PESSACH
A FESTA DA LIBERDADE


Darmstad, Hagadá alemã, século XV

O Êxodo do Egito, celebrado na festa de Pessach, permeia toda a lei e a tradição judaicas. A Hagadá, texto lido durante o Seder, ensina que em cada geração é dever de todo judeu sentir-se como se ele próprio tivesse saído do Egito.


Edição 36 - Março de 2002
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Efetivamente, a Torá nos ordena “...para que todos os dias da tua vida te recordes do dia da tua saída da terra do Egito” (Deuteronômio 16:3). Instrui-nos, também, que se acaso nossos filhos nos perguntarem por que seguimos esses mandamentos, deveremos responder: “...pelo que o Eterno me fez quando saí do Egito” (Êxodo 13:8).

A lei judaica e seus mandamentos estão vinculados ao Êxodo. O primeiro dos Dez Mandamentos é a afirmação Divina de que Ele é o Senhor, nosso D’us, que nos tirou da terra do Egito, da casa da escravidão (Êxodo 20:2). Ao invés de Se declarar como o Criador de todo o universo, D’us apresenta-Se como O responsável por ter libertado o povo judeu da servidão egípcia.

O Talmud menciona que o povo judeu necessita, sempre, de um sinal de seu vínculo com D’us, representado através da colocação dos tefilin e da observância do Shabat (Eruvin 96a). A Torá menciona quatro vezes o mandamento do uso dos tefilin, duas das quais relacionando-o com o Êxodo: “E será para ti como um sinal sobre tua mão e como lembrança entre teus olhos, para que esteja a Lei do Eterno em tua boca; pois com mão forte te tirou o Eterno do Egito” (Êxodo 13:9). E, mais adiante: “E será como um sinal sobre tua mão e por meio de filactérios (tefilin) entre teus olhos, porque com mão forte nos tirou o Eterno do Egito” (Êxodo 13:16).

O mandamento de guardar o Shabat também é associado com o Êxodo: “Guardarás o dia do Shabat para santificá-lo, como te ordenou o Eterno, teu D’us...E de que servo foste na terra do Egito, e que de lá te tirou o Eterno, teu D’us, com mão forte e braço estendido; portanto te ordenou o Eterno guardar o dia de Shabat” (Deuteronômio 5:12-15).

É evidente que o Êxodo foi de grande importância histórica para o povo judeu. Mas por que estaria relacionado com os mandamentos religiosos? E por que, milhares de anos mais tarde, somos obrigados a lembrá-lo e a transmiti-lo a nossos filhos?

Lições do Êxodo

Na Torá vemos que D’us apresenta-se sob vários Nomes. Mas há dois destes que são, quase sempre, utilizados: um é Elokim, enquanto o outro é composto de quatro letras hebraicas: yud, hei, vav, hei. Este último Nome, que jamais pode ser pronunciado, nem mesmo nas orações, é traduzido como “meu Senhor” ou “o Eterno”.

Os nossos sábios assinalam que o nome Elokim tem o mesmo valor numérico que a palavra “natureza”. Isto representa o envolvimento de D’us com o mundo no curso natural dos acontecimentos, quando o homem é julgado com rigor e justiça. O Nome de quatro letras representa o atributo Divino da misericórdia, quando Ele julga o homem, repleto de perdão e de imerecida bondade, realizando milagres e maravilhas.

Uma leitura atenta da Torá revela que apesar da idolatria que predominava no Egito, os egípcios acreditam em D’us. Ao serem surpreendidos com a praga dos piolhos, os conselheiros do faraó aconselham-no com as palavras: “Isto é o dedo de D’us” (Elokim) (Êxodo 8:15). E, no entanto, quando Moisés se encontrou diante do faraó e lhe transmitiu a ordem de D’us de libertar o povo judeu, o faraó lhe responde que como desconhecia o Eterno (o Nome de quatro letras), não libertaria o povo de Israel (Êxodo 5:2).

Apesar de os egípcios terem conhecimento da existência de D’us, ainda assim adoravam outros deuses e a própria natureza, por acreditar que cada um desses fosse uma fonte independente de poder no mundo. Até mesmo o Rio Nilo e o faraó eram tidos pelos egípcios como divindades a serem reverenciadas.

Não se trata de simples coincidência o fato de que o D’us dos hebreus tivesse castigado o Egito com pragas relacionadas à natureza. O rio adorado pelos egípcios vira um mar de sangue e suas terras, colheitas, posses e corpos são presa de uma série de catástrofes.
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