Assim foi, senhor, lhe responderam.
Mas vejo quatro homens soltos, passeando entre as chamas sem serem queimados. E o quarto parece filho dos deuses. Então o rei aproximou-se e chamou: Hananias, Misael e Azarias, servos do Dus Altíssimo, saiam! Os rapazes saíram e tanto o rei como todos os seus auxiliares verificaram que nem um só fio de cabelo lhes tinha sido queimado e nem sequer tinham na roupa o cheiro do fogo. Maravilhado, Nabucodonosor bendisse o Dus de Israel e promoveu os três a altas posições na Babilônia.
De novo o rei teve outro sonho estranho. Era uma belíssima árvore, tão alta que chegava ao céu. Fora derrubada, mas suas raízes ficaram fortemente presas na terra. Consultado, Daniel relutou, mas por fim, encorajado pelo rei que prometeu aceitar fosse qual fosse a interpretação, ele falou: A árvore bela era o próprio monarca e seu grandioso reino. Mas, cortada, significava que Nabucodonosor seria destronado e passaria sete anos no campo comendo e vivendo como os animais. E, para que o sonho não se realizasse, Daniel aconselhou-o a corrigir os seus pecados, ser magnânimo e misericordioso com os pobres e reconhecesse que o Altíssimo domina sobre o reino dos homens. Porém, Nabucodonosor não lhe deu ouvidos. Continuou egoísta e vaidoso, achando que seu poder era indestrutível. E a previsão do sonho se realizou. Só quando reconheceu o superior poder divino voltou à vida normal e, como as fortes raízes da árvore, foi seu reino reedificado.
Chegaram ao fim os dias de Nabucodonosor e seu filho Belshazzar ocupou o trono. Seu reinado foi curto. Durante um banquete, em que eram usados os copos de ouro trazidos do Templo de Jerusalém, be-biam o vinho e louvavam os deuses de metal. De repente, dedos de mão invisível escreveram na parede palavras estranhas. Só Daniel soube interpretá-las. Estava findo o reinado de Belshazzar. Nessa mesma noite ele morreu.
E Dario sucedeu Belshazzar. Este rei admirava e respeitava Daniel. Nomeou para a sua corte três príncipes; Daniel era um deles e logo se destacou pela inteligência e sabedoria, provocando despeito e inveja nos outros dois. Procuraram estão derrubá-lo. Havia uma lei pela qual quem fizesse um pedido a outro homem ou ao seu Dus, e não ao rei, seria atirado na cova dos leões. Os dois príncipes dirigiram-se a Dario e denunciaram Daniel que, desobedecendo a lei, orava ao seu Dus três vezes ao dia. Dario repeliu a denúncia e procurou defender Daniel. Porém, os acusadores lhe fizeram lembrar que a lei dos medas e dos persas não podia ser revogada. Constrangido embora, o rei teve que se submeter ao mandado da lei. Mas no seu coração procurava um meio de salvar Daniel e lhe falou: O teu Dus, a quem continuamente serves, Ele te dará meios para te salvar. Daniel foi metido numa cova cuja entrada era fechada por uma enorme pedra. Havia na cova dois leões, uma leoa e um leãozinho. Ao verem Daniel, as três feras abriram a bocarra, a língua lambia os beiços e bramiam Urra! Urra! (temos carne fresca). Daniel levantou os braços e os saudou serenamente, Shalom! E os fitava, seus olhos fitos nos olhos de cada um. E com um poder superior que nunca antes havia sentido, os magnetizou. Então os leões adultos deitaram-se com a cabeça mergulhada entre as patas e dormiram pesadamente. Só o leãozinho ficou desperto, choramingando, e Daniel carregou-o, aconchegou-o no colo e assim passou toda a noite, acalentando o animalzinho. Entretanto, no palácio, o rei não dormiu. Passeava acima e abaixo, torturado pelo remorso e pena do rapaz. Nem bem o sol surgiu, Dario correu para a cova dos leões. Chegando à entrada, chamava com voz chorosa: Daniel! Daniel! Servo do Dus vivo. Dar-se-ia o caso que teu Dus te pudesse salvar? Surpreso e feliz, ouviu a voz de Daniel: O meu Dus enviou o seu anjo e fechou a boca dos leões.
Então removeram a pedra e Daniel saiu da cova carregando nos braços o leãozinho que tinha passado a noite aconchegado no seu colo.
Sultana Levy Rosenblatt
McLean, junho de 2001 |