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| MEDÉIA, A MÃE "BONDOSA" DA EUROPA |

Galeria das mulheres erelhado decorado com afrescos em Sinagoga na República Checa
A Europa arcará com uma responsabilidade moral por muitas e muitas gerações futuras.
| Edição 37 - Junho de 2002 |
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O filme de De Sica, de 1970, O Jardim dos Finzi-Contini, mostra a terrível realidade de uma família judaica durante a época fascista.
Em 1895, quando Theodor Herzl era o correspondente em Paris do Neue Freie Presse, havia cerca de 10,5 milhões de judeus no mundo, dos quais 8,8 milhões eram europeus. No final do século XIX, 85% do judaísmo mundial viviam no continente que hoje está em vias de se tornar uma única entidade político-econômica.
No final de 2001, a população judaica mundial girava em torno de 13,2 milhões, mas apenas 13% dos mesmos 1.583.000 são europeus. Destes, apenas 1.032.000 vivem nos países da União Européia e os muçulmanos hoje contabilizam mais de 4% da população da região, enquanto o percentual de judeus é inferior a 0,3%.
Numa perspectiva européia, não há dúvida de que, demogra-ficamente, os judeus da Europa têm agora expressão marginal. Em alguns países França e Grã-Bretanha os judeus ainda têm influência considerável, mas a parcela total de sua participação no tecido da vida européia está encolhendo, dia após dia. O elemento judeu, que foi tão vital na vida e identidade da Europa durante um milênio e meio, minguou rápida e drasticamente nos últimos cem anos. A não se reverter a tendência atual, se a Europa não for repentinamente inundada por uma enorme onda de imi-grantes judeus, esse continente ficará praticamente destituído de seu elemento judaico, no final deste século. Aqui e acolá irá existir uma reserva natural de judeus, aqui e acolá um tipo qualquer de gueto. Mas, de modo geral, a Europa do século XXII será um continente virtualmente sem presença judaica.
De Rashi a Freud
Trata-se de um panorama praticamente incompreensível. Desde a época em que a Europa se tornou um continente cristão, sua vida foi entrelaçada com a dos judeus. Entre Rashi e Heine, Spinoza e Rothschild e entre Mendelssohn e Marx, Kafka e Freud, é impossível descrever-se a história judaica sem a Europa, da mesma forma como é impossível falar da cultura européia sem os judeus. Pois desde que os judeus foram para o exílio e desde o batismo de Clóvis, o continente era, de fato, o maior território da diáspora judaica.
Apesar de a civilização hebraica ter-se antecipado à euro-cristã em mais de mil anos, a Europa cristã foi, no final das contas, uma mãe hospitaleira para os judeus. Foi dentro de seu útero geocultural que eles viveram, foram perseguidos e se edificaram. Durante a maior parte do segundo milênio, os judeus viveram dentro e diante de um contexto europeu. Tanto a auto-definição como judeu e a existência histórica concreta, ao longo desse longo período, envolveram uma relação profunda, exigente e durável com a Europa.
A possibilidade de que tudo isso desapareça, a possibilidade de que não haja mais judeus no Marais de Paris, ou no gueto de Roma, ou no pátio da sinagoga de Amsterdã, é verdadeiramente desoladora. A possibilidade de que, no futuro relativamente próximo, não haja mais alunos e acadêmicos que possuam a identidade judaica de o Outro na Sorbonne, em Cambridge e em Oxford, é um acontecimento cultural inconcebível.
No entanto, de forma silenciosa, consistente e invisível, essa possibilidade vai-se concretizando. À exceção da Alemanha, onde tem aumentado a proporção de judeus, e da França, que nas últimas gerações recebeu uma importante transfusão de sangue na forma de centenas de milhares de pessoas que para lá emigraram das colônias da África do Norte, a população judaica vem passando por um rápido declínio em praticamente todos os outros países da Europa central e ocidental. Não se trata apenas da Polônia, onde menos de cinco mil pessoas restaram de um contingente de três milhões. Não se trata apenas da Holanda, onde de cento e cinqüenta mil restam apenas trinta mil, nem da Áustria, que hoje possui nove mil judeus de um total, outrora, de duzentos e cinqüenta mil. |
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