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Enquanto tento encontrar uma resposta, leio, estupefata, que muitos judeus, sim, quiseram retornar à Europa para reconstruir sua vida justamente lá, palco de tanto sofrimento, de tanto horror. E a despeito da dor passada e da incerteza futura os judeus se esforçam para continuar em solo europeu, da Antuérpia à Paris, Berlim, Varsóvia, Praga ou Budapeste, recriando o seu passado lá onde consideram ser a terra de seus antepassados, seu torrão natal.

Nessas cidades e em centenas de outras menores, do Mar Báltico ao Mar Negro, as comunidades judaicas renascem, formando uma espécie de minian continental. Sinagogas e escolas se reerguem, às vezes no mesmo local de antigas instituições judaicas. Os judeus voltam a ter orgulho em portar este nome, revivendo tradições e culturas há muito soterradas sob as cinzas dos fornos crematórios – que matavam o corpo judeu – ou o peso da opressão comunista – que matava a alma judia. Esta ressurreição judaica não é novidade em nossa história. Na Pérsia, sobrevivemos à violência do regime de Ahashverosh; na Península Ibérica medieval, aos horrores da Inquisição. E agora, eisnos ressurgindo na Europa.

Este renovado interesse no judaísmo é parte de uma busca pela espiritualidade que brotou no leste europeu, no vácuo criado pela queda de uma ideologia desacreditada, isto pelo lado político. E pelo lado da religião, explicase a tendência para um judaísmo mais ortodoxo, especialmente na França e na Holanda, como uma conseqüência do Holocausto, que mostrou que não adiantava ser judeu assimilado. Um judeu jamais deixa de ser judeu, tanto para a nossa tradição quanto para nossos inimigos.

Há sinais otimistas desse ressurgimento que podem ser vistos na reabertura de um Seminário Rabínico, de mais de 125 anos, ou de uma Escola Pedagógica Judaica, em Budapeste, onde recebe treinamento uma nova geração de futuros líderes religiosos. Ou de escolas onde se ensinam o hebraico e a história judaica, como parte do currículo escolar nacional. Paris voltou a ser importante centro judaico, enquanto floresce, nos passos da riqueza passada, a vida judaica na Antuérpia. Em Berlim, em Moscou, em Minsk e em várias outras cidades os movimentos juvenis, através de shlichim da Agência Judaica, e os rabinos do movimento Lubavitch, com seu zelo quase missionário, vão atrás, descobrindo e recuperando de volta ao seio de nosso povo e de nossa religião judeus que pela primeira vez na vida tentam aprender algo sobre sua herança. Em Praga, o roteiro judaico tornou-se a grande moda e todos querem estudar e explorar os aspectos da cultura e da religião. As sinagogas já têm serviços diários, abrem-se restaurantes casher e, na Polônia, revive o tão famoso teatro iídiche. Os filhos começam a atrair os pais para este renascimento, fazendo concretizar-se a profecia do livro de Malaquias, quando diz que ‘... D’s converterá o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus pais...’. Vê-se mais claramente esta situação nos países da antiga União Soviética e na Europa Central, onde o comunismo conseguiu impedir que toda uma geração, a dos hoje pais e avós, tivesse qualquer contato com sua origem judaica.

Ao lado deste despertar judaico, há o ceticismo dos sobreviventes, que apesar deste movimento à sua volta não vêem grande futuro para os judeus, a não ser em Israel. Ainda há medo e desconfiança. O crescente anti-semitismo e nacionalismo que os rodeia traz de volta as duras lembranças de seu passado; sabem que a vida judaica jamais alcançará a glória de outrora. O mundo do shtetl está perdido para sempre.

Leio estas notícias e vejo que ainda assim estes judeus não saíram de lá; que apesar de pensarem dessa forma consideram-se holandeses ou alemães ou húngaros; apesar de portarem no antebraço a marca azulada indelével da inconcebível barbárie nazista, única prova racional de tanta irracionalidade. Quem sobreviveu quer que o passado seja contado e lembrado, mas não por sua boca. Para eles, basta fechar os olhos e todo o horror desfila diante de seus olhos. Não querem que o passado se repita. Sabem que algo tem que ser feito na Europa.

E a liderança judaica européia também o sabe e mostra sinais de preocupação. Os líderes dos 18 países europeus onde há comunidades que tentam reorganizar-se se têm reunido com os judeus norte-americanos e suas instituições centrais. Vêem diante de si o grande desafio de reorganizar suas comunidades, para assim responder à motivação dos jovens em continuar a ser judeus. O presidente da minúscula comunidade judaica da Finlândia e o presidente do Conselho Central de Judeus da Alemanha sabem que as instituições judaicas têm que mudar, renovar-se, fortalecer-se para vencer a barreira da assimilação e dar uma base sólida a este renascimento, talvez um pouco desconcertado e que atira em todas as direções. Sabem-no, também, o presidente do Conselho Europeu das Comunidades Judaicas e o Rabino que dirige o Centro Educacional Lauder, em Varsóvia; e o Grão Rabino da França e o Rabino que dirige o Seminário Rabínico de Budapeste. Sabem todos os líderes judeus da Europa que há necessidade de vínculos mais fortes com Israel e com os judeus norte-americanos, para que o judaísmo europeu possa chegar a ter algum significado na vida judaica mundial. Pois querem se tornar nosso terceiro pilar, ao lado de Israel e dos judeus da América do Norte.

Vejo, sim, que esses judeus despertaram para a sua herança adormecida há mais de meio século. Voltaram e quiseram ficar, a despeito das novas ondas anti-semitas e neonazistas, a despeito dos fantasmas do passado e das incertezas do futuro. Voltaram porque não quiseram ver acabar-se a história do judaísmo europeu, a história de cada uma de suas comunidades. Os judeus europeus ficaram para construir uma nova sociedade na terra de onde provinham seus ancestrais – franceses, poloneses, húngaros, finlandeses ou alemães. Quiseram conviver com a memória da pujante vida judaica que outrora floresceu nessas e em outras comunidades. Por isso, no mesmo lugar onde os nazistas criaram e levaram a cabo Auschwitz, jovens judeus alemães tentam resgatar a sua rica herança.

Vejo e começo a entender que, mesmo traumatizados e dizimados, os judeus europeus não quiseram dar a Hitler a glória póstuma de ter alcançado o seu objetivo de varrer todo o nosso povo para fora da Europa. E começo a entender que por causa desses poucos que voltaram, o judaísmo vislumbra um futuro na Europa. Finalmente, derrotamos Hitler.

Lilia Wachsmann

Bibliografia:
Kurlansky, Mark.
A Chosen Few – The Resurrection of European Jewry , N.Y., 1994
Hoffman, Charles: Grey Dawn – The Jews of Eastern Europe in the Post-Communist Era, N.Y.,1992
Lacqueur, Walter. Europe in Our Time: A history, 1945-1992, N.Y., 1992
Material do Congresso Judaico Mundial e da mídia, em geral.
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