TUDO PELOS MEUS FILHOS


Foto Ilustrativa

Primeiro vieram os tiros, depois os gritos estridentes e, finalmente, o silêncio da morte. Mais tarde, entre cochichos na barraca das mulheres, descobriu-se que se tratava de uma tentativa de fuga de alguns prisioneiros do campo.


Edição 33 - Junho de 2001
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Revista Morashá
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Tempos depois, Esther ficou sabendo que Yidel, seu querido irmão e único sobrevivente na família, estava naquele tiroteio. Seu mundo desabara; agora só restava ela. Dois anos antes, quando o pesadelo de Hitler começou na Polônia, seus amados pais haviam sido mortos a sangue-frio pelos nazistas. Yidel, quatro anos mais velho que ela, passou a ser seu pai e sua mãe, um porto seguro durante a difícil vida no campo de concentração. Agora ele se fora. Ela tinha vinte anos e estava completamente sozinha. “Ele morreu como um herói”, tentava se consolar. “É melhor morrer com um tiro nas costas do que na câmara de gás”.

Ao descobrir que iria ser transferida para o campo de morte de Sobibor pensou que seu destino seria a câmara de gás. Até então, Esther tivera bastante sorte. Durante os últimos dois anos, vinha sendo transferida de um campo para o outro, mas todos eram “campos de trabalho”, onde os presos trabalhavam como escravos para os nazistas, existindo, assim, a possibilidade de sobreviver. Mas Sobibor, assim como Treblinka e Belzec, era um campo de extermínio.

Ao ser transportada para Sobibor, Esther sabia que seu fim estava próximo. Estranhamente, porém, ao entrar pelo portão principal de Sobibor, sentiu esperança no coração, e não desespero. “Você vai fugir deste lugar”, uma voz interior lhe dizia. Aquela certeza permaneceu dentro de si, mesmo após ter visto a cerca eletrificada, os guardas armados nas torres e os ferozes cães de guarda com seus caninos afiados.

Sobibor não era somente uma “fábrica de morte”, era também o lugar onde moravam os nazistas que “trabalhavam” nos campos. Assim sendo, eles requisitavam pessoas qualificadas para satisfazer suas necessidades e para manter o campo. Às vezes, chamavam marceneiros e dentistas. Outras vezes, quando estavam entediados, músicos, cantores e dançarinas.

Um dia, os nazistas procuraram quem soubesse tricotar. Das oitocentas pessoas que chegaram a Sobibor naquele dia, Esther foi uma das sete escolhidas. “Acabarão nos substituindo”, uma das mulheres sussurrou. “Ninguém sai vivo daqui. Temos que fugir!”

Assim que Esther chegou ao campo, juntou-se a outras mulheres que planejavam fugir daquele inferno. A fuga de Sobibor ficou historicamente famosa por ter sido a maior fuga de prisioneiros de um campo de extermínio durante toda a Segunda Guerra Mundial.

Na véspera da fuga, Esther despediu-se daqueles que haviam optado por ficar. Muitos estavam extremamente doentes, outros com medo. “Não vamos conseguir”, pensava Esther enquanto se despedia. “Mas melhor um tiro nas costas do que morrer nas câmaras de gás”.

Naquela noite, apesar da apreensão, ela adormeceu, e no sonho viu sua mãe, falecida há mais de dois anos, que entrava pelo portão principal de Sobibor. “Mama”, gritou chocada. “O que você está fazendo aqui? Você não sabe que vamos fugir amanhã?” – “Eu sei”, respondeu sua mãe. “É por isso que vim. Estherle, eu vim para dizer que você vai conseguir! E eu vou lhe indicar o lugar para onde deve ir quando fugir”. Sua mãe a pegou pela mão, fê-la passar pelo portão, levando-a até um celeiro. Fazendo-a entrar, disse com firmeza: “Você virá para este lugar e aqui, sobreviverá”. Dito isto, a mãe desapareceu.

Esther acordou assustada e, tremendo, sacudiu a mulher com quem dividia a barraca. Contou-lhe o sonho. Mas esta não se impressionou. “Isto não quer dizer nada; esqueça”. Mas Esther não se importou com as palavras desencorajadoras de sua companheira e prometeu a si mesma: “Se, por milagre, eu sobreviver, não descansarei até achar o lugar que minha mãe me mostrou!”

No sonho, Esther havia reconhecido o celeiro. Conhecia o lugar muito bem. Na infância, naquele mesmo lugar, tinha rolado na palha e brincado de “pique-esconde” com seu irmão. O celeiro ficava na propriedade de um fazendeiro cristão, amigo de seu falecido pai, um homem bondoso que vivia a dezoito quilômetros de sua cidade natal, Chelm.
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