O debate está aberto
O lançamento do livro de Gross na Polônia desencadeou um debate sobre um tema bastante sensível. Para os poloneses, admitir a responsabilidade da população do vilarejo seria reconhecer a existência de sentimentos anti-judaicos na Polônia. Este é um tema não muito fácil de debater ainda hoje, mais de 50 anos após o final da Segunda Guerra Mundial, considerando-se que o país, durante o domínio nazista, foi palco das maiores perseguições aos judeus. A obra Vizinho: aniquilação da comunidade judaica de Jedwabne está levando o país a se confrontar com o seu passado, um passado doloroso, mas que se torna cada vez mais impossível de negar. Cerca de 3 milhões de judeus poloneses morreram durante o Holocausto e número similar de não judeus foi morto pelos nazistas.
Nós temos a obrigação de honrar a memória das vítimas e estabelecer a verdade. Devemos confrontar os fatos obscuros de nossa história, afirmou o primeiro-ministro polonês, Jerzy Buzek. Ao tomar conhecimento dos fatos, seu governo determinou que o monumento de Jedwabne fosse demolido. Um outro, reconhecendo a verdade sobre a participação da população do povoado, está sendo construído e deverá ser inaugurado provavelmente no próximo dia 10 de julho. As autoridades determinaram também o início de uma investigação sobre os fatos.
Segundo Buzek, não há dúvida sobre a participação da população local no massacre, mas o crime não foi cometido em nome da nação ou do estado polonês. Nós rejeitamos o uso do caso de Jedwabne para divulgar uma falsa imagem sobre a co-responsabilidade polonesa em relação ao Holocausto. Não aceitamos também que todos os atuais habitantes do povoado sejam condenados por um crime ocorrido há 60 anos. A maioria dos moradores de Jedwabne estabeleceu-se na cidade após a Segunda Guerra Mundial. Eles publicaram uma carta aberta condenando todas as atrocidades praticadas durante a guerra, mas ressaltando que a população atual não deve ser responsabilizada.
O prefeito de Jedwabne, Stanislaw Maichalowski, de 48 anos, disse que ouviu falar pela primeira vez sobre os acontecimentos de 1941, no povoado, quanto tinha 8 anos, mas nunca pensou sobre o caso até ler a obra de Gross. Desde então, vem afirmando que é preciso entender o que se passou, apesar de ser um processo doloroso. Esta não é, no entanto, a opinião geral vigente no vilarejo. Muitos moradores têm medo de falar sobre o assunto, recusando-se a falar com jornalistas. Maichalowski foi muito criticado por abordar o tema, até pelo bispo local, tendo recebido telefonemas anônimos. O silêncio tem sido a regra geral, mesmo entre aqueles que, no passado, ajudaram os judeus e foram condecorados. Ninguém quer identificar-se, por medo de represálias.
O livro tem sido alvo de debates e conferências em todo o país e o caso de Jedwabne foi tema de um documentário de televisão. No ano passado, o Instituto Nacional de Memória da Polônia começou uma investigação sobre o caso.
Quando perguntado sobre as razões que o levaram a lançar o livro primeiro na Polônia, Gross responde: Quis dar tempo aos poloneses para que refletissem sobre esta página negra e não é a única da história do país. Livre do regime comunista e de sua historiografia oficial, com uma Igreja mais crítica e menos poderosa do que no passado, a Polônia está aprendendo a se olhar nos olhos.
Em tempo
O presidente do Instituto Nacional Polonês de Memória, Leon Kieres, em visita a Yad Vashem (Israel) anunciou que a investigação relacionada com o massacre de judeus em Jedwabne deve ser concluída até o meio deste ano. Declarou também que os julgamentos deverão se iniciar tão logo os promotores descubram que os criminosos acusados ainda estão vivos, disse. Mesmo que apenas um criminoso esteja vivo, ele será levado a julgamento. De acordo com o presidente do instituto polonês, há vinte pessoas, entre judeus e não judeus, dispostas a depor no caso.
Ele explicou que o número de testemunhas que anunciaram que poderiam depor aumentou desde a publicação das investigações, na imprensa mundial.Os promotores responsáveis pelo caso ainda vão decidir se o julgamento será feito individualmente ou em grupo.
Bibliografia:
O pogrom esquecido, artigo publicado na edição de 12/04/2001 da revista LExpress
Ghost of a Massacre. Revista Time (edição européia). |