SERÁ QUE O JUDAÍSMO TEM VIGOR NO MUNDO?


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Vivemos em um mundo paradoxal. Por um lado, as revoluções científico-tecnológicas mudaram totalmente as possibilidades do gênero humano quanto à questão produtiva.


Edição 37 - Junho de 2002
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As formidáveis avanços em inúmeras áreas, como a biotecnologia, a genética, a informática, a robótica, a eletrônica, as comunicações, a ciência dos materiais e outras, multiplicaram a capacidade de produção de bens e serviços, superando as previsões mais otimistas quanto ao futuro.

Entre suas numerosas expressões concretas na vida cotidiana, vêem-se fenômenos como a Internet, que abre o acesso pessoal às informações em grandes quantidades, como a possibilidade de transformar cultivos sazonais em permanentes, ou as tão promissoras e variadas aplicações de novas descobertas na medicina, ou ainda a iminente conectividade e interatividade do televisor com o telefone e o computador.

Por outro lado, segundo indicam os organismos internacionais, a metade da população do mundo ganha menos de dois dólares por dia, vivendo em pobreza, anualmente morrem oito milhões de pessoas de por enfermidades totalmente evitáveis ou curáveis, dois trilhões de pessoas carecem de água potável, a média de vida nos países mais pobres é de 51 anos e entre os ricos, 78 anos, e enquanto entre o primeiro grupo 159 de cada mil crianças morrem antes de completar cinco anos de idade, no segundo, apenas seis. De modo semelhante, aprofundaram-se as desigualdades. Segundo informa a ONU, os 20% mais ricos da população mundial são donos de 86% do produto bruto mundial e detém 82% das exportações; os 20% mais pobres, apenas dispões de 1% do produto bruto mundial e sua participação nas exportações é de 1%. Por outro lado, o meio ambiente natural atravessa alarmante processo de deterioração.

Face a esta distância entre as potencialidades da humanidade e a vida concreta de boa parte de seus habitante, fizeram-se ouvir vozes proeminentes manifestando a urgente necessidade de um código ético para a nova economia. E entre estas, o Papa João Paulo II diz que é imprescindível que a humanidade “comprometida com o processo de globalização conceda a si própria um código ético”; o Arcebispo de Canterbury, George Carey, ressalta que sem ética tudo corre perigo e o ex-presidente da União Européia, Guy Verhofstdadt, estabelece que “o que realmente necessitamos é um enfoque ético mundial tanto para o meio ambiente, as relações trabalhistas, como para a política monetária”. No mundo inteiro há uma “sede de ética”; as sociedades civis exigem, cada vez mais, ética na conduta dos líderes, ética nas relações internacionais, ética que regulamente o funcionamento da globalização.

Uma visão do mundo muito antiga, que várias vezes tentou-se eliminar da história, aparece neste mundo paradoxal, com enorme vigor, para conseguir satisfazer esta justificada “sede de ética”. Trata-se do judaísmo. Nasceu de um pacto da divindade com o povo judeu, no qual o povo se comprometeu a seguir os Mandamentos e estatutos divinos, todos de caráter essencialmente ético. Esse código ético foi cuidadosamente guardado e cultivado, nas circunstâncias mais difíceis, arriscando a própria vida e entregando-a em outras oportunidades para protegê-lo, por amplos setores do povo judeu, que conseguiram transmiti-lo de geração em geração. A explicação de como conseguiram sobreviver em meio a contínuas tentativas de extermínio, como a Inquisição, os pogroms e o nazismo, somente se encontra em seu apego total a esse mesmo pacto ético. Levando-o adiante, aprofundando-o durante milênios através da interpretação talmúdica e do estudo contínuo, o povo judeu forjou um modo de vida espiritualmente elevado, que fortaleceu sua solidez nacional. Os grandes impérios da Antigüidade tombaram um após o outro, após se corromperem internamente. Este pequeno povo, frágil e vulnerável, conseguiu sobrevivê-los a todos por esse exigente compromisso ético, que permitiu-lhe cultivar um estilo de vida que, como explicam os sábios do Talmud, devia girar em torno de três eixos: a fé, o estudo e as boas ações. Isto o protegeu e lhe deu uma força histórica de enorme vigor.

Mas cabe perguntar: terá tudo isto algum sentido, atualmente? O judaísmo não deve ser considerado parte do museu mais rico do gênero humano? Mas museu, apesar de tudo, pertencente ao passado? A realidade contemporânea indica o contrário. As idéias básicas da ética judaica que enriqueceram a vida de gerações de famílias judias em seu cotidiano, seguem fazendo-o e foram a base da façanha, incomensurável, que representou a criação do Estado de Israel, em meio a condições extremamente difíceis. Hoje essas idéias não pereceram como tantas outras ideologias, mas, pelo contrário, sua atualidade se mantém em toda a sua plenitude, tendo adquirido ressonância universal.
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