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Quão diferente era o tratamento que dera Robespierre, durante
a Revolução Francesa, aos propalados defeitos judaicos
(como se outros povos também não tivessem as mesmas
deficiências!). Falando aos delegados da Assembléia
Nacional para solicitar que incluíssem os judeus nas provisões
humanísticas dos Direitos do Homem, disse ele: Os defeitos
dos judeus provêm do rebaixamento a que vós (cristãos)
os haveis submetido. Se elevarmos sua condição, rapidamente
farão jus a ela. (NYISZLI: 1980, 189)
Segundo um dito antigo, os judeus
eram amaldiçoados por fazer e eram amaldiçoados por
não fazer. O reverendo Dr. Stöcker, pregador de
Potsdam, favorito do Kaiser, declarou: Os judeus são,
simultaneamente, os pioneiros do capitalismo e do socialismo revolucionário,
trabalhando assim pelos dois lados para destruir a atual ordem social
e política. (SARTRE: 1954, 76).
Os anti-semitas alemães, evidenciando
sempre forte inclinação nacional para a metafísica,
para a obtenção de conclusões científicas
e para a elaboração de formulações precisas
a partir delas, desenvolveram seu ódio aos judeus obedecendo
a um sistema científico irrefutável assim pensavam
eles. Observa-se, freqüentemente, que sociedades ou grupos
de homens, quando querem fazer parecer aos outros que suas ações
são mais corretas e justificadas do que na realidade, tratam
de adorná-las com racionalizações altissonantes
de natureza intelectual, moral e legal, para assim disfarçar-lhes
a má índole. Como observou, porém, o célebre
jornalista e filósofo satírico judeu, Max Nordau,
(1849-1923), ao comentar acerbamente as proezas intelectuais
dos anti-semitas: Os pretextos variam, mas o ódio continua.
(CLEMESHA 1998, 145)
O ódio dos anti-semitas na Alemanha
e na Áustria perdurou, mas, a partir dos meados do século
XIX, surgiu um pretexto novo, desta vez fornecido por intelectuais
e professores etnólogos, biólogos, psicólogos
e historiadores visando a supressão total (ver a plataforma
do Reformista Lutero) e mesmo o extermínio físico
dos judeus. Essa inovação foi liderada por dois homens:
Conde Joseph Arthur de Gobineau (1816-1882) e Houston Stewart Chamberlain
(1885-1927).
Gobineau, diplomata e orientalista francês, que publicou um
Ensaio sobre a Desigualdade das Raças Humanas, em quatro
volumes (Paris, 1853-1855), tomou como base de sua tese a visão
dos judeus (semitas) como uma raça mista e que
tudo de grandioso, nobre e frutificador nas obras do homem
[...] pertence a uma família (a ariana), cujos diferentes
ramos reinam em todos os países civilizados do globo
(GOBINEAU apud CLEMESHA 1998, 93).
O outro mentor intelectual dos anti-semitas
alemães, Chamberlain, era genro do compositor Richard Wagner
que, por sua vez, havia atacado impiedosamente os judeus no seu
ensaio nada musical O Judaísmo na Música.
Chamberlain foi autor da obra mais agressiva, talvez, já
publicada a respeito de judeus, fazendo-a editar sob o título
acadêmico e totalmente enganador de Os Fundamentos do Século
XIX (1899). A obra mereceu a aprovação entusiástica
do Kaiser Guilherme II e dela foram vendidos quase um milhão
de exemplares somente em língua alemã. Uma amostra
típica do que o livro contém é a seguinte reflexão:
... a raça judaica está completamente abastardada,
e sua existência é um crime contra as sagradas leis
da vida... (CHARBERLAIN apud CORREA NETO: 1980, 79)
Por falar em sagradas leis da vida,
outro inimigo do povo judeu, igualmente influente e devoto, o reverendo
Dr. Adolf Stöcker, pregador da corte de Guilherme I e líder
do bloco anti-semita do Reichstag, também entrou na arena
como defensor da santidade. Mas a santidade pela qual
lutava era a chamada pureza do sangue alemão. Dizia ele:
... o judaísmo moderno é uma gota de sangue
estrangeiro no corpo alemão e tem poder destrutivo
(NYISZLI: 1980, 49) Foi Stöcker, fundador do Partido Socialista
Cristão, em 1878, quem cunhou, naquela ocasião, a
legenda que se tornou o grito de guerra dos nazistas contra os judeus,
meio século depois: Deutschland erwache!
(Alemanha, acorda!). Os socialistas cristãos também
adotaram em seu programa político uma plataforma central
que exigia uma Alemanha que fosse Judenrein (purificada de judeus).
Curiosamente, nessa preocupação
com a pureza racial do povo alemão, Chamberlain e Stöcker,
como também os outros líderes intelectuais do movimento
anti-semita alemão, cada vez mais florescente Wilhelm
Marr, Hermann Ahlwardt, Heinrich van Treitschke, Conde Wajter Puckler-Muskau
e o filósofo Eugen Dühring tinham idéias
cientificas análogas à limpeza, à
pureza do sangue (que era a obsessão dos racistas espanhóis
durante o século XIV).
O problema judaico não era mais da alçada da religião
cristã. Os anti-semitas intelectuais, tal como os arruaceiros
das cervejarias, opunham-se violentamente à conversão
dos judeus ao cristianismo, devido à mácula
que o sangue judaico traria à corrente puríssima
de sangue germânico, através dos casamentos mistos.
Do alto de sua elevada eminência,
o filósofo Dühring dava ao povo alemão o seguinte
conselho genocida, quanto ao trato com os judeus: não
deveriam ficar inibidos por qualquer escrúpulo, e sim usar
os mais modernos métodos de desinfecção
(DÜRHRING apud SARTRE 1954, 104). Dessa filosofia de
desinfecção às câmaras de gás
nazistas, onde foram asfixiados seis milhões de judeus em
1940-45, a distância era de poucos passos e de apenas sessenta
anos.
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