A COMUNIDADE JUDAICA DA ARGENTINA EM PERIGO


Foto Ilustrativa

Existe o mito de que as comunidades judaicas da América Latina são muito ricas. A realidade é que boa parte destas pertencia às faixas média e baixa da classe média. Este é o caso da Argentina.


Edição 36 - Março de 2002
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Um panorama dramático

Estima-se que 50.000 judeus argentinos estejam abaixo da linha de pobreza. Inúmeros judeus que pertenciam à classe média não têm o necessário para a sua alimentação. Vão buscar comida todos os dias nas sinagogas e instituições comunitárias que abriram refeitórios populares para atendê-los. O Chabad Lubavitch da Argentina procura atender 300 crianças judias que não têm família, muitos dos quais lhes são enviados pelo Juizado de Menores. A Fundação Tzedaká construiu 12 moradias para famílias judias que não tinham onde morar. Uma delas vivia com seus dois filhos num trailer emprestado. Aumenta mês a mês o número de pessoas que procuram trabalho no Centro Ocupacional da AMIA. A maioria são jovens profissionais judeus desocupados.

Este é, hoje, o panorama da comunidade judaica da Argentina, que está em real perigo. Como o apontou o Presidente da Comissão de Absorção e Imigração do Knesset, Tzvi Hendel, após retornar do país: “A comunidade judaica da Argentina corre perigo de desmoronar”. Esta comunidade, que desenvolveu uma magnífica rede educativa cultural e nacional e combateu o anti-semitismo, agora se vê confrontada por um rápido processo de pauperização que a colocou contra a parede em muitos aspectos.

A nova pobreza judaica

Existe o mito de que as comunidades judaicas da América Latina são muito ricas. A realidade é que boa parte destas pertencia às faixas média e baixa da classe média. Este é o caso da Argentina. Chegar até essas posições significou, para os judeus, um penoso caminho por terem começado do zero, sem absolutamente nada. Hoje o mito está ainda mais distante da realidade. Vastos setores da comunidade já não são sequer da classe média baixa, são os novos pobres. Estimou-se que na Argentina, na década de 90, sete milhões de pessoas – ou seja, 20% da população do país – passou da classe média para a pobre, dentre os quais grandes contingentes de judeus. A classe média que, nos anos 60 representava 50% da população, não chega, agora, a 25%. Estima-se que uma quarta parte dos membros da comunidade judaica do país é hoje pobre ou está no limite da linha de pobreza; e o número cresce a cada dia, como ocorre com o número de novos pobres, em geral.

Este processo não tem nada a ver com anti-semitismo ou discriminação. O problema é de outra índole. A comunidade judaica argentina, em sua maioria, estava engajada em ocupações que foram as mais prejudicadas pela política econômica que vigorou no país, nesta década, e que em geral polarizou a pirâmide social e favoreceu a concentração econômica, criando sérias dificuldades de sobrevivência aos estratos médios da população. Assim, muitas famílias judias que se dedicavam ao pequeno comércio – que foi alijado da economia pela irrupção das redes de supermercados e magazines de grande porte – viram-se também sem meios de subsistência. Outras tinham erguido com muito trabalho pequenas e médias indústrias, que não resistiram à livre importação e à dificuldade de obtenção de crédito. Muitos judeus que tinham cargos públicos, perderam o emprego nos sucessivos cortes no funcionalismo estatal. Muitas famílias não mediram esforços para que seus filhos completassem uma carreira universitária, o que, na Argentina do século passado, era considerado uma garantia de poder pertencer à classe média. A situação mudou drasticamente. Muitas carreiras ficaram virtualmente sem mercado de trabalho. Até aquelas mais cobiçadas numa típica família judia, como a medicina, enfrentam, hoje, muitos problemas. E não é só a questão dos desempregados. Também muitos dos que têm trabalho recebem, atualmente, um salário que os coloca na faixa da quase pobreza. Este é o caso dos professores, dos paramédicos e dos muitos funcionários públicos. Por outro lado, o vasto setor dos aposentados, após uma longa vida de trabalho, depara-se com pensões mínimas cujo valor real diminui constantemente.
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