Ao mesmo tempo, Moreno se envolvia com o Teatro da Espontaneidade. Numa noite de 1911 passava a peça Assim Falou Zaratustra. Moreno e seus amigos, sentados na primeira fila, intervieram para despertar os atores e o público. Queriam chamar a atenção sobre os conflitos entre personagem e espectador e personagem e ator. O ator devia representar a si mesmo e não o personagem. Moreno dissertou, aos berros, sua teoria sobre um novo teatro, que representasse os problemas próprios do ator e do público, que fosse de total imaginação e criatividade, como o trabalho que ele estava realizando com as crianças nos parques de Viena.
Foi um escândalo, cuja conseqüência por sorte foi apenas uma noite passada na prisão. Mas serviu para abrir o caminho para a primeira sessão oficial de psicodrama, que se realizou num famoso teatro, em 1921. Na apresentação, Moreno tentava expurgar a platéia de uma doença que era o sentimento geral de descontentamento e revolta que pairava na Viena do pós-guerra. O público eram elenco e autor; a peça, sobre a situação.
O Teatro da Espontaneidade tornava-se uma forma de arte viável e um local de encontro para artistas e intelectuais conhecidos. Até pessoas de fora faziam questão de freqüentá-lo quando estavam em Viena. O material dramático era sugerido pela platéia ou surgia da cabeça dos atores.
Este teatro evoluiu para o teatro terapêutico. Notou-se que os atores, após representar seus papéis, lidavam melhor com seus problemas pessoais. E era mais fácil defender a espontaneidade num teatro terapêutico no qual as imperfeições e incongruências de um paciente mental são até esperadas e bem recebidas.
Nesses anos após a Primeira Guerra Mundial, Moreno clini-cava como chefe do departamento de saúde numa pequena aldeia nos arredores de Viena, Voslau, onde se tornara o Doutor do Povo. Continuava não aceitando dinheiro dos pacientes que vinham consultá-lo. Sua paixão pelo anonimato o circundou de uma aura de prestígio e fama, e seu apelido tornou-se Wunderdoktor (o médico prodígio).
Mas em Viena as sementes do nazismo e do anti-semitismo começavam a germinar . Enfrentando como judeu a inveja e o desejo de vingança, além da crescente mediocridade da sociedade germânica da época, Moreno teve uma intuição: deixar a Europa e buscar refúgio nos Estados Unidos. Talvez a motivação da emigração não fosse unicamente a preocupação com a salvação e a segurança pessoais, mas também a urgência de encontrar um lugar adequado para a realização de seu trabalho.
A vida na América
Em outubro de 1925, Jacob Levy Moreno chegou a Nova York. Fora convidado para os Estados Unidos graças a uma sua invenção, o Radio Film, um disco de aço em que podiam ser gravados sons. O modelo da invenção foi patenteado e desenvolvido por uma companhia que lhe pagaria royalties.
Mas Moreno queria mesmo seguir sua vocação. Após uma demonstração da aplicação das técnicas de psicodrama para crianças com problemas, começou a trabalhar na clínica do Hospital Monte Sinai, em Nova York. Lá foram desenvolvidos e aperfeiçoados vários testes sociométricos e de espontaneidade. Depois o psicodrama foi levado às crianças do Plymouth Institute, no Brooklyn, uma instituição ligada à Igreja. Em 1927 recebeu a licença para o exercício da medicina nos Estados Unidos.
Tendo chamado atenção sobre o seu trabalho com as prostitutas de Viena, antes da Primeira Guerra Mundial, e com a comunidade dos refugiados italianos do Tirol, durante a guerra, foi nomeado diretor da Pesquisa Social do estado de Nova York, trabalhando em duas áreas, na prisão de Sing Sing e na N. Y. State Training School for Girls, em Hudson. O objetivo era tornar a prisão uma sociedade terapêutica e ajudar as jovens da Hudson School a prepararem-se para uma vida decente e digna.
A base do seu trabalho continuava sendo o Teatro da Espontaneidade e instituiu um Impromptu Theatre, no Carnegie Hall, em 1927.
Em 1936 fundou o Beacon Hill Sanato-rium, seu próprio hospital para doentes mentais, e uma escola, em Beacon. Era um casarão branco comprado por US$ 2 mil, emprestados pelas filhas de uma paciente. O dinheiro da reforma do sanatório e da construção do teatro de psicodrama veio de outra paciente ilustre, Gertrude Tone, internada devido ao alcoolismo. O teatro de Beacon foi dedicado a ela. Nesses anos Moreno recebeu um importante apoio moral e financeiro de seu irmão William, que emigrara para a América pouco antes dele e era um empresário bem sucedido. Com sua ajuda foi montado, em 1942, um teatro de psicodrama, em Nova York, e uma editora, a Beacon House, para publicar os trabalhos de Moreno de forma independente e sem interferências. A revista Sociometry e a edição americana de The Words of the Father (Ética dos Pais) foram as primeiras publicações, seguidas depois por muitas outras. |