CRIANÇAS DÃO EXEMPLO DE SOLIDARIEDADE


Soldado israelense socorre vítima de um atentado à escola de Maalot

Em Israel, crianças e jovens vítimas de atentados terroristas participam de um trabalho voluntário para ajudar aqueles que passaram pelas mesmas experiências, ajudando-as a superar seus traumas.


Edição 36 - Março de 2002
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Revista Morashá
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Mais de 600 crianças perderam o pai ou a mãe, em Israel, no ano de 2001. Milhares de menores em Nova York e centenas em Washington (EUA) passaram pela mesma situação em um único dia de setembro do ano passado. Como lidar com a situação de perda ou conviver sob a sombra do perigo, diariamente? Como reconstruir o cotidiano a partir das cinzas de atentados terroristas? A resposta é uma só – não é fácil, porém necessário. Foi pensando nos sobreviventes às vítimas do terror que foi criada em Israel, há alguns anos, a Kids for Kids – uma organização voltada a confortar crianças que vivenciaram situações traumáticas decorrentes da violência, ajudando-as a superar suas amargas experiências.

A principal diferença entre esta organização e similares, no resto do mundo, é que esta, além de contar com uma equipe de profissionais, possui um verdadeiro exército infantil de voluntários. São crianças que já viveram a perda de um parente ou foram elas mesmas vítimas de atentados terroristas, carregando não apenas seqüelas físicas mas principalmente emocionais. Fazendo visitas a hospitais, participando de grupos de discussão, enviando cartas ou desenhos, essas crianças utilizam sua própria experiência para transmitir conforto e carinho, mostrando que, apesar de difícil, é possível aprender a superar o medo e a conviver com a dura realidade da violência. A entidade foi tema de uma ampla reportagem publicada na edição de junho/outubro de 2001 do The Jerusalem Post Magazine, intitulada “One heart reaches out to another” (Um coração alcança o outro).

Segundo Miriam Adahan, psicóloga, escritora e ativista da Kids for Kids, não há dúvida de que se uma criança for ferida, testemunhar ou perder um ente querido em um ataque terrorista, em qualquer lugar do mundo – mesmo naqueles nos quais a violência não faz parte da rotina – ficará com cicatrizes profundas. Em Israel, há outros agravantes, como o fato de conviver em um contexto onde as notícias sobre feridos, mortos e o perigo iminente são parte do cotidiano. “Esta sensação de risco e de estar sempre sob ameaça provoca danos à psique das crianças e a única maneira de atenuar as conseqüências é estar ao lado delas, ajudando-as a superar seus medos, sem deixar de enfatizar que tais sentimentos são normais. Se a criança conseguir falar de seus receios, sobre a experiência negativa que vivenciou e sentir que outras pessoas também passaram por isso, o processo de recuperação é mais rápido e eficaz”.

O pai de Chaitze Tavens, 15 anos, foi espancado por um desconhecido há quase cinco anos. Ele perdeu dois amigos no atentado na Pizzaria Sbarro, em Jerusalém, no ano passado, e dois de seus amigos ficaram feridos. O pai de um colega seu também foi esfaqueado por outro desconhecido. E, apesar de todos esses traumas – ou justamente por causa deles – o jovem é um dos voluntários da Kids for Kids. Após o ato terrorista de 21 de junho de 2001, no Dolphinarium, em Tel Aviv, no qual 21 pessoas morreram – a maioria jovens – ele foi ao hospital visitar rapazes e garotas vítimas do atentado. “Fui visitá-los pois achei que era importante que não se sentissem sozinhos. Para que pudessem falar sobre o que aconteceu, sabendo que alguém estava realmente entendendo o que sentiam. Acho que ficaram felizes porque eu e outros do grupo fomos lá”, explica Tavens.

O aspecto mencionado por Tavens – “para que eles pudessem falar sobre o ocorrido” – é também citado por Adahan. Baseada em sua experiência, a psicóloga afirma, sem hesitar, que lidar com crianças é difícil mesmo quando as circunstâncias são consideradas ideais. Isto porque, de modo geral, elas não têm o hábito de expressar seus sentimentos. A situação torna-se mais complicada, segundo ela, quando se considera a constante pressão e ameaça, além do fato de que os pais, também, estão tendo a mesma sensação de perigo. “Esta é a realidade principalmente nos assentamentos, nos quais o simples fato de ir à escola de ônibus pode implicar em perigo. Devemos lembrar, ainda, uma atitude muito comum em Israel – ensinar as crianças a serem fortes e duras – o que não ajuda muito quem está assustado. Pressionadas por esse conceito de coragem, as crianças tendem a se sentir mais sozinhas; e isto aumenta sua dificuldade de falar sobre seus sentimentos. Neste aspecto em particular, o fato de Kids for Kids ser uma entidade que conta com voluntários infanto-juvenis faz a grande diferença”.
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