Havia muito de céu nos olhos de Rosa. E também um apelo de amor.
Era o momento de contar a verdade.
Rosa, nós vamos morrer.
A dor brotou dos olhos da menina, apagando o céu e o apelo de amor. O silêncio desceu entre os dois.
Schmilek tomou-lhe a mão. Caminharam até onde havia uma fenda no muro.
Olha.
Rosa viu um soldado alemão. Ansiosa, buscou alguma coisa que o fizesse diferente. Só podia ver que o soldado era de carne e osso como eles.
Ele não gosta de rosas? perguntou, sem conseguir entender.
Schmilek aconchegou-a junto a si, procurando algo que a consolasse.
Ele gosta de rosas, murmurou.
Por que, então?
Disseram-lhe que éramos maus. Que o odiávamos. Agora acha que somos maus e nos odeia.
Vamos falar com o soldado, Schmilek. Vamos mostrar a rosa. Dizer que é mentira. Que somos bons, que amamos a todos. Ele nos amará também. Todos seremos felizes.
Schmilek sacudiu os ombros em desânimo. Falou quase sem inflexão na voz:
Inútil. Não acreditaria.
Rosa calou-se. Voltou para a roseira. Começou a acariciar a flor recém-desabrochada, como se a estivesse gerando em suas próprias entranhas. De repente, irrompeu em alegria:
Vai nascer outro botão! Vai nascer outro botão, Schmilek! Preciso cuidar dele, também!
Schmilek não resistiu mais. Os soluços o sacudiam. Não pôde evitar que as palavras lhe saíssem aos gritos:
Mesmo sabendo que vamos morrer, insistes nesta idéia maluca de cuidar de rosas!?
Rosa não se alterou. Pelo contrário, estava calma. E eternamente calma, colheu a flor e beijou suas pétalas.
Só porque alguém não acredita em nosso amor, devemos esquecer as rosas?
Em 19 de abril, o general nazista Stroop atacou o Gueto com blindados, artilharia, lança-chamas e dinamite.
Os judeus tinham somente alguns fuzis e duas metralhadoras. Assim mesmo, refugiados na rede de esgotos, lutaram até 16 de maio, quando foram vencidos pelo fogo que os nazistas atearam no Gueto.
Toda a resistência cessou ao ser dinamitada a grande sinagoga da rua Tlomacki.
Não podiam esperar mais.
Vamos convidou Schmilek, apontando o caminho dos esgotos.
Ela vacilava.
E a minha rosa?
Traze-a contigo. Estaremos juntos, os três.
Não, a rosa precisa viver.
E sem que Schmilek entendesse o gesto, jogou a flor por cima do muro. Depois foi a escuridão dos esgotos.
Hans Frank, gauleiter da Polônia, olhou feliz para a flor que estava em cima de sua mesa de trabalho. Um soldado a tinha encontrado, lhe dissera o general Stroop. Era tudo que restava do Gueto.
Frank afagou o rosto com a flor, para sentir a maciez das pétalas. De alma leve, flutuando em bem-aventurança, começou o relatório:
O Gueto de Varsóvia deixou de existir....
... para que as rosas não passem e os tiranos não fiquem...
Jayme Copstein |