MARCADORES TEMPORAIS


Foto Ilustrativa

Apesar do relato histórico da vida do povo judeu apresentar um sentido tão cósmico, sua continuidade cultural-religiosa de três a quatro mil anos talvez seja a mais extensa que qualquer grupo étnico-religioso tenha alcançado.


Edição 35 - Dezembro de 2001
Menu Completo
Morashá.com HOME
Revista Morashá
Clique acima e consulte as edições anteriores.
Para o judeu devoto e consciente de sua história, o passado parece tão real quanto o presente, porque ele os concebe como intrinsecamente ligados um ao outro, dotados que são do mesmo propósito moral.

No sentido espiritual, o tempo se conservou intemporal! Depois de as doutrinas sobre o Messias, Ressurreição, Juízo Final, terem firmado raízes no solo parcialmente místico da crença judaica durante o período pós-bíblico, também o futuro se ligou ao passado e ao presente, sintetizados que ficaram numa certeza histórica indivisível. Agora, para o povo de Israel, a vida tinha assumido um objetivo grandioso bem delineado, como a planta de um projeto arquitetônico.

Poder-se-ia, em conseqüência, concluir apressadamente que, ao aprender “verdades absolutas”, a religião judaica estivesse condenada a um esta- do de permanente imobilidade e estagnação. Mas na verdade, enquanto o povo se agarrava tenazmente às principais doutrinas, princípios, atitudes e práticas tradicionais, sua evolução histórica era contínua, ajustando-se aos novos conjuntos de circunstâncias e às influências culturais do ambiente em geral e do espírito da época; em fase alguma da história judaica sua religião permaneceu estática.

Costuma-se estudar e analisar o judaísmo e o povo judeu sob vários pontos de vista: histórico, sociocultural, antropológico, étnico-filosófico, literário etc. Nosso propósito, neste estudo, é destacar o papel dos marcadores temporais como elementos característicos na formação e na permanência da tradição judaica, desde os primórdios da história universal até a história contemporânea, bem como sua ligação com a natureza e sua perspectiva ecológica.

Marcadores temporais universais: o calendário

Ano lunar x ano solar

Desde épocas bíblicas, os meses e os anos do calendário judaico foram determinados pelos ciclos da lua e do sol. Pela lei tradicional os meses seguem o ciclo lunar, desde o Molad (nascimento, conjunção) até o novilúnio seguinte.

A tradição judaica reconhece numerosas afinidades entre a lua e Israel. Assim como o Sol representa a potência material reconhecida aos olhos de todos – é o apanágio das nações – a lua, brilho tênue no reino da noite, representa Israel, humilhada entre as nações na noite do exílio. A influência discreta da lua simboliza o lento caminhar das idéias do judaísmo. Mais um exemplo: o desaparecimento e depois a reaparição da lua representam a eternidade de Israel, apesar das vicissitudes.

Voltando ao calendário, os meses lunares têm que corresponder com as estações do ano, que são determinadas pelo ciclo solar, devido às festividades judaicas. Pessach, por exemplo, tem que cair sempre no mês de Nissan e coincidir com o princípio da primavera e Sucot, a festa da colheita, celebrada em Tishrei, tem que coincidir com o outono (em ambos os casos, no hemisfério norte).

Pode-se então definir o calendário judaico como luni-solar, em contraste com o calendário civil ou gregoriano, que é puramente solar e no qual os meses perderam toda a correspondência com o ciclo lunar. Da mesma forma, o calendário judaico é muito diferente do maometano, o qual é puramente lunar, e no qual cada mês “migra” pelas quatro estações até completar o ciclo lunar de 33 anos.

Em contraste com os dois sistemas citados, o gregoriano e o maometano, o calendário judaico tem que atender dois requisitos – ser solar e lunar. Esta é a razão de sua relativamente complexa estrutura. Como o ano solar de 365 dias é aproximadamente 11 dias maior que 12 meses lunares, o calendário judaico tem que resolver o problema de balancear o ano solar com o lunar.
Virar Página >>

1 2 3