaliando no ato qual o tratamento
que cada paciente irá receber: ser levado, às pressas,
para a mesa de trauma com uma dúzia dos melhores especialistas
a rodeá-lo, ser transportado na maca para o centro cirúrgico
ou trazido para a sala do pronto-socorro para o atendimento de praxe
nas emergências. Ouço o relato dos paramédicos,
olho os pacientes e toco-os com minhas mãos. Minha especialização
médica em Israel e nos Estados Unidos, anos de experiência,
intuição e, muitas vezes, a mão do Todo-Poderoso
que é algo que, em Jerusalém, não temos
constrangimento algum em admitir ajudam-me a tomar essas
decisões de vida ou morte. Os desafios médicos são
de apavorar.
As vítimas com ferimentos por deslocamento
de ar causado pelas explosões podem parecer ilesas, por fora,
mas podem estar sendo consumidas, por dentro. Há várias
semanas, agachei-me para examinar uma moça, jovem, linda,
chamada Shiri Nagari, ainda no estacionamento do Hospital. Perguntei-lhe
como se sentia e ela respondeu que estava bem. Mas percebi que havia
algo de errado com ela. Estava-se apagando. Dei ordens para a entubarem,
imediatamente, abrindo uma via respiratória. Alguns de meus
colegas eram da opinião que devíamos dedicar-nos,
primeiro, aos pacientes com ferimentos mais visíveis. Mas
sua radiografia de tórax confirmou o meu palpite: uma borboletinha
branca sobre o fundo negro. Os pulmões de Shiri haviam explodido.
A mesma onda forte de ar que estoura nossos tímpanos pode
comprimir o ar em nossos pulmões e projetá-lo, destruindo
os órgãos da cavidade abdominal. Três fortes
ondas de choque causam dano letal quando uma bomba explode em ambiente
fechado. Rapidamente despachamos Shiri para a sala de cirurgia da
unidade de trauma, sempre vazia à espera das emergências,
e a abrimos: sangue no tórax e no abdome, o fígado
dilacerado. A despeito de todo o sangue que lhe bombeamos, ela não
conseguiu sobreviver. Tenho 52 anos e, como a maioria dos israelenses,
também servi o exército. Já vi o que me tocava
ver em lesões causadas por tanques, em tipos implacáveis
de câncer e em estragos causados por acidentes de trânsito.
A morte de Shiri foi a primeira vez em
que chorei ao perder um paciente.
Tenho horror de ter que dar a notícia
aos pais do paciente, mas isto também é parte de minha
obrigação. Até mesmo os anúncios menos
terríveis são difíceis. Recentemente, após
um ataque terrorista em uma feira livre, em Jerusalém, tive
que informar à esposa de uma vítima que tínhamos
amputado a perna dele. A mulher ficou enfurecida. Já estou
familiarizado com esse tipo de raiva. Passo o tempo todo controlando
a minha própria por não conseguir desencantar um milagre
para cada paciente. As lesões causadas por concussões,
esses choques violentos, são apenas uma parte do dano causado
pelas explosões urbanas.
Temos tratado de lesões no cérebro,
pulmões, ossos e coração causadas por pregos,
dardos e mancais de esfera embutidos nas bombas de alta velocidade.
Adi Hudja, de apenas 14 anos, tinha mais
de 40 objetos de metal dentro de suas pernas após a explosão
suicida na Ben Yehuda, em dezembro passado. A hemorragia não
parava, com tantos ferimentos. Ainda no local do atentado, tivemos
a idéia de experimentar um coagulante para hemofílicos
que ainda não recebeu a aprovação do FDA dos
Estados Unidos e que certamente não será aprovado
para centros de trauma. Um vidro pequeno do produto custa US$10
mil, mas funcionou. Passaram-se seis meses e a garota está
fazendo fisioterapia três vezes por semana, no Centro de Reabilitação
Monte Scopus, do Hadassah, e está reaprendendo a andar. No
próximo ano, talvez já possa voltar a freqüentar
as aulas. Ela tem a mesma idade que uma das minhas filhas.
O relógio bate as horas
Independentemente do grau de sofisticação do atendimento
médico, a rapidez conta muito. A maioria dos milhares de
procedimentos que nós, cirurgiões do meu departamento,
realizamos anualmente são eletivos, mas em trauma, a história
é outra. Nossa enfermeira-chefe do setor de trauma-tologia,
Etti Ben Yaakov, sempre se refere à hora de ouro
que temos para salvar a vida de nossos pacientes.
Ela está certa.
O relógio conta o tempo desde que
se ouve o som obsceno da explosão. No centro de trauma, conto
com uma equipe fora de série de médicos, enfermeiros
e técnicos de laboratório. Quase todas as vítimas
de explosões suicidas necessitam de atendimento multidisciplinar.
Temos que decidir quem sai na frente: o
neurocirurgião, o cirurgião vascular, o cirurgião
geral, o cirurgião ortopédico ou o especialista em
cirurgia da face?
Mesmo no meio da noite, médicos,
enfermeiros e técnicos e a equipe de limpeza chegam ao hospital
sem sequer terem sido chamados.
Quem fará a anestesia? Várias
mãos se levantam: toda a equipe do centro cirúrgico
está pronta para um plantão fora da escala.
Todas as decisões que tomo são
fundamentadas na minha crença visceral de que todos os pacientes
querem viver. Às vezes este credo me força a tentar
o que chamamos de cirurgias heróicas, quando tudo já
parece perdido.
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