LAG BA'OMER EM DJERBA


Foto Ilustrativa

Localizada na faixa costeira da Tunísia, esta ilha mediterrânea, rica em lendas e histórias, é palco de uma comemoração anual que reúne judeus, cristãos e muçulmanos em um clima de harmonia e muita alegria.


Edição 36 - Março de 2002
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Revista Morashá
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A maioria dos visitantes vem a Djerba para descansar e aproveitar as belezas naturais desta praia afetuosamente chamada pelos nativos de “Praia da Salsicha”. No entanto, dentre os turistas, são poucos os que sabem que, anualmente, no meio de um país árabe como a Tunísia, é realizado um festival de peregrinos judeus que conta também com a participação de membros de outros credos.

Este evento de alegria e confraternização é chamado de El Ghriba e começa em Lag Ba’Omer, entre Pessach e Shavuot. O ritual de se contar o Omer por 49 dias – desde o Êxodo do Egito até a entrega da Torá – era associada a um período alegre. No entanto, segundo a tradição, há aproximadamente dois mil anos, tornou-se uma época de tristeza quando milhares de discípulos do Rabi Akiva morreram em conseqüência de uma epidemia. Porém, no 33º dia da contagem do Omer (em 18 de Iyar), a mortalidade cessou e foi instituída uma festa para celebrar o fim de tanto sofrimento. Ainda de acordo com a tradição, Lag Ba'Omer honra a Rabi Shimon bar Yochai, que iluminou o mundo com sua obra sobre a Cabalá.

No mundo simples, correto e cheio de fé dos judeus de Djerba, essa explosão de alegria fixou-se profundamente em sua cultura e costumes, criando uma agitada celebração. É uma festividade que marca a primavera, reverencia os estudiosos e profere as orações de esperança de ocorrências positivas dos ciclos de vida: casamentos e nascimentos. A comunidade judaica de Djerba é tida como a mais antiga em todo o mundo. A maioria dos seus habitantes acredita que a comunidade data de dois mil a dois mil e quinhentos anos atrás.

De acordo com o sábio djerbaniano Hai Haddad, os primeiros colonos teriam chegado há aproximadamente três mil anos, no tempo dos reis David e Salomão ou na época da destruição do Templo e do exílio forçado à Babilônia e a outras terras, em 586 a.E.C. Outra possibilidade é a de que ambas as explicações sejam verdadeiras e que representem as diversas ondas de imigração: aqueles judeus que deixaram Jerusalém após a destruição do Segundo Templo, no ano 70 E.C., e os que saíram da Espanha durante a Inquisição. Os historiadores atestam que Djerba foi o centro mais importante da vida judaica, no norte da África, durante o período do Império Romano.

Na festa de El Ghriba, os judeus djerbanianos não comemoram sozinhos. Ao lado dos mil judeus que lá vivem (há dois mil em toda a Tunísia) e de muitos muçulmanos, multidões de peregrinos judeus vêm de todas as partes do mundo. Estima-se um número de até sete mil. A maioria é composta de tunisinos que emigraram para a França ou para Israel.

As festividades se desenvolvem na belíssima sinagoga principal, a de El Ghriba, a pouco mais de um quilômetro de Hara Saghira, o menor dos dois bairros judaicos da ilha, local onde se instalaram, primeiro, os Cohanim e os rabinos. O outro bairro é Hara Kabira, o maior deles, e as duas comunidades normalmente não se misturam. Uma terceira vizinhança é Houmt Souk, a área de compras conhecida por suas joalherias; ouro e prataria há muito têm sido a principal atividade artesanal e 90% dos ourives são judeus.

A sinagoga de Ghriba, branca e restaurada, tem apenas cerca de um século de existência. Mas, de acordo com depoimentos, a sua pedra fundamental veio do Templo do Rei Salomão. Teria sido mesmo do canto da muralha do Segundo Templo? Ou teria sido meramente uma pedra que um judeu exilado trouxera da Terra Santa? A história perde nitidez. Um rabino francês diz conhecer a história. Segundo a tradição, a pedra “carregou a si própria” por todo o caminho desde Jerusalém e apareceu, milagrosamente, no local onde a sinagoga seria construída. Outra história conta que os Cohanim trouxeram um dos portões do Templo para Djerba, em 70 E.C., onde ele continua instalado na sinagoga de Ghriba.

O prédio, bem no centro do local das celebrações, é uma torre de vários níveis e possui a forma de um enorme bolo de casamento adornado com pequenos candelabros. A torre é cuidadosamente enfeitada com xales coloridos das mulheres e perfumada como uma noiva, com aromas exóticos. A “grande menorá” é retirada apenas uma vez por ano, colocada num carro e levada através das ruas cheias de areia. Os celebrantes cantam, aplaudem, rezam e a beijam, enquanto a menorá é levada desde a sinagoga de Ghriba até as menores, em Hara Saghira.
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