EXISTE ALGO DE NOVO NO AR?


Judeu durante o período da Inquisição

Diante dos últimos acontecimentos, fica cada vez mais perceptível que a discussão sobre os conceitos de tolerância e intolerância está na ordem do dia deste novo século.


Edição 37 - Junho de 2002
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Paradoxalmente, o convívio social e a tolerância ao outro partem do ato de “não tolerar o intolerável”. É necessário que também não sejamos passivos diante de uma perseguição étnica, religiosa ou política, diante da opressão das minorias e diante dos genocídios, para garantirmos a aceitação do diferente e das regras democráticas de convívio social.

A intolerância é natural ao homem e, acrescidos de nossas posições sociais (religiosas, políticas, econômicas), podemos tornar-nos daninhos, criando ou permitindo que se desenvolvam grandes tragédias como a Inquisição ou o Holocausto (Shoá).

Podemos arriscar dizer que essa intolerância religiosa persecutória, que prega a aniquilação do outro e de tudo aquilo que possa parecer ameaçador, é um conceito ocidental. Embora também exista intolerância em sociedades politeístas, a crença em um único D’us, em uma verdade única e absoluta, excluindo todo aquele que não participa ou compartilha da mesma visão, talvez propicie, mais do que todas as outras, a institucionalização da perseguição, a despeito da ética que é inerente às três grandes religiões monoteístas.

O holocausto foi o grande câncer do século XX, no qual o ódio atingiu dimensões imensuráveis; mas já tínhamos aprendido a conviver com a intolerância institucionalizada, homeopaticamente, ao longo dos cinco séculos de perseguição promovida pelo Santo Ofício da Inquisição.

Como compreender, hoje, com nossas cabeças pós-modernas, que esse fenômeno que transformou a geografia do mundo e entranhou preconceitos e práticas intolerantes, de modo tão profundo que não mais nos permite enxergar sua raiz, seja tão atual?

Hoje, com os nossos estados laicos e democráticos, a Inquisição do séc. XV nos parece um triste capítulo de tempos remotos e menos civilizados, e a perseguição que emana de Estados religiosos, como acontece com alguns países islâmicos, é fruto do subdesenvolvimento e do primitivismo destas sociedades. Mas se partirmos da premissa de que a intolerância é inerente ao homem e de que seu oposto, a fraternidade e a solidariedade, mais até do que a tolerância condescendente, é o aprendizado, poderemos ver como o Poder se utiliza das virtudes e defeitos humanos para a manutenção de seu status.

“Cujus regio, ejus religio”, a religião do rei é a religião do povo. Essa era a máxima que norteava os Estados europeus na Idade Média, quando o poder real representava uma unção divina, negando ao indivíduo a escolha pessoal de sua confissão. A Igreja e o Estado foram, por um longo tempo na história ocidental, intrinsecamente ligados. O cerceamento de escolhas religiosas e a imposição de uma verdade são limitadores da criatividade e da liberdade na busca de novos conhecimentos. O siglo de oro espanhol encerra-se com o advento da Inquisição, por exemplo.

A religião usada para estimular o ódio coloca D’us na sombra. Como reconhecer a fé, embalada na face de D’us, repleta de negativas junto ao diferente?

Durante o período inquisitorial, o pretexto das atrocidades era a manutenção da “fé verdadeira”, o que cooptava a massa ignorante e empobrecida, tornando a sociedade cúmplice das fogueiras e punições, seja por religião, seja por medo. Mas a “máquina” Inquisição, era destituída de fé. A crença era apenas o revestimento do instrumento político de extorsão e eliminação de um povo; foi a forma encontrada pela Igreja para se manter no poder nos últimos bastiões católicos da Europa: Espanha e Portugal.

O surgimento dos cristãos-novos, também chamados de “o povo do livro”, “gente da nação” ou marranos, é uma corrente forte de fatos, com elos claros e definidos, que se misturam com o surgimento do Estado. Os primeiros elos surgiram e foram elaborados nas raízes do catolicismo europeu, enquanto a Igreja tentava se firmar como doutrina e instituição. A conversão dos príncipes feudais imediatamente convertia os servos e vassalos, tornando os feudos intrinsecamente ligados à Igreja. Os primeiros concílios – reuniões de bispos e doutores em teologia que decidem questões de doutrina e de disciplina eclesiásticas e que estabeleceram as regras segundo as quais a Igreja Católica funciona até hoje – se utilizaram do preconceito e da ignorância do povo, lançando as sementes do sentimento antijudaico que tomou a Europa, preparando o caminho para que, dez séculos depois, o Holocausto pudesse existir.

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