O POGROM ESQUECIDO


Foto Ilustrativa

Julho de 1941, em um único dia, 1.600 judeus foram massacrados pela população da cidade polonesa de Jedwabne. Durante décadas, a autoria da tragédia fora atribuída às tropas nazistas que haviam invadido o país, mas a verdade surgiu após o lançamento de um livro, no ano passado.


Edição 33 - Junho de 2001
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Polônia, dia 10 de julho de 1941. Poucas semanas após a invasão do norte do país pelas tropas alemãs, os judeus da pequena cidade de Jedwabne foram massacrados. No entanto, ao contrário do que se acreditava até quase dois anos atrás, não foram exterminados pelos nazistas. Seus carrascos e executores foram seus vizinhos poloneses. Ao final do dia, o saldo era de 1600 mortes – ou seja, quase toda a população do vilarejo, com exceção de sete pessoas que conseguiram escapar da turba ensandecida.

Segundo uma das testemunhas, o calor estava sufocante naquele dia fatídico. A primeira vítima do massacre foi Joseph Lewin, de 16 anos, que morreu linchado. Em seguida, mais dois judeus foram jogados no rio; outros foram mortos a golpes de bastão ou punhal; outros torturados, tendo a língua cortada e os olhos furados. Bebês foram arrancados dos braços de suas mães e pisoteados até a morte enquanto elas também eram assassinadas. O rabino da cidade, de 90 anos, todo ensangüentado, foi obrigado a marchar pelas ruas do povoado, com outros judeus, carregando uma bandeira vermelha e cantando o refrão “Nós, judeus, somos responsáveis pela guerra”.

No final da tarde, aqueles que haviam sobrevivido, ainda que feridos, foram trancados em uma granja a poucos quilômetros do cemitério judaico. Em seguida, o local foi incendiado enquanto parte dos habitantes vigiava o portão para que ninguém escapasse. Para abafar os gritos aterradores das vítimas, os músicos do vilarejo foram chamados para tocar marchas alegres enquanto os judeus morriam. Durante vários dias, o cheiro de carne queimada impregnou o ar da região.

Apesar destes fatos terem sido narrados detalha-damente, em 1945, por Shmuel Wasserstein, um dos sobreviventes da tragédia, seu depoimento foi esquecido nos arquivos do Instituto Histórico Judaico de Varsóvia. Em 1949 e, posteriormente, em 1953, as autoridades comunistas condenaram cerca de 20 pessoas. Os réus foram libertados logo em seguida, pois o tribunal considerou que o massacre fora responsabilidade dos nazistas, apesar dos testemunhos de judeus e não judeus que afirmaram que os autores da chacina haviam sido os poloneses. Os alemães, segundo os depoimentos, limitaram-se a assistir e filmar o pogrom. Para ressaltar a culpa nazista, foi erguido um monumento em Jedwabne, perpetuando essa mentira.

Maiores detalhes sobre este que está sendo chamado de “O pogrom esquecido” estão na obra de Jan Tomasz Gross, Vizinhos: aniquilação da comunidade judaica de Jedwabne, lançada no ano passado na Polônia e nos Estados Unidos e, este ano, no resto da Europa. Historiador e sociólogo de origem polonesa, além de especialista em Segunda Guerra Mundial, o autor vive nos EUA desde 1968 e leciona na Universidade de Nova York.

A pergunta inevitável que surge, ao se ler a obra de Gross, é como a verdade pôde permanecer oculta por tantas décadas? Segundo o autor, ele próprio tinha dificuldade de acreditar que os fatos tivessem acontecido como haviam sido contados por Wasserstein, em seu depoimento em 1945. Gross teria despertado para o assunto há três anos, ao assistir um documentário da TV polonesa sobre a Segunda Guerra Mundial. Neste, uma mulher afirmava que as chaves da granja de seu pai, em Jedwabne, haviam sido roubadas e ela não imaginava o que lá teria acontecido. Este detalhe chamou a atenção de Gross, que decidiu visitar o local e pesquisar os fatos para descobrir a verdade. E assim fez.

A obra de Gross é a primeira sobre o fato ocorrido em Jedwabne, no dia 10 de julho de 1941; não é, no entanto, a primeira sobre o possível anti-semitismo do povoado. Em dezembro de 1966, um pesquisador do Instituto Histórico Judaico publicou um estudo sobre as inúmeras teorias acerca da atitude anti-judaica na região, no período de 1941 a 1942. Na obra, ele faz alusão à colaboração entre a população local e os alemães. Em 1980, um livro publicado nos Estados Unidos reunindo as lembranças dos judeus do povoado, menciona a tragédia daquele dia fatídico.
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