OS DOIS JUDEUS QUE PERMANECERAM NO AFEGANISTÃO


Foto Ilustrativa

Quando as bombas começaram a cair, restavam naquele longínquo país da Ásia Central apenas dois judeus, moradores na capital, Cabul, e últimos representantes de uma coletividade que chegou a contabilizar 40 mil pessoas no final do século 19.


Edição 35 - Dezembro de 2001
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Um mês depois de iniciada a ação militar, Itzhak Levy e Zevulum Simantov permaneciam em solo afegão, apesar dos rumores de que eles poderiam ter abandonado o epicentro da primeira guerra do novo milênio.

No começo de novembro, a imprensa israelense afirmava que os últimos judeus no Afeganistão haviam decidido, ao menos naquele momento, permanecer no país. Enfrentavam os riscos da guerra, o fundamentalismo islâmico do Taleban e o agravamento da crise econômica no país, a fim de manterem seus negócios e, principalmente, cuidarem da sinagoga de Cabul, golpeada pelos anos da instabilidade política no país e pela falta de recursos para sua manutenção. E como num conto do folclore judaico, os dois únicos representantes da comunidade mantêm uma relação litigiosa, de rivalidade, cada qual reivindicando a condição de responsável pela sinagoga e pela guarda da Torá que, há cerca de dois anos, foi confiscada pelas autoridades do Taleban.

Levy e Simantov não se falam. Vivem em pontos opostos do prédio da sinagoga de Cabul. “Às vezes, ele tenta falar comigo, mas eu não gosto dele, e por isso lhe viro o rosto”, declarou Simantov a respeito de Levy, no diálogo que manteve com o jornalista Steven Gutkin, que visitou o Afeganistão antes da ofensiva antiterrorismo. A instalação de um universo de guerra no país não gerou, pelo menos no início, relatos sobre uma eventual alteração na rivalidade. O clima de enfrentamento bélico, no entanto, não é exatamente uma novidade para os afegãos: só na história recente, atravessaram dez anos de conflitos contra os invasores soviéticos, entre 1979 e 1989; e, depois viveram a guerra civil que culminou com a chegada ao poder do funda-mentalismo islâmico do Taleban.

O jornal israelense Haaretz entrevistou um empresário de Israel que mantém contato com Simantov. Segundo David Ghol, o seu amigo tinha liberdade para entrar e sair do Afeganistão quando quisesse, até os atentados terroristas de 11 de setembro. “Mas se ele (Simantov) quisesse sair do país depois desse dia, ele poderia”, afirmou Ghol, no começo de novembro. “Ele apenas não vê motivos para sair, o seu negócio está lá, ele não é vítima de perseguição religiosa e não está com medo”.

Se há relatos sobre uma suposta liberdade reli-giosa de Simantov, o mesmo não pode ser dito com certeza sobre Levy, que tem cerca de 70 anos de idade. Sua família emigrou para Israel, há 17 anos, depois de a mulher dizer que queria ir para a Índia, a fim de ter um filho num país com melhores condições hospitalares. Levy e o filho mais velho, Aaron, ficaram como “garantia” de que os familiares voltariam da viagem a solo indiano. A notícia de que os parentes de Itzhak Levy desembarcaram em Israel irritou as autoridades afegãs, que mantiveram a vigilância sobre o patriarca que havia ficado. O filho Aaron, apesar das pressões, conseguiu fugir e se juntar à comunidade, estimada em até 20 mil judeus afegãos, que vive em Israel.

A família Levy, em Israel, afirmou que o pai desejava fazer aliá. Mas, segundo o filho Yaakov, ele não pôde fugir com Aaron pelas montanhas devido a sua idade avançada e permaneceu em Cabul contra a sua vontade. Yaakov também alfinetou a Agência Judaica, sugerindo que a organização não se esforçou de maneira adequada para trazer Itzhak.
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