Sua pesquisa, no entanto, centralizou-se na presença judaica no Afeganistão durante a Idade Média e baseou-se em comentários bíblicos, em responsas escritas durante o período gaônico e nas ruínas de um cemitério judaico descoberto na cidade de Gur, em 1946. Lá foram encontradas sepulturas datadas a partir de 1198. Durante sua pesquisas, o historiador encontrou várias citações referentes aos judeus de Khorasan nos comentários bíblicos de Saadia Gaon e Moses Ibn Ezra e dos caraítas Al Qumsi e Japheth Ibn Ali. Khorosan seria a região mencionada na Bíblia como Terra do Norte e os comentários dos autores mencionados identificam a área para a qual os judeus exilados foram como sendo Khorosan, que corresponderia ao que é hoje parte do Irã e do Afeganistão, explica o historiador.
Segundo ele, as responsas gaônicas, que abordam situações e fatos relativos às comunidades judaicas afegãs, indicam, que estas se relacionam com as escolas talmúdicas da Babilônia, então consideradas o centro espiritual da diáspora. As principais comunidades do início da Idade Média estavam nas cidades de Merv, Balkh, Ghazni, Herat, Cabul e Nishapur, além de algumas menores nos vilarejos de Khush-Khak e Ferozkoh-Jam.
A primeira comunidade de Merv teria sido criada pelo profeta Ezra, que teria construído uma sinagoga que sobreviveu até 1092. Segundo uma fonte muçulmana, a comunidade era relativamente grande e seu líder era um rabino chamado Akiva. O rabino era o responsável pelo recolhimento de impostos, entregando-os ao representante das autoridades. Ele se teria ordenado em uma instituição talmúdica na Babilônia.
No Livro de Isaías, o rabino Saadia Gaon faz um comentário sobre a comunidade de Balkh, que estaria dividida em dois grupos distintos os judeus e aqueles a que se referia como pessoas que eram chamadas de judeus. Segundo documentos encontrados em uma guenizá, os judeus de Balkh tinham relações econômicas com o reino judaico de Khasar. Saadia Gaon escreveu um texto contra um judeu herege de Balkh chamado Hiwi.
A cidade de Cabul também tinha uma grande comunidade judaica. Segundo Al Idris, os judeus de Cabul viviam separados dos muçulmanos, em uma espécie de gueto. O autor, entretanto, não esclarece se o isolamento era uma opção judaica ou uma imposição muçulmana. A cidade de Ghazni também aparece em vários comentários bíblicos e nos textos de Benjamim de Tudela, que teria afirmado que havia mais de oito mil judeus na área, muitos dos quais seriam assessores econômicos dos seus governantes. As origens da comunidade de Nishapur são atribuídas aos exilados durante o período assírio e, segundo uma das fontes, esta era liderada pelo rabino Joseph Amarkala. As fontes pesquisadas indicam que parte da comunidade se teria convertido ao islamismo e parte partido para Jerusalém, no início do século X, afirma Matalon.
Pedras que falam
A descoberta do cemitério judaico na cidade de Gur, em 1946, trouxe informações mais detalhadas sobre os judeus do Afeganistão. Na verdade, as inscrições encontradas nas lápides permitiram aos estudiosos supor que as demais comunidades possuíam estruturas e estilos de vida similares, ressalta o historiador. A primeira lápide encontrada tinha uma inscrição em judeu-persa e era datada de 1198. Em 1956, foram encontradas mais três pedras, dos anos 752 e 753. Em 1962, mais de 20 lápides foram descobertas e traziam inscrições em hebraico, aramaico e judeu-persa. Todas datavam do período entre 1012 e 1249. Muitos estudiosos acreditam que, após a invasão dos mongóis, parte dos judeus fugiram para a China, pois é nítida a influência na comunidade judaica chinesa dos judeus oriundos de Khorosan que falavam o idioma persa.
Matalon informa que as lápides traziam não apenas nomes e datas, mas também títulos comunitários e funções. Algumas traziam o título de Alut que, segundo a hierarquia das escolas talmúdicas da Babilônia, foi concedido a cinco membros da comunidade que atuavam como juízes. Outras lápides tinham o título de Chacham ao lado do nome da pessoa e parece que era reservado àqueles que tinham a função de rabinos e professores; o título de Melamed também está presente em algumas lápides, além de outros como Yashish e Zaken, além de identificar se o indivíduo era Cohen ou Levi.
Os títulos de líder da comunidade Rosh Kahal e o de líder da congregação Rosh Kanesa foram encontrados em duas pedras próximas no cemitério de Gur. O termo Kanesa em judeu-persa significa sinagoga. Palavras como Tagar, mercador, e Pakid, funcionário do governo, também foram encontradas. As informações obtidas a partir das lápides, segundo Matalon, revelam que a comunidade de Gur possuía uma estrutura completa, com cortes rabínicas, escolas para crianças e jovens, além de uma sinagoga.
Matalon finaliza seu artigo afirmando que as pesquisas feitas por inúmeros estudiosos revelam que, provavelmente, as origens das comunidades judaicas afegãs são persas e que, de modo geral, estas mantinham vínculos religiosos e comerciais com os nú-cleos judaicos da Babilônia. Seus membros falavam judeu-persa, hebraico e um pouco de aramaico. |