Origem do psicodrama e dos grupos de encontro
O jovem Moreno se sentia uma espécie de escolhido. Sua barba ruiva lhe dava um aspecto paternal e sábio, apesar da pouca idade. Seus olhos azuis pareciam ler a mente de seus interlocutores. Toda sua pessoa transmitia ternura, bondade e altruísmo. Sua conduta o havia tornado conhecido e era procurado por pessoas com problemas. Fiel ao papel que criara para si, usava sempre um longo manto verde, no inverno e no verão. Pregava a santidade do ser, a autoperfeição, a ajuda e a boa ação cumprida no anonimato.
Aos dezenove anos, em 1908, estava matriculado na Faculdade de Medicina de Viena. Neste período, seu passatempo predileto era caminhar pelos parques da cidade reunindo crianças e formando grupos de brincadeiras de improvisação. Costumava contar-lhes contos de fadas. Nunca repetia a mesma história, para manter a sensação de encantamento. Ao trabalhar com as crianças, Moreno queria lhes proporcionar meios de lutar contra os estereótipos da sociedade, mantendo a espontaneidade e criatividade.
Cultivava a idéia de um universo primordial, onde se situavam os modelos de um mundo melhor. Queria mostrar como um homem com sinais de paranóia, megalomania, exibicionismo e outras formas de desajuste individual e social não era um doente mental, mas podia ser alguém controlado e saudável. E podia ser mais produtivo se representasse seus sintomas , como um ator numa peça, em vez de reprimi-los ou resolvê-los. Nisso ele antecipava o papel de protagonista do psicodrama de sua própria vida.
Entre 1908 e 1914, Moreno e cinco seguidores que compartilhavam seus ideais, viviam na comunidade . Não aceitavam remuneração por seus serviços e tudo que recebiam como gratificação ia para a Casa do Encontro, um local criado para abrigar refugiados que, nos anos tumultuados precedentes à Primeira Guerra Mundial, transitavam por Viena em busca de um novo lar nas Américas ou em Eretz Israel.
A Casa de Encontro era um local onde as pessoas eram ajudadas e assistidas pelo tempo necessário. Todas as noites havia sessões de grupos de encontro em que eram discutidos os problemas e desfeitos os ressentimentos. Após compartilhar os sentimentos, as pessoas cantavam e dançavam e os encontros eram uma experiência muito alegre.
Esses reuniões foram os modelos dos grupos de encontro que se espalharam mais tarde pelo mundo. Em seguida Moreno estendeu este método de terapia a um dos grupos mais problemáticos da sociedade: o das prostitutas. Assim elas puderam ajudar-se mutuamente. Conseguiram advogados para defendê-las e médicos para as tratar.
Posição filosófico-religiosa
As principais correntes ideológicas do século XX rejeitavam a religião e repudiavam a idéia de uma comunidade baseada no amor, altruísmo, bondade e santidade. Ao contrário, Moreno se colocou do lado de uma religião positiva. Sua ideologia se baseava em três princípios. O primeiro dizia que a espontaneidade e a criatividade são as verdadeiras forças propulsoras do progresso humano; mais importantes, em sua opinião, que a libido e as causas sócio-econômicas. O segundo dizia que o amor e o compartilhar mútuo são a base da vida em grupo. Enfim, o terceiro dizia que podia-se construir uma comunidade dinâmica baseada nesses princípios.
Após a Primeira Guerra Mundial, publicou A filosofia do aqui e agora e As palavras do pai, em que expõe sua posição filosófico-religiosa. A esta ele sempre se manteve fiel. Mas sua linha de pensamento foi relegada para segundo plano pelos círculos intelectuais. No entanto, sua filosofia era a base teórica das técnicas de sociometria, psicodrama e terapia de grupo, que foram universalmente aceitas fora do contexto ideológico que as inspirou. Já para Moreno, sua doutrina constituía a parte mais revolu-cionária de seu trabalho.
Em 1912, durante o curso de medicina, Moreno assistiu a uma conferência de Sigmund Freud. Num breve diálogo que conta terem mantido, ele afirmou: O senhor analisa os sonhos de seus pacientes. Eu lhes dou coragem para sonhar de novo. O senhor os analisa e os despedaça. Eu os faço representar seus papéis conflitantes e os ajudo a reunir seus pedaços, de novo.
Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) Moreno cuidou, como oficial médico, de um campo de refugiados nos arredores de Viena, cuja população era originária do Tirol do Sul e falava italiano. No campo desenvolveu-se uma vida comunitária completa. Através dessa experiência surgiu a idéia do planejamento sociométrico das comunidades e a busca de parâmetros de objetividade científica nas Ciências Sociais.
Em 1917 Moreno recebeu seu diploma de Doutor em Medicina pela Universidade de Viena. Seu diploma foi um dos últimos assinados pelo imperador Francisco José.
Teatro da espontaneidade
Na década de 1920, Viena era uma cidade muito estimulante para os intelectuais e artistas. Os cafés eram o local de encontro favorito. Moreno freqüentava com seu grupo o Café Museum, onde conheceu personalidades como Martin Buber, Arthur Schnitzler, Robert Musil e outros. Em 1918 iniciou a publicação de um jornal mensal de filosofia existencialista, o Daimon. Nele colaboraram vários intelectuais de seu círculo. |