A água fervente do rei Salomão corresponde hoje à praga que mais nos atinge: a assimilação, que nos dá tanta dor de cabeça.
As estatísticas apresentam dados alarmantes: o número de judeus está diminuindo e a população judaica está envelhecendo. Algumas comunidades totalmente seculares apresentam uma taxa de 72% de assimilação. Outras, mais felizes, possuem um mínimo de 53%. A continuar desta forma, em quinze anos a população judaica diminuirá drasticamente. Todos esses números nos deixam perplexos e preocupados, com uma enorme enxaqueca.
Este fenômeno é a água fervente que fere as nossas famílias. Este fogo estranho consome os melhores jovens dos nossos efetivos. O salmista as chama de águas traiçoeiras que atingem a nossa alma (Salmos 124:5). Quem não sente mais dor por este fenômeno está realmente se excluindo da comunidade, já que não sente mais o fervor do líquido que queima.
Todavia, como mencionado anteriormente, todos nós, sem exceção, sentimos uma profunda dor quando tais fatos ocorrem ou chegam aos nossos ouvidos. Sem dúvida nenhuma, as divergências entre os vários segmentos do povo de Israel são apenas superficiais. As diferenças não estão enraizadas profundamente, já que todos sentimos a mesma dor pelas adversidades que recaem sobre nós. Afinal, cada judeu possui dentro de si a chama eterna, a faísca Divina. Todo e qualquer judeu, sem exceção, desde o mais justo ao mais perverso, do mais erudito ao mais ignorante, fala em sua prece matinal Ó, meu Dus, a alma que me deste é pura. Esta faísca Divina é o denominador comum que assegura sermos um só povo. Temos que nos concentrar naquilo que nos une, naquilo que temos em comum, e não enfatizar constantemente as diferenças que nos separam.
E a dor de cabeça? Como combatê-la? Água fervente tem que ser esfriada com água fria e pura. O Tanach, bem como os sábios do Talmud, compara a Torá com a água pura e límpida, líquido vital para a sobrevivência do homem. Assim, também, a Torá e seus ensinamentos são imprescindíveis para a sobrevivência do povo judeu. O antídoto para as águas ferventes e assimiladoras é espalhar o máximo possível os ensinamentos da Torá a fonte das águas saudáveis. Principalmente na nossa época, quando a procura é grande e existe uma ânsia manifesta da alma judaica pela sua Fonte Dus. Como diz o salmista: Minha alma tem sede de Ti, minha carne anseia por Ti (63:2).
Do mesmo modo que a escuridão não se dissipa com uma vassoura, mas com a luz, também as águas quentes devem ser substituídas pela água límpida e pura da Torá e das Mitsvot. Citando o profeta Isaías: Todos que têm sede procurem água (Isaías 55:1).
Apesar das divergências aparentes, o veredito salomônico é bem claro: somos apenas um povo, ligados somente a um Dus. A saga do povo judeu demonstra que ele não é regido pelas leis da natureza nem é sujeito às estatísticas pelo fato de ele ter a habilidade inerente de apagar as águas ferventes estando ligado à fonte milenar, que é o judaísmo.
Neste mês de Kislêv, propício para a saúde e cura, vamos tratar de diminuir a nossa dor de cabeça e demonstrar que somos um povo com apenas uma cabeça.
O tefilin que colocamos na cabeça é feito de quatro pergaminhos colocados em quatro compartimentos separados. O tefilin da mão, por sua vez, tem apenas um pergaminho com um compartimento. Analogamente, existem diferenças filosóficas e ideológicas entre nós, porém, na ação - e principalmente nas boas ações - somos um povo unido e amalgamado.
E já que o mês é propício para sonhos, que essa união possa apressar o sonho da Redenção, conforme diz o Salmista: Quando o Senhor retornar os cativos de Sion nós seremos como sonhadores (126:1). |