Rede clandestina de fuga
Após tomar a decisão de ficar o tempo necessário para salvar o maior número de pessoas, Fry tentou inutilmente obter o apoio das autoridades americanas na França. Logo percebeu que ninguém o ajudaria, além de Hiram Bingham, vice-cônsul americano em Marselha. Estava sozinho e percebeu que, para montar uma rede clandestina de fuga, precisava ter uma fachada legal e encontrar pessoas confiáveis que o ajudassem. Trabalhava dia e noite. Alugou um escritório onde passou a funcionar o Centro de Assistência Americano (American Relief Center) e conseguiu reunir um pequeno, mas dedicado grupo.
O grande economista Albert Hirschman foi o seu primeiro cúmplice. Outros rapidamente se juntaram, entre eles, americanos que estavam na França, por acaso, na época da invasão alemã, como Miriam Davenport, uma estudante de arte, e Mary Jayne Gold. Esta última era uma linda herdeira de Chicago que usava sua beleza, quando necessário, para pedir que olhos se fechassem na hora certa.
Acabou ajudando a financiar a operação com outros US$ 3 mil. Alguns europeus, também refugiados, participavam da operação. Eram indispensáveis já que conheciam os que precisavam de ajuda e sabiam como encontrá-los.
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Entre esses estavam Walther Mehring, o poeta Hans Sahl e Bill Freier, um artista austríaco que usou seu talento para forjar documentos de viagem.
Trabalhavam sem parar, contra o tempo, e sob o olhar atento das autoridades francesas e da Gestapo. Durante o dia entrevistavam e distribuíam dinheiro ou ajudavam a encontrar onde abrigar os refugiados. |
Uma imensa fila se formava diariamente, antes mesmo de abrir o centro. À noite, o grupo se reunia com Fry para planejar e discutir as atividades secretas. Sabiam da gravidade das decisões a serem tomadas e também das trágicas conseqüências frente a uma derrota.
Fry aprendeu rapidamente e, em pouco tempo, conseguiu montar uma eficiente rede clandestina de fuga, via Lisboa. Conhecia a importância de um passaporte, um visto ou uma carteira de identidade francesa. Tentava obtê-los através de seus contatos. Vladimir Vochoc, cônsul tcheco em Marselha, sempre pronto a dar um passaporte com nome falso para os inimigos do Reich, foi uma peça indispensável para a rede de Fry. Às vezes documentos eram comprados no mercado negro, outras vezes acabavam sendo forjados. Vários artistas incluindo Max Ernst, Marc Chagall e André Breton e outras centenas de pessoas que os nazistas queriam eliminar, tiveram que sair da França sob nomes fictícios e com passaportes falsos.
Fry se envolveu com o submundo de Marselha para trocar dólares e para encontrar contrabandistas que estivessem dispostos a assumir os riscos de transportar contrabando humano. Uniu-se com todo tipo de oponentes do Terceiro Reich refugiados franceses, judeus e não-judeus. Organizou fugas de campos de internação onde os franceses detinham os judeus antes de os deportar para a Alemanha.
Às vezes os refugiados eram escondidos em pequenos barcos ou em trens, rumo à Espanha. Uma vez em território espanhol, com alguma sorte, partiam para Portugal onde podiam, finalmente, embarcar em um navio que os levaria até a América do Norte ou ao Caribe. Outras vezes eram obrigados a fazer a pé a travessia das montanhas dos Pirineus. Era uma escalada longa e difícil e, para os mais velhos, quase impossível. Mas quando esta era a única alternativa, reuniam todas as suas forças e faziam a longa caminhada sob sol escaldante.
Os obstáculos enfrentados por Fry eram os mais variados. Muitos dos artistas estavam enraizados na França e não tinham plena consciência do perigo que corriam. Em suas memórias Fry relembra o primeiro encontro que teve com Marc Chagall, em uma cidade na Provença. O artista, há anos naturalizado, considerava-se cidadão francês e pretendia permanecer na região durante toda a ocupação nazista. Fry sabia que Chagall estava na lista negra nazista, mas soube esperar até convencê-lo. Eu tinha que ter paciência, não podia apressar um artista como Chagall, disse certa vez.
Assim que as leis antijudaicas foram promulgadas na França, em 3 de outubro de 1940, Chagall soube que chegara a hora de deixar a Europa. Foi a Marselha com a sua família, mas a polícia o prendeu ao chegar. O que salvou o grande pintor foi a ousadia e a coragem de Fry. Assim que recebeu a notícia, foi até o presídio de Marselha, ameaçou as autoridades de divulgar a notícia da prisão do artista na imprensa internacional, um fato que teria uma repercussão negativa para o governo de Vichy. Chagall foi libertado e conseguiu sair da França atravessando os Pirineus a pé até a Espanha, partindo em seguida para os Estados Unidos.
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Nos 13 meses que permaneceu na cidade, ajudado por seu grupo, Fry salvou milhares de pessoas. Algumas das mentes mais brilhantes do século XX, como Otto Meyerhoff Prêmio Nobel de Química e o pianista Heinz Jolles, os artistas Marcel Duchamp e Wilfredo Lam, o escultor Jacques Lipschitz, o novelista Lion Feuchtwanger, o poeta Franz Werfel e sua esposa Alma Mahler, e Gropius Werfel. E muitos outros, menos conhecidos, além de sindicalistas e soldados britânicos. |
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