A SAGA DE UM GRUPO DE JUDEUS EM RECIFE


Foto Ilustrativa

Com a rendição dos exércitos holandeses, em 27 de janeiro de 1654, uma população de cerca de 400 judeus residentes no Recife teve “o prazo de três meses para liquidar seus negócios e abandonar o país”.


Edição 35 - Dezembro de 2001
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Os súditos holandeses, porém, que quisessem permanecer com os seus negócios e propriedades, no Brasil, teriam o mesmo tratamento dos estrangeiros residentes em Portugal.

Como o prazo dado era por demais diminuto, a população judia, particularmente os cristãos-novos convertidos ao judaísmo, passou a temer os castigos do Tribunal da Inquisição. O governador português, Francisco Barreto de Menezes, em sua proclamação de 7 de abril, somente admitia a prorrogação da permanência daqueles judeus que nunca haviam sido batizados, “os judeus que anteriormente haviam sido cristãos, estavam sujeitos à Santa Inquisição, um assunto em que não podia interferir”. No dia seguinte à proclamação, “um grupo de judeus solicitou, com êxito, às autoridades holandesas, uma provisão de alimentos suficiente para viajar à França no navio português São Francisco, tendo em conta que se tratava aproximadamente de 150 pessoas”.

Tomados de medo e de pavor, cerca de 400 judeus ganharam novamente o oceano em busca dos Países Baixos e, porque lá não encontraram meios de subsistência, outra vez retornaram ao Novo Mundo estabelecendo novas comunidades no Caribe - Martinica, Barbados, Curaçau, Jamaica, onde se dedicaram à indústria do açúcar, fundando novos engenhos e cultivando as mudas de cana que haviam importado de Pernambuco, bem como a cultura do fumo, estabelecendo-se outros na América do Norte, que, na época, iniciava a colonização da Nova Amsterdã (Nova York).

Conta o chaham de Amsterdã, Saul Levi Mortera, pouco antes do seu falecimento em 1660, no manuscrito a Providencia de Dios con Israel, a curiosa saga de um grupo de judeus saídos do Recife.2 Passageiros do navio Valk tiveram o seu barco tomado por espanhóis que os ameaçavam de entregá-los à Inquisição. Na Jamaica, porém, foram os judeus libertados pelos franceses e, com eles, rumaram em direção à Nova Amsterdã, a bordo do barco Sainte Catherine. Desse grupo, 23 judeus, entre homens, mulheres e crianças, já se encontravam na Nova Amsterdã em setembro de 1654, fundando assim a primeira comunidade judaica daquela que veio a ser a cidade de Nova Iorque.

Em 1954, por ocasião do terceiro centenário da chegada dos primeiros judeus a Nova Iorque, o local do desembarque foi assinalado com marco em pedra colocado pelas autoridades estaduais, com os dizeres (em tradução):

“Erguido pelo Estado de Nova York em homenagem à memória dos vinte e três homens, mulheres e crianças que aqui desembarcaram em setembro de 1654 e fundaram a primeira comunidade judaica da América do Norte”.

Estudando o tema, o historiador Arnold Wiznitzer nos dá informes preciosos em seu livro:

“A maioria de quase cento e cinqüenta4 famílias judaicas que partiram do Brasil-Holandês se destinava à Holanda. Dali, algumas delas eventualmente voltaram ao Novo Mundo para fundar novas comunidades judaicas na região do Caribe. Algumas foram de Amsterdã para a Inglaterra, outras para a América do Norte. Algumas tiveram de enfrentar grandes dificuldades em suas viagens. Os ocupantes de pelo menos dois navios caíram nas mãos do inimigo, logo depois que deixaram o Brasil. Um manuscrito não publicado, escrito pelo principal chaham (rabino) de Amsterdã, Saul Levi Morteira (m. 1660), relata que um dentre os dezessete navios portugueses cedidos por Barreto [Francisco Barreto de Menezes] foi capturado pelos espanhóis, que queriam entregar os pobres judeus à Inquisição. Entretanto, antes que pudessem realizar suas más intenções, o Senhor fez com que aparecesse em cena um navio francês que libertou os judeus dos espanhóis e os conduziu a salvo para a Flórida ou para as novas Terras Baixas, de onde partiram em paz para a Holanda”.
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