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 Judeus no final da década de 1940, Berlim, Alemanha
Utilizando a estrutura das suas empresas de mineração instaladas no continente sul-americano, Moritz Hochschild ajudou a salvar judeus alemães das garras do nazismo antes mesmo da eclosão da Segunda Guerra Mundial.
| Edição 37 - Junho de 2002 |
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A mineração sempre foi um dos principais segmentos responsáveis pelo desenvolvimento econômico da América do Sul nos últimos 500 anos. A presença de empreendedores e seu papel no desenvolvimento da atividade mineral, na primeira metade do século XX, representam ainda um aspecto muito pouco explorado pelos historiadores e especialistas da história econômica da mineração. Aproveitando a experiência no comércio de metais e as tecnologias de tratamento e beneficiamento desenvolvidas na Europa, diversos empreendedores aportaram no início do século passado, nas Américas, em busca de novas jazidas para atender as demandas de matérias-primas minerais dos mercados internacionais. A figura de Moritz Hochschild, engenheiro e judeu alemão formado na Escola de Minas de Freiberg, na Saxônia, encaixa-se dentro deste perfil. Ele criou o Grupo Hochschild, que reunia empresas de mineração e de comércio de minerais e metais na Bolívia, Argentina, Chile, Peru e no Brasil.
Buscando reconstituir os principais passos da trajetória de Hochschild, considerado um dos grandes barões do estanho da Bolívia, o pesquisador Helmut Waszkis realizou um extenso levantamento de documentos e entrevistas. Coletou, também, depoimentos com os colaboradores e familiares de Hochschild, na Europa e em diversos países sul-americanos, sobre este importante personagem da mineração na América do Sul1 . Neste trabalho, que resultou na sua tese de doutorado, defendida na Universidade Livre de Berlim, em 2000, Waszkis busca desvendar os enigmas de como um empreendedor alemão de origem judaica pôde desempenhar um papel importante na mineração da América do Sul e, ao mesmo tempo, permanecer desconhecido pelos historiadores.
As primeiras pesquisas mostraram que não existiam registros significativos da passagem de Hochschild por sua cidade natal, Biblis. Nas pesquisas realizadas na renomada Escola de Minas de Freiberg, não foram encontrados registros sobre Hochschild. Segundo o pesquisador, isto provavelmente deveu-se à sua condição judaica. Após a Segunda Guerra Mundial, o seu nome continuou a não ser lembrado pelo então regime da Alemanha Oriental devido a seu caráter demasiadamente empreendedor e capitalista.
Um aspecto interessante e pouco conhecido da biografia de Hochschild, analisado em detalhe por Waszkis, é o que trata de seu empenho pessoal em criar alternativas para a saída dos judeus da Alemanha e de outros países e que enfrentavam dificuldades para emigrar para o novo continente. Naquele período, a obtenção de um visto era uma pré-condição indispensável. Deve-se relembrar que nos anos que antecederam o conflito mundial, os países candidatos a receber imigrantes sofriam ainda os efeitos da recessão econômica e nenhum destes desejava aumentar seus índices de desemprego, muito menos com mão-de-obra estrangeira, o que poderia comprometer os poucos empregos disponíveis.
Apesar de nunca ter negado sua identidade judaica, Hochschild aceitava o seu judaísmo como fato inerente e circunstancial em sua vida. Não era religioso, não tinha empatia com as causas sionistas e nem tampouco era engajado em atividades comunitárias. Em 1934, enviou um representante à Alemanha, em uma tentativa de trazer alguns judeus para trabalhar em seus empreendimentos. Registros coletados por Waszkis indicam que na Bolívia, centro de suas atividades na América do Sul, Hochschild fundou empresas especializadas em projetos agrícolas e de mineração para poder emitir os vistos e trazer os judeus confinados na Alemanha.
As estatísticas do universo de judeus salvos pela ação organizada das empresas de Hochschild não são muito precisas. Mas, pelo levantamento de Waszkis, pode-se estimar que aproximadamente 2.000 judeus conseguiram vistos de entrada em países da América do Sul neste período sombrio da história até o início do conflito. Por outro lado, nos arquivos do American Jewish Joint Distribution Committee, foram encontrados documentos informando que este número provavelmente chegou a 10.000 judeus.
Deve-se destacar que, ao longo do processo, Hochschild enfrentou um período difícil e de grandes hostilidades locais, principalmente devido às ligações existentes entre figuras proeminentes dos governos sul-americanos com o regime vigente na Alemanha. Além disso, uma imigração em massa de judeus poderia desencadear uma grande onda de anti-semitismo e pôr em risco os esquemas de vistos montados por Hochschild. |
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