<< Voltar Página
Vários intelectuais – Shmuel Trigano, Alexandre Adler, Jacques Tarnero, Marc Knobel – criaram recentemente uma revista, Observatório do mundo judeu, cujo primeiro número foi consagrado a esse “blackout”, no qual procuram compreender as razões, com franqueza e autocrítica. Schmuel Trigano diagnostica uma “configuração social e política completamente nova” e o risco de uma oscilação simbólica na cidadania dos judeus”, na qual “a segurança torna-se problemática, sem que por esse motivo a sociedade civil manifeste reprovação e sem que o governo saia de sua aparente indiferença”. Segundo ele, este risco de “desnacionalização subreptícia da comunidade judaica” é resultante de uma instrumentalização perversa – e em parte consentida – da identidade judaica pela política da Frente Nacional de diabolização de Mitterrand, com fins eleitoreiros: “Data dessa época a famosa equação judeus = emigrados. Tal equação realizava, de fato, a síntese ideológica entre a figura do judeu, vítima da Shoá e de Vichy, e o emigrado, vítima do racismo e alvo da mira da Frente Nacional. Esses artigos, que rotulavam o judeu como emigrado absoluto, implicavam, no entanto, necessariamente, em um enfraquecimento de sua dignidade nacional: o judeu se tornava mais emigrado que todos os outros, o arquétipo do imigrante”.

Terrível armadilha: “Essa comparação com a ‘comunidade da imigração’ revela-se ilegítima no inconsciente coletivo, pois tira a ‘comunidade judaica” da legitimidade nacional, na qual conseguiu reconstituir-se após a guerra, para a inscrever no registro da vida em comunidade ou comunitarismo”. Isto, enquanto por outro lado “a posição do judaísmo na República Francesa em nada se compara à posição do Islã. O judaísmo, na verdade, atravessou em dois séculos um processo de modernização que o transformou profundamente, enquanto que o Islã jamais vivenciou algo parecido. Ademais, esse francês judeu assim “desnacionalizado”, que estava, cada vez mais, assimilando-se a Israel, desvia-se dessa rota, “estimulado por certas caricaturas publicadas no Le Monde ou Libération, representando o ‘malvado’ israelense como judeu ortodoxo, isto é, mais como judeu religioso do que como cidadão israelense, o que não é o caso dos judeus da França”, explica Sammy Ghozlan, presidente do Conselho das Comunidades Judaicas de Seine-Saint-Denis.

Esse “comunitarismo” dos judeus da França – que recebeu o reforço cúmplice de certas organizações judaicas que desejavam tal situação por motivos religiosos -progressivamente foi desenhando uma nova paisagem política que se tornou visível após a Guerra do Golfo, quando François Mitterrand felicitou as comunidades judaica e muçulmana por terem mantido a calma durante o conflito. Um tal novo tratamento público “não poderia deixar de suscitar o rancor e o ciúme entre os muçulmanos, que viam ser oferecido como modelo o exemplo dos judeus, a quem a sua herança cultural e religiosa via como uma minoria dominada do Islã, ainda para cúmulo identificada com Israel”, analisa Shmuel Trigano. Ele estima que os judeus da França foram freqüentemente utilizados como modelo de integração em virtude da incapacidade da sociedade francesa “de propor um pacto limpo e transparente à nova população de imigrantes: a entrada do Islã no pacto laico”. Segundo ele, uma vez mais os judeus da França tornam-se “os bodes expiatórios dos problemas não resolvidos pela sociedade francesa”.

“À luz dessa atualidade, o Observatório do mundo judeu traz à tona uma pesquisa realizada em 1996, com uma amostragem de jovens dos subúrbios, de 18 a 25 anos, com diploma universitário, militantes em associações anti-racismo. Esta pesquisa esclarece a concretização dos atos ocorridos anos mais tarde. Com base nos resultados, constatando uma “relação complicada e conflitante com o elemento judaico”, Jacques Tarnero diagnostica “também um conflito não resolvido, um potencial de violência contida, de ressentimento e frustração que se manifesta contra a França, contra o Ocidente, contra um mundo que não é o deles”. Esses jovens parecem-lhe vítimas de duas atitudes simultâneas: “A primeira, a rejeição ou a repressão; a segunda, a compaixão e a caridade revolucionária”, que “deixa tudo passar em nome da desculpa sociológica” e contribui “para desresponsabilizar os jovens, amarrando-os com um regulamento exótico”. Conclusão: “Em nome de um anti-Le Penismo de postura, somos impedidos de medir o racismo existente nos subúrbios. Em nome do politicamente correto, não quisemos considerar essa dupla atitude que faz com que possamos ser, às vezes, vítima do racismo e racistas, nós mesmos”.

Eric Conan
L’Express International
Edição nº 2631 – 6 a 12 dezembro de 2001
(traduzido por Lilia Wachsmann)
<< Voltar Página

1 2 3