UMA VIAGEM AO IRÃ


Judeu com a Torá na Sinagoga de Yazd

Os judeus iranianos alternaram períodos de liberdade com outros de perseguição e conversões forçadas. Mas resistiram e hoje, apesar de todas as dificuldades enfrentadas, ainda perfazem a maior comunidade judaica em países de religião islâmica.


Edição 36 - Março de 2002
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São pouco mais de vinte mil, vivendo em várias cidades, nas proximidades do Iraque e no centro do país.

Os judeus iranianos alternaram períodos de liberdade com outros de perseguição e conversões forçadas. Mas resistiram e hoje, apesar de todas as dificuldades enfrentadas, ainda perfazem a maior comunidade judaica em países de religião islâmica. São pouco mais de vinte mil, vivendo em várias cidades, nas proximidades do Iraque e no centro do país.

Teerã, com cerca de doze mil judeus e Shiraz, com oito mil, são as duas maiores comunidades judaicas do Irã. Os líderes da comunidade judaica local dizem que sua relação com o Irã é mais forte do que com as comunidades dos outros países do Oriente Médio. Estas últimas foram virtualmente erradicadas por emigração maciça para Israel nas décadas de 1940 e 1950. Contam, também, que os judeus iranianos são diferentes dos demais judeus da diáspora. O nome Pérsia pode ser encontrado na Torá quase com a mesma freqüência que o nome Israel.

Os judeus sempre estiveram na região desde os tempos bíblicos, muito antes de Maomé e do surgimento do islamismo. Viviam em várias cidades antes da revolução islâmica. Hoje, entretanto, suas comunidades são minúsculas. O comitê judaico do Irã estima que aproximadamente vinte e dois mil judeus habitem o país. Além dos números já vistos para Teerã e Shiraz, mil e quinhentos vivem em Isfahã e outras centenas estão divididos nas cidades de Yazd, Hamadã, Kerman, Kashan, entre outras.

No período aquemênida, dos imperadores Ciro e Xerxes do glorioso Império Persa (século V antes da era comum), os judeus tinham total liberdade de culto. Após esse período, os persas só reencontraram seu auge no período sassânida (séculos III ao VII da era comum). Em 637 da era comum, houve a invasão dos povos árabes e a implementação do islamismo como religião oficial. Os turcos da dinastia seljuqs venceram os árabes, em 1051, mas foram logo conquistados pelos mongóis de Gengis Khan, em 1220. Nesse período, muitos judeus se alinharam aos conquistadores, mas logo após converterem-se ao Islã, os mongóis se voltaram contra os judeus. No século XVI, os sefévidas instituíram no país o xiísmo, vertente do islamismo.

Com os sefévidas, os persas viveram um terceiro período de prosperidade. Nessa fase, os judeus gozavam de relativa tranqüilidade, mas sua liberdade estava condicionada a uma série de obrigações decorrentes do fato de serem dhimmi (protegidos). Pagavam impostos mais elevados e não podiam ocupar cargos de poder, por exemplo. O xá Abbas I (1588-1629) foi bastante tolerante e permitiu que os judeus vivessem em Isfahã. Entretanto, em 1656, eles foram expulsos da cidade. No ano de 1661 foi lançado um edital permitindo aos judeus praticar a religião, contanto que usassem um distintivo. No ano de 1736 subiu ao poder um sunita, de nome Nadir Shas, que permitiu o estabelecimento de uma comunidade judaica em Mashad, mas essa comunidade foi forçada à conversão em 1840, já na dinastia Qajar.

No século XIX, os judeus iranianos viveram sua pior fase na Ásia Central. De acordo com um viajante judeu da época, Sir. J. J. Benjamin, sob o jugo da dinastia Qajar, os judeus eram obrigados a viver em uma parte separada da cidade. Além de serem considerados “infiéis”, eram também considerados “impuros “. Por causa disto os judeus iranianos não podiam sair quando chovia, para não contaminar as águas. As paredes de suas casas deveriam ter altura inferior às paredes das residências muçulmanas; se a pessoa fosse reconhecida como judeu nas ruas, sofreria os mais severos insultos; se um judeu cometesse um crime, seria açoitado 40 vezes e, se gritasse em algum momento, a contagem se reiniciaria.

No século XIX, o Irã ainda era conhecido como Pérsia, palavra derivada dos persas, povo que lá vivia desde os tempos bíblicos. O termo Irã vem de ariano, etnia persa, e foi adotado em 1934. No início da década de 1920, com a ajuda do Império Britânico, um golpe de estado derrubou a dinastia Qajar, colocando no poder a dinastia Pahlevi. Essa dinastia durou até 1979, quando o xá Reza Pahlevi foi deposto. Em janeiro daquele ano, uma revolução popular levou ao poder o Aiatolá Khomeini. De lá pra cá, a política externa iraniana mudou completamente. Parceiros estratégicos como os Estados Unidos e Israel tornaram-se inimigos mortais. O número de judeus diminuiu consideravelmente após 1979. Ainda hoje podem ser encontradas nas ruas da capital, dizeres como “Down with USA” (“Abaixo os EUA”), com um desenho em que as listras vermelhas da bandeira americana transformam-se em mísseis.
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