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A omissão não surpreende.
As pesquisas científicas lidam com aspectos físicos
da realidade, enquanto a criação bíblica de
Adão está relacionada com a espiritualidade da neshamá,
a alma da humanidade insuflada por Dus em Adão, há
quase 6.000 anos, em Rosh Hashaná. Esta é a criação
singular descrita em Gênese 1:27.
E o corpo de Adão? Será que
também foi uma criação especial? Ou será
que existe a possibilidade do corpo humano ter-se desenvolvido através
dos tempos, até se tornar um recipiente capaz de receber
e conter a neshamá, a alma humana? (A título de esclarecimento,
o termo Adam refere-se a homem e mulher, como menciona
a Bíblia em Gênese 5:2, algo como ser humano).
Anatomicamente, o corpo humano parece de
fato estar relacionado com formas de vida menos complexas. Muitas
das enzimas que controlam as funções humanas são
réplicas quase perfeitas das encontradas em outros filos,
ou reinos. O gene que controla o posicionamento e a orientação
do braço humano é encontrado em todos os vertebrados
e também nos insetos. A semelhança é tamanha
que quando porções deste gene humano são implantadas
no genoma da mosca drosófila, determinam o posicionamento
e a orientação da asa da mosca. O mesmo serve para
os genes que controlam o desenvolvimento do olho e um grande número
de outros. Estes genes têm mais de cem pontos ativos. A semelhança
entre eles pode não ter sido mera coincidência. Para
os cientistas, estes fatos indicam a existência de um ancestral
comum. Os ossos dos membros inferiores do crocodilo e a nadadeira
da baleia bicuda são os mesmos do braço e mão
de um homem; diferem no comprimento, é claro, mas todos os
ossos existem. A estrutura do cérebro humano espelha o cérebro
de ratos e macacos. O embrião humano desenvolve uma bolsa
de gema semelhante à gema das ovas dos peixes, a seguir uma
cauda e, então, a pele prega-se de forma semelhante às
fendas das guelras. A ontogenia do feto humano parece ser uma recapitulação
da filogenia, lembrando sempre que, em cada estágio, é
a estrutura primitiva ou juvenil e não a adulta
que se forma no feto.
Apesar de serem escassos e incompletos
os fósseis atribuídos ao Homo habilis e ao Homo erectus,
quando se alcança o estrato de 50.000 anos atrás,
muitos fósseis do homem de Cro-Magnon são
encontrados em número suficiente para encher os museus. O
fóssil do homem de Cro-Magnon é uma cópia
exata do esqueleto do homem moderno, inclusive no formato e capacidade
cranianas.
As publicações científicas
sobre esses fósseis e os artefatos a eles associados não
são fruto da maquinação de alguns cientistas
loucos. Existem evidências esmagadoras tanto sobre a invenção
da agricultura, há 10.000 anos, como da tecelagem, há
9.000 anos, e da olearia, há 8.000 anos. Existem pinturas
em caverna que datam de 10 a 30 mil anos atrás. Do ponto
de vista teológico, desmentir estas evidências é
contraproducente. Aliás, não há por que negá-las,
desde que acreditemos que sejam válidas as interpretações
bíblicas do Talmud feitas por grandes sábios como
Onkelos, Rashi, Maimônides e Nachmânides.
A primeira objeção à
possibilidade de Adão ter um ancestral é temporal.
Agricultura há 10.000 anos? Como pode ser verdade, se afirmamos
que neste Rosh Hashaná, setembro de 2002, o mundo completará
5763 anos? Onde ficaram os anos que faltam? Em Leviticus Rabá
(29:1), como em outras fontes, constatamos algo com que todos os
sábios concordam: Rosh Hashaná comemora a criação
da alma de Adão e os Seis dias da Gênese
não estão incluídos nos anos do calendário.
No entanto, o Talmud (Haguigá 12A) e Rashi, baseando-se no
versículo Era tarde e era manhã, um dia
(Gênese 1:5), informam-nos que os dias da Gênese são
de 24 horas, desde o primeiro dia. Se cada dia tem 24
horas, por que então excluir esses seis primeiros dias, de
24 horas, do restante dos dias também de 24 horas
que se seguem à criação de Adão?
Nachmânides nos dá uma resposta: estes primeiros seis
dias contêm todas as eras e todos os segredos do universo
(comentário em Êxodo 21:2 e Levítico 25:2).
Foi necessária a descoberta de Einstein sobre a relatividade
do tempo para resolver o aparente paradoxo: como poderiam todas
as eras do universo estar contidas em apenas seis dias, de 24 horas
cada? Se olharmos a Criação de uma maneira retrospectiva,
usando o hoje como ponto de partida, nosso imenso universo aparenta
ter de 10 a 20 bilhões de anos. Mas se olharmos para a Criação
projetando-a para o futuro, da forma como é descrita no capítulo
1 do livro Gênese, visualizando o universo a partir de uma
época em que seu tamanho era 1.012 vezes menor do que é
atualmente, ou seja, a partir do primeiro dia, o universo pareceria
ter meros seis dias de vida. Esta é a natureza de tempo
em um mundo em que as leis de relatividade fazem parte das leis
da natureza.
A interpretação padrão
do redshift (o deslocamento para o vermelho, fenômeno causado
pelo aumento do comprimento da onda de radiação e
a redução simultânea da freqüência
de radiação) como efeito da expansão
do universo prevê que o mesmo fator de deslocamento
aplica-se a índices observados de ocorrência de eventos
distantes, mesmo quando a época é tão anterior
que o fator não possa ser observado na radiação
detectada. Então o tempo da existência da agricultura
é de 10.000 anos e das pinturas nas cavernas de 30.000 anos.
A pergunta é se estas invenções anteriores
a Adão ameaçam a visão da Torá sobre
nossas origens.
A união de teologia e paleontologia
E Dus disse: Façamos o homem (em hebraico, Adam)
(Gên. 2:7)
E Dus criou o homem (em hebraico,
Adam) (Gên. :27)
Aqui a Torá nos ensina que Adão
é feito e criado. Nós até
sabemos a matéria-prima utilizada para sua produção.
Dus formou o homem do pó da terra (Gên.
2:7). Mas se analisarmos paralelamente duas passagens da Bíblia:
No início, Dus criou o céu e a terra
(Gênese 1:1) e pois que em seis dias Dus fez os
céus e terra (Êxodo 31:17), constatamos que enquanto
o uso bíblico da palavra criação
sugere uma ação instantânea de Dus, fazer
na linguagem bíblica é um processo que exige tanto
matéria quanto tempo, como está dito: pois que
em seis dias. Com o passar do tempo, algo foi criado
Adão, mas este ser não estava
completo. Faltava-lhe receber a alma da vida humana. Se a formação
e o desenvolvimento do homem de Adão foi um
processo que durou um milésimo de segundo ou milhões
de anos, não é algo que a Torá deixe claro.
Alguns versos nos dão uma pista, talvez uma resposta definitiva.
O Talmud (Eruvim 18A) se detém sobre
o nascimento de Set, terceiro filho de Adão e Eva, analisando
por que a Torá relata duas vezes seu nascimento.
E tornou Adão a conhecer sua
mulher, e ela deu a luz um filho a quem chamou Set (Gênese
4:25).
E viveu Adão 130 anos, e ele
teve um filho à sua semelhança e forma. Ele o chamou
de Set (Gênese 5:3).
Segundo o Talmud, estes dois versos revelam
que, após o assassinato de Abel por Caim, Adão e Eva
se separaram maritalmente por 130 anos, e somente então Adão
deitou-se novamente com Eva. Durante estes 130 anos,
Adão procriou filhos com outros seres, não com Eva.
O Radak comenta que esses filhos eram de fato crianças. Faltava-lhes,
no entanto, a neshamá, a alma, para torná-los seres
humanos. Maimônides (Guia 1:7), baseado em Eruvim e no Zohar,
descreve estas crianças como sendo seres humanos em forma
e inteligência, mas nada humanos em espiritualidade.
Nachmânides concentra-se num prefixo
supérfluo, lamed, em hebraico, que transmite a idéia
de transformação através de uma ação
externa. No caso, o insuflar da alma. Assim, ... e soprou
por suas narinas a neshamá da vida e Adão transformou-se
em uma alma viva.
Segundo o comentário de Nachmânides,
um dos maiores sábios e cabalistas, a preposição
em é usada para indicar uma mudança na
essência da personalidade e pode ser que o verso esteja
afirmando que Adão era um ser vivo completo e a neshamá
o transformou em outro homem. Outro homem! De acordo com Nachmânides,
havia um homem antes da criação da neshamá,
mas aquele ser hominídio não era exatamente humano.
Onkelos resumiu tudo isso, 400 anos antes
do Talmud e mil anos antes de Nachmânides. A expressão
nefesh chayá, uma alma viva, aparece três vezes nesta
porção da Torá: para animais que vivem na água
(Gên. 1:20), para animais que vivem sobre a terra (Gên.
1:24) e para humanos como ... em uma alma viva
(Gên. 2:7). Nos primeiros dois casos, Onkelos traduz o termo
literalmente, uma alma viva. Mas para os seres humanos,
por causa da preposição em, Onkelos traduz
o termo como e Adão transformou-se em um espírito
falante.
A capacidade de se comunicar espiritualmente
é o que faz os homens serem diferentes de todos os outros
animais. Não é nossa força, nem nossa inteligência.
Mas nossa espiritualidade. A fala é, nos homens, o elo entre
os aspectos físicos e espirituais da existência. É
a neshamá que faz esta ligação e nos impele
a sentir a unidade transcendental que permeia toda a existência
e da qual trata o Shemá: Ouve, Israel, o Eterno é
teu Dus, o Eterno é Um. A unicidade transcendental
é a marca do Eterno. Hominídios, com feições
humanas, co-existiram e precederam Adão. Os antigos comentaristas
bíblicos estavam cientes dessa realidade. A descoberta de
seus fósseis não constitui surpresa para a Torá.
Na definição bíblica, um homem é um
animal um hominídio no qual foi insuflada a
alma criada, a neshamá.
Apesar de a neshamá não deixar
nenhum vestígio fossilizado para provar sua aparição
na história da humanidade, o efeito de sua criação
está claramente gravado nos achados arqueológicos.
A escrita, o comércio e o surgimento das grandes cidades
datam de 5.000 a 6.000 anos atrás, a época de Adão.
A escrita foi criada para satisfazer as necessidades de se manterem
registros sobre o comércio; e o comércio, por sua
vez, foi criado para satisfazer as necessidades materiais das grandes
cidades. A pergunta que permanece sem resposta, então, é:
por que as grandes cidades emergiram nesta época?
Minha sugestão de resposta é que a espiritualidade
dos humanos concedida pela neshamá e o desejo de transmitir
esta espiritualidade para os outros foi a força motriz que
transformou a civilização de grupos de aldeias formadas
por clãs em cidades, como Uruk e Ur, na Mesopotâmia.
Artigo publicado pela Aish HaToráh
em seu site.
Gerald Schroeder obteve os titulos de Bacharel, Mestre e Doutor
pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT). É autor
dos livros Genesis and the Big Bang, sobre a descoberta da harmonia
entre a ciência moderna e a Bíblia, editado pela Bantam
Doubleday e já traduzido em sete idiomas; The Science of
God e The Hidden Face of God, editados pela divisão Free
Press da Editora Simon & Schuster. Leciona na Faculdade de Estudos
Judaicos Aish HaTorah.
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