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Os magistrados parecem obedecer aos mesmos reflexos: o relatório da Comissão Consultiva destaca também, a propósito das centenas de “intimidações” de caráter anti-semita (depredações, pichações, ameaças verbais, alertas de bombas), que, em cerca de 60 interrogados, apenas cinco indivíduos, de extrema direita, tivessem sido objeto de processos judiciais. Como se os outros não fossem realmente anti-semitas, mas apenas “anti-judeus”, o que tornaria menos graves seus atos de violência, transformados em “atos isolados de delinqüentes”, como os qualificou o chefe de polícia de Bouches-du-Rhône, após o incêndio de uma escola judaica em Marselha, ou como “fenômenos de mau gosto”, obra de “jovens ociosos”, nas palavras de Daniel Vaillant.

Durante este um ano, as reações dos políticos foram raras. Um comunicado da Presidência da República condenou as “manifestações de intolerância”. Lionel Jospin considerou “particularmente escandalosos e intoleráveis” os ataques contra as sinagogas, apesar de destacar que os mesmos não haviam sido “sistemáticos”. A identidade dos responsáveis suscita o embaraço. “Nossas intervenções foram ouvidas com atenção, no entanto os atentados foram tratados da mesma forma que os incêndios de automóveis”, explica Jean Kahn, presidente do Consistório Israelita da França. Uma única exceção: François Bayrou, que denunciou o aparecimento de um “novo anti-semitismo, de natureza diversa, de raízes esquerdistas e terceiro-mundistas, que retoma as mesmas infâmias, apenas sob novo disfarce”.

A mídia parece, também, presa de um mutismo que chega, às vezes, à auto-censura. Em certos jornais, fatos que eram expostos em páginas inteiras quando seus editores queriam destacar os militantes de extrema direita, são agora relegados à seção de “notícias breves”. Uma grande estação de rádio de cobertura nacional explicou a seus ouvintes que, nos muros da escola judaica incendiada em Marselha, destacava-se o slogan “Bin Laden venceu” – quando na verdade o texto exato dizia: “Bin Laden venceu, morte aos judeus”. E os desvarios da Rádio Courtoisie suscitaram, há pouco, mais reações que as provocações anti-judaicas de certas rádios comunitárias FM, algumas prometendo aos judeus da França o mesmo fim que o dos jovens israelenses mortos no atentado suicida em uma discoteca, em Tel-Aviv. “Foi em seguida a um procedimento iniciado pelas associações que a Rádio Oriente, naquele então controlada pelo CSA (Consistório das Sociedades Árabes), foi condenada por difundir pregação conclamando ao ‘desaparecimento dos judeus da face da terra”, recorda Marc Knobel, adido de pesquisa no Centro Simon Wiesenthal. E ninguém se rebelou contra as verdadeiras lixeiras anti-semitas em que se transformaram certos sites “formadores de identidade” da Internet.

“Nosso adversário é a indiferença. O que assusta os judeus da França é o silêncio e a naturalidade de seus compatriotas”, explica Patrick Klugman, presidente do Conselho dos Estudantes Judeus da França. Este silêncio e esta redução da importância dos fatos, que vêm-se somando há um ano, provocam confusão entre inúmeros judeus, que constatam com amargura que, desde 11 de setembro, os responsáveis políticos não pararam de repetir que não se devia misturar o Islã com o islamismo. Por que, então, tais políticos não fizeram um esforço semelhante para anunciar que os judeus da França não deviam ser responsabilizados pelos acidentes na política israelense? Uma vez que o anti-semitismo se transformou e, cada vez mais, veste a máscara do anti-sionismo, suas origens se deslocaram da Europa para o mundo islâmico – que virou a fonte de uma nova onda de edições dos Protocolos dos sábios de Sion. “A luta contra o anti-semitismo, fixada no passado nazista há meio século, ficou adormecida nos discursos comemorativos e no pseudo anti-racismo, muito edificante e apropriado para as conferências internacionais consensuais. O que existe, realmente, é uma judeu-fobia de obediência islâmica, que parece ser ideologicamente inaudível”, explica Pierre-André Taguieff.

Os responsáveis pela comunidade judaica se apercebem, em suas discussões com os políticos, que muitos justificam seu silêncio na crença de “jogar óleo na fogueira” em certos subúrbios onde perderam a popularidade. E que outros parecem motivados pela preocupação de não descontentar uma população cujo peso eleitoral torna-se importante em certas jurisdições. “Como na França há 5 a 6 milhões de muçulmanos e apenas 600 mil judeus, é óbvio que a comunidade muçulmana é mais levada em conta”, declarou o Grão-Rabino da França, J. Sitruk. É verdade que um incidente recente no seio do Partido Socialista deu força a essa crença. Pascal Boniface, membro do PS e diretor do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, em uma reunião a portas fechadas da comissão internacional do partido, sugeriu que, para obter em 2002 os votos da “comunidade árabe-muçulmana”, seria mais produtivo modificar a política oficial acerca de Israel: “Estou impressionado com o número de jovens muçulmanos franceses de origem magrebina, de todas as idades, que se dizem de esquerda mas que, em virtude da situação no Oriente Médio, se recusam a votar em Jospin para presidente”. Tal idéia se difundiu como um rastilho de pólvora entre as instituições judaicas.

Como reagir? As próprias instituições judaicas estão divididas: “A situação atual suscita reações contraditórias”, como explica Marc Knobel, também vice-presidente da Licra. “Há aqueles que começam a verdadeiramente entrar em pânico e a se “esquentar” e outros que tentam acalmar o jogo, enquanto outros tentam fazer de conta que não percebem o que está ocorrendo”. Mas o silêncio dos políticos os angustia e a crença de uma marginalização dá origem a duas atitudes opostas: a acentuação, por parte de alguns, de uma tendência de volta ao seio da comunidade (ao longo deste ano passado, verificou-se um aumento na busca por jornais e programas de rádio comunitários), enquanto outros, pelo contrário, insistem na armadilha da lógica comunitarista, ainda que eles mesmos tenham cedido à mesma, no passado.
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