AS CIFRAS NEGRAS DO ANTI-SEMITISMO


Foto Ilustrativa

Desde outubro de 2000, o número de atos de violência contra os judeus aumentou significativamente na França. A maioria desses atos, perpetrados por jovens imigrantes árabes-muçulmanos, suscitam constrangimento e, mais grave ainda, silêncio.


Edição 36 - Março de 2002
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Em virtude de persistirem, certos silêncios acabam por adquirir a densidade de verdadeiros acontecimentos. O silêncio que se abate sobre a França, há mais de um ano, sobre o recrudescimento dos atos anti-semitas, leva muitos judeus a se interrogarem, com inquietação, sobre a razão para tal mutismo.

No dia 10 de outubro de 2000, em Trappes, pela primeira vez após a Libertação, uma sinagoga foi destruída. Em 28 de outubro de 2001, em Marselha, uma escola judaica foi incendiada. Entre as duas datas, a lista é longa em atentados, violências e tentativas dirigidas contra pessoas físicas, prédios, cerimônias ou símbolos judaicos, sem falar na explosão de ameaças, panfletos, agressões verbais e pichações. Este novo clima foi o tema principal do jantar anual do Crif (Conselho das Organizações Judaicas da França), em 1º de dezembro último.

O último relatório da Comissão Consultiva sobre Direitos Humanos totalizava 116 violências anti-semitas no ano de 2000, contra 9 em 1999 e 1 em 1998. Cento e onze dos 116 atentados ocorreram no último trimestre do ano. “Em decorrência da situação no Oriente Médio”, segundo explica o documento, que enumera as diferentes formas de violência: “44 tentativas de incêndio – por lançamento de coquetéis Molotov – 33 depredações por jatos de fogo, apedrejamento, vidraças quebradas e 33 agressões, com 11 vítimas”. A Comissão, que apenas faz menção a 42 interrogados, descreve-os, paradoxalmente, como jovens delinqüentes que não “reivindicam nenhuma ideologia em especial”, mas que são “movidos por um sentimento de hostilidade por Israel”. Esta nova delinqüência anti-semita, que coincide com o início da segunda Intifada, ou Intifada al-Aqsa, em Israel, em final de setembro de 2000, apresenta uma dimensão internacional: o fato de afetar todas as democracias ocidentais, dos Estados Unidos à Noruega e da Grã-Bretanha à Itália. Mas a França é o país mais atingido: um terço dos atos de violência e quase a metade dos atos incendiários arrolados em outubro de 2000, na Europa e nas Américas, foram perpetrados em território francês.

Para o ano de 2001, o Ministério do Interior registrou, até 15 de novembro último, 26 atentados violentos e 115 intimidações e ameaças. De modo similar ao ocorrido no ano de 2000, em que a maioria das violências (75 das 116) ocorreram no mês de outubro – durante os momentos mais intensos da Intifada em Israel e nos territórios – 14 dos 26 atos de violência do ano de 2001 foram registrados no dia que se seguiu aos atentados de 11 de setembro, nos Estados Unidos. Portanto, o Ministério do Interior concluiu que a violência foi menos intensa após o dia 11 de setembro do que após o início da Intifada, no ano anterior. Porém, a volta à “normalidade” após esses picos de violência, situa-se a um nível de tensão muito mais alto do que anteriormente.

Desde o ano de 1991, da Guerra do Golfo, as manifestações de anti-semitismo vinham regredindo, registrando-se uma média de apenas 1 a 3 ações violentas, por ano, em meados da década de 1990. O piso atual estabiliza-se, portanto, em um nível muito mais alto do que o alcançado nos últimos dez anos. Os especialistas do Ministério do Interior ressaltam que suas estatísticas, confiáveis para registrar as variações de ano a ano, estão longe de ser exaustivas. Seus dados se concentram sobre fatos graves: neste período de um ano, 60 sinagogas e locais de culto, 15 locais de ensino, 3 cemitérios e 16 lojas foram alvo de atentados. Ademais, ressaltam também que as ocorrências conhecidas como “cifras negras” (ou seja, os fatos não recenseados) ganham grande importância, especialmente nas pequenas agressões, ameaças e intimidações – que de outra forma lhes escapariam – depois que o Crif, o Fundo Social Judaico Unificado e o Consistório de Paris, que montaram uma linha telefônica 24 horas, constataram uma explosão de “cifras negras” neste período de um ano.

A novidade não se prende apenas ao retorno das estatísticas inquietantes, ainda que sub-avaliadas, mas também à indiferença que as mesmas suscitam sobre um assunto – o anti-semitismo – que era, até então, objeto de atenta vigilância. Por que, então, o silêncio? Porque não se trata mais dos mesmos autores. O relatório da Comissão Consultiva dos Direitos Humanos o diz claramente: estes atos, a partir de agora, fazem sobressair basicamente “elementos imigrantes, que encontraram nesses atos um derivativo para seu descontentamento e sentimento de exclusão”. Portanto, políticos, jornalistas e membros de associações anti-racismo têm manifestado, há um ano, um evidente constrangimento diante deste novo perfil. Eles não têm mais que enfrentar o eterno militante Le Penista, o nostálgico de Vichy ou o tacanho cidadão da “França embolorada”, capazes de convocar, num piscar de olhos, a eterna mobilização “anti-fascismo”. Como se a personalidade do autor de um ato anti-semita tivesse mais importância que o próprio ato em si, cuja natureza permanece inalterada.
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