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Os inimigos do Reich

Durante a década de 30, centenas de milhares de artistas e intelectuais europeus – judeus e não judeus, declarados como “inimigos” pelo regime nazista, passaram a viver em Paris. Antes de iniciar o ataque à Europa, Hitler já havia declarado guerra a todos os judeus e a todos os pensadores, intelectuais e artistas que não se encaixassem na concepção nazista de mundo. O Führer, um artista frustrado, odiava todo tipo de arte moderna – expressionismo, surrealismo, bem como compositores e escritores de vanguarda. Portanto, logo que assumiu o poder, deu início ao que chamava de “depuração” da vida intelectual e artística. Para se ter uma idéia dos seus pensamentos, ao se referir à arte moderna utilizava a expressão “degeneração”, conceito usado principalmente para definir “impureza racial”.

Em 1933, poucos dias após Hitler ser nomeado chanceler da Alemanha, foram anunciadas medidas institucionais sobre o plano cultural e artístico alemão. Para os nazistas, toda arte moderna, assim como seus autores, deveria ser eliminada. No outono europeu de mesmo ano, os judeus foram banidos de toda a vida artística e intelectual do país. O ritual da queima de livros em praça pública era uma amostra do que estava para acontecer. Foi grande o êxodo da Alemanha de intelectuais e artistas.

Em um discurso em Nüremberg, em 1935, Hitler afirmou ser necessário acentuar o ajuste de contas com os “criminosos” da cultura alemã. A partir daí, a ofensiva nazista contra os intelectuais e artistas considerados ameaça à pureza alemã ultrapassou o limite das sanções institucionais. Os que não conseguiram fugir acabaram presos e enviados para campos de concentração.

Comitê de Resgate de Emergência

Após a invasão da França, os membros de uma organização americana da qual fazia parte Varian Fry reuniram-se, cada vez mais alarmados pelas notícias vindas da França. Era óbvio que algo de concreto tinha que ser feito para salvar os perseguidos. Criaram portanto o “Comitê de Resgate de Emergência”, cuja missão era encontrar lideranças judaicas e intelectuais anti-nazistas presos na Europa e levá-los para a América do Norte e do Sul.

Para viabilizar a operação, o grupo arrecadou, entres os próprios membros a soma de US$ 3 mil, na época uma quantia significativa. Com o apoio de Eleanor Roosevelt, conseguiram 200 vistos especiais. Coube aos escritores Thomas Mann e Jules Romains e ao diretor do Museu de Arte Moderna, Alfred H. Barr Jr., a responsabilidade de fazer uma lista com os nomes dos 200 indivíduos mais representativos da “Intelligentzia” européia. Só não havia um voluntário disposto a ir para a França.

Apesar de seu despreparo, Fry se ofereceu para ir, se não encontrassem, a tempo, alguém mais qualificado. A favor de Fry estavam sua fluência em vários idiomas e o fato de conhecer profundamente a situação política na Europa. Em 1935, tinha ido à Alemanha como correspondente estrangeiro do jornal americano The Living Age. Em Berlim, Fry testemunhara pessoalmente a violência nazista e seu ódio contra os judeus. Ele sabia que as ameaças feitas por Hitler tinham que ser levadas muito a sério.

Fry não tinha a aparecia de um herói; mais parecia um “yuppie” de nossos dias. Vestido de forma impecável, com um cravo vermelho na lapela, seus amigos o descreviam como “um jovem exuberante e agradável, culto e bonito”. Mas ele possuía algo inestimável – não tolerava injustiças – e estava sempre pronto a combatê-las. Seus pais costumavam dizer que, ainda estudante, Fry abandonara a escola altamente conceituada que freqüentava por considerar humilhantes algumas de suas tradições.

No dia 3 de agosto de 1940, aos 32 anos, Fry desembarcou em Marselha. Tinha US$ 3 mil amarrados em uma das pernas e no bolso a lista de 200 nomes. Suas instruções eram claras: permanecer na cidade por três semanas, encontrar e contatar os nomes da lista, distribuir o dinheiro e conselhos e voltar para os Estados Unidos. Mas, 24 horas após sua chegada, Fry já se havia conscientizado da complexidade de sua missão. Três semanas eram um espaço de tempo ridiculamente curto e a lista feita em Nova York era insignificante quando comparada com a realidade. Centenas de milhares – e não apenas 200 refugiados – precisavam de ajuda e as dificuldades eram imensas. Em 1945, escreveu: “Os refugiados começaram a vir ao meu quarto no dia seguinte. Muitos estavam com os nervos em frangalhos e sua coragem já havia desaparecido”.

Oficialmente, a única forma de sair da França era através da Espanha ou de Portugal. Mas para tanto era necessário um passaporte válido e uma série de vistos: o de saída francês, um salvo-conduto para a fronteira; um de trânsito espanhol e outro português e, finalmente, um visto que permitisse a entrada da pessoa em um país que a aceitasse. A maioria dos refugiados não tinha passaporte, além de ser muito difícil encontrar um país que permitisse a entrada de refugiados, em particular, de judeus.
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