Enquanto a menorá é levada através das ruas, jovens fazem animados lances leiloando o privilégio de subir no carro da menorá. O dinheiro arrecadado é destinado para a manutenção da sinagoga de Ghriba e para tzedaká.
Homens religiosos proferem as bênçãos sobre os doces e frutas secas que são servidos em bandejas, pela sinagoga. Quem abençoa a comida? São normalmente aqueles que tomam conta do local. Não há rabinos na sinagoga de Ghriba nem tampouco nenhum estudioso tido como o líder espiritual.
Durante o desfile com a menorá e pela noite adentro, as velas são acesas e orações são ditas pela saúde e bem-estar, pela sorte e fortuna. Desejos de preces são escritos em pedaços de papel e enfiados numa caixa de vidro que guarda os rolos da Torá. Há também um pequeno túnel com velas no qual as mulheres colocam ovos crus com nomes escritos na casca. Os ovos ficam cozidos pelo calor das velas e então são comidos pelas mulheres cujos nomes lá estão. Segundo a crença popular, este gesto pode trazer sorte de diversas maneiras.
Em cada recôndito da sinagoga, com suas colunas recobertas de azulejos brancos e turquesa pintados à mão, alguns homens estudam enquanto outros cantam e bebem e as mulheres manifestam sua alegria com gritos. O chão é escorregadio pelo óleo que pinga das lamparinas acesas pelos peregrinos em suas orações.
Fora da sinagoga há um amplo pátio com roupas, fitas, vinhos e lembranças à venda. As pessoas atravessam os corredores até o pátio, onde a brik (uma massa frita de ovos, mergulhada em óleo) é preparada e vendida. Ali, também, os habitantes locais assam carne para si e para seus convidados, e comem em longas mesas.
Os elementos políticos mais chamativos são os discursos. Slaheddine Maaoui, então ministro tunisino do Turismo e do Artesanato (ele acaba de ser nomeado embaixador em Paris), proclama em voz alta seu amor pelo povo judeu. Embora tenham ocorrido períodos de terror e de perseguições no passado, as boas relações entre judeus e muçulmanos são aqui aparentes, como não é usual num país árabe.
Um muçulmano explica que a sinagoga de Ghriba é um lugar santo para os muçulmanos também e nós a reverenciamos tal como fazem os judeus. Ele abre um grande sorriso e me deseja um feliz Lag Ba'Omer. Diga aos americanos que venham e que vejam por si próprios, diz um outro que dança pela rua.
Como vocês vão acomodar toda a gente que gostaria de sentir de perto a sua festa?, pergunto.
Ah... Dus cuidará disso, diz uma radiante nativa.
Fonte:
Los Muestros, dezembro 1996
Hadassah, abril 2001
Djerba, uma comunidade antiga
A ilha de Djerba se encontra a alguns quilômetros da costa tunisina e já era famosa na Antiquidade pela qualidade da púrpura ali fabricada. A comunidade judaica de Djerba é uma das mais antigas do mundo, sendo que os primeiros judeus a chegarem em Djerba vieram da Tunísia com os navegadores fenícios. Os judeus da ilha estão divididos em dois grupos, ambos muito religiosos.
Um grupo se concentra em Hara el Kebira (o Bairro Grande} no qual vivem atualmente cerca de 600 judeus; o outro está localizado em Hara el Saghira (o Bairro Pequeno), no qual só restam aproximadamente setenta judeus. Apenas seis quilômetros separam um bairro do outro. No entanto, até há pouco tempo, mantinham tribunais religiosos e escolas separados, além de um ritual de abatimento dos animais independente. Os habitantes do Bairro Pequeno se orgulham de ser os descendentes dos Cohanim, sobreviventes da destruição do Primeiro Templo em 586 antes da era comum. Esses Cohanim têm na barra das calças um fio preto, sinal de luto do Templo destruído. Eles são ortodoxos e seguem literalmente a religião.
Os judeus do Bairro Grande pretendem ser mais cultos, ter mais conhecimentos gerais e ser menos supersticiosos. Todas as casas dos dois bairros são decoradas com a Estrela de David e desenhos de peixes estilizados para protegê-las do mau-olhado. As casas têm também uma área descoberta para montar a sucá na festa de Sucot. Quando os habitantes constroem uma casa sempre deixam alguma parte incompleta para lembrar a destruição de Templo.
Há onze sinagogas em Djerba além da de Ghriba, a maior e a mais conhecida. As duas comunidades possuem gráficas que durante muito tempo editaram livros em hebraico, aramaico e judeo-árabe. Tinham também muitas lojas de confecção de talitim (xales de reza). A maioria dos habitantes do Bairro Grande são ourives, trabalham o ouro e a prata, enquanto os do Bairro Pequeno são marceneiros, sapateiros, tintureiros ou alfaiates. Um homem do Bairro Grande poderia casar com uma moça do Bairro Pequeno, mas o contrário era inconcebível.
Há muitas lendas e tradições sobre Djerba uma das quais conta que quando o Templo foi destruído alguns Cohanim fugiram levando uma porta (Delet) e blocos de pedra do santuário. Após uma longa viagem, chegaram a uma ilha misteriosa, Djerba. Lá, construíram uma sinagoga e incorporaram as pedras à construção, assim como a porta, que serviu para fechar o Hekhal, no qual fica a Torá. Esta foi a primeira Ghriba. Uma outra lenda fala de uma jovem que fugiu de Jerusalém destruída levando com ela rolos da Torá. Os ventos conduziram seu barco até Djerba, onde ela morreu de esgotamento. A Ghriba teria sido construída perto do seu túmulo. |