De um tradicional aliado árabe, Moscou se afasta lentamente. A Síria acumula dívidas bilionárias com o Kremlin, que era seu patrocinador nos tempos da Guerra Fria, e hoje, a Rússia inclui em seus cálculos diplomáticos a necessidade de encontrar parceiros com quem possa fazer negócios e levantar preciosos dólares.
O namoro do Kremlin dos czares com o Irã dos aiatolás é emblemático nesse xadrez da geopolítica atual. Moscou busca recursos e, apesar dos problemas com o separatismo muçulmano tchetcheno, se transforma em parceiro de Teerã na área militar, numa aproximação com direito a venda de tecnologia nuclear russa aos iranianos. Tudo em nome da produção de energia e com fins pacíficos, argumenta Vladimir Putin. Mas os EUA e Israel temem que o regime islâmico possa usar know-how obtido no exterior para impulsionar um perigoso programa de armas atômicas.
Em março, o presidente Mohammad Khatami se transformou no primeiro líder iraniano a visitar a Rússia desde a vitória da revolução islâmica comandada pelo aiatolá Khomeini, em 1979. A visita serviu para Moscou abrir novos mercados e mostrar mais uma vez aos EUA que o Kremlin trilha agora, influenciado pelo na-cionalismo de Putin, uma diplomacia mais independente e menos ligada a Washington.
No entanto, a Rússia sabe que seu afastamento de países ocidentais é limitado, entre motivos políticos e culturais, também pela necessidade em atrair investimentos estrangeiros para sua debilitada economia. Esse comprometimento russo com o Ocidente faz alguns analistas definirem a aproximação entre Moscou e Teerã como uma moeda com duas faces. A negativa é a venda de armas russas a um regime totalitário, embora o Kremlin afirme tratar-se apenas de armamento defensivo.
A positiva: praticamente nenhum país consegue atravessar o isolamento diplomático e exercer influência sobre o Irã. O governo russo, hoje, estaria nessa condição. E é bom que Moscou, hoje alinhada com valores ocidentais, possa ter capacidade de influir em Teerã, até mesmo tentando impedir a nuclearização militar iraniana, afirma o professor Sela. E não há dúvidas de que um regime iraniano com armas atômicas se transformaria numa ameaça também para a Rússia. Afinal, os dois países são históricos rivais por áreas de influência no Oriente Médio, no Cáucaso e na Ásia Central, num complicado jogo de xadrez diplomático que se estende até os dias de hoje. |