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“Nós sabíamos como a polícia costumava agir e eu logo percebi o risco. Então pedi ao meu filho do meio, José, para que fosse para a casa de sua avó e eu fiquei com o caçula em casa. Sabia que não havia feito nada e, portanto, nada haveria a temer. Mas a polícia veio e nos prendeu – a mim e ao meu filho menor. Em seguida, também prenderam José”, relembrou Sela em seu depoimento em Israel.

Disse, ainda, que quando foi preso, teve seus olhos vendados e foi mantido em cativeiro durante horas, tendo apanhado e sido torturado inclusive com choques elétricos. Seu filho caçula foi mantido em uma sala ao lado, até serem libertados. Ao chegar em casa, recebeu um telefonema de José, da prisão, dizendo que, se Gabriel não se entregasse, ele morreria. Desde então, Sela não teve mais notícias de José. Meses mais tarde, após ter sido novamente detido, Sela resolveu partir para Israel com seu filho menor. Gabriel vive atualmente na Espanha.

Antes de dar início aos depoimentos públicos em março, a comissão interministerial passou meses recolhendo testemunhos por escrito. Segundo as informações coletadas, houve casos confirmados de pelo menos 20 mulheres judias que foram detidas e deram à luz na prisão. Essas crianças teriam sido posteriormente adotadas por famílias argentinas. “Estas crianças têm o direito de conhecer a sua verdadeira história”, disse Pinhas Avivi, diretor geral do Departamento da América Latina e do Caribe do Ministério das Relações Exteriores, quando a comissão foi criada, no ano passado.

O tema dos judeus desaparecidos durante a “Guerra Suja” é um dos pontos sensíveis entre a diplomacia argentina e israelense. Segundo Michael Melchior, ministro de Assuntos da Diáspora de Israel, o presidente Fernando de La Rúa, em um encontro ocorrido em janeiro do ano 2000, comprometera-se a ajudar na recuperação dos restos dos judeus desaparecidos, para que estes pudessem ser enterrados por seus familiares de acordo com os rituais do judaísmo. Depois que Melchior tornou pública esta informação, o governo argentino divulgou um comunicado dizendo que as afirmações do ministro israelense não refletiam de maneira correta o que fora dito por de la Rúa.

Segundo o historiador Efraim Zadoff, que estuda a participação dos judeus entre os desaparecidos argentinos, as autoridades do país temem que pessoas que ainda ocupam posições de destaque na vida da Argentina – nas esferas governamentais e militares – possam estar envolvidas nas perseguições aos judeus durante a ditadura militar.

O ex-presidente Carlos Menem, predecessor de de la Rúa, concedeu perdão aos líderes da junta militar que governou o país de 1976 a 1983, em 1990, cinco anos após estes terem sido condenados à prisão perpétua por violação dos direitos humanos. Assim, trazer à tona o tema dos “desaparecidos” ainda é uma questão delicada na Argentina.

A iniciativa israelense não pretende iniciar processos legais contra os envolvidos na “Guerra Suja”, pois a justiça israelense não prevê julgamentos sem a presença dos acusados. “Temos apenas o objetivo de localizar os restos mortais dos desaparecidos e, quando possível, descrever a sua trajetória. Como foi dito, acreditamos que todos têm o direito e merecem conhecer a verdade”, ressaltou o diretor geral do Ministério.
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