Por sugestão de uma de suas tradutoras, Singer se dedicou, com igual talento, a escrever histórias infantis. Entre elas, se destacam A cabra Zlateh e O sonho de Menaseh. Menaseh é um órfão e sua maior aspiração é poder se reunir a seus pais de quem se perdera. Um dia descobre um palácio mágico onde encontra sua família. Na primeira sala encontrou todas as roupas que algum dia tinha usado em sua vida. Na segunda sala descobriu todos os brinquedos que tivera. Na terceira sala, todas as bolhas de sabão que já soprara. Na quarta sala, todas as vozes que já ouvira. A quinta sala era reservada a todas as historinhas que já lhe tinham contado. Na sexta sala eram preservados todos os seus sonhos. Na sétima sala Menaseh encontrou seu futuro.
A história é uma fantasia tocante sobre a capacidade do ser humano de reter seu passado especialmente por meio dos sonhos, das palavras e das histórias: tudo continua vivo e nada se perde no tempo.
No início dos anos setenta, Isaac Bashevis Singer não se identificava mais com Ytzhok Bashevis, o escritor iídiche áspero que precisava se destacar do irmão. Nem precisava mais distanciar-se de seu pai, que aparece como uma figura admirável e exemplar. Os dois estavam mortos há tempos. Singer podia cultivar uma imagem nostálgica, repleta de calor humano e de sentimento tão cara a seu público. Se afirmava como o cronista da vida dos imigrantes e a testemunha de um mundo em via de desaparecimento.
O Prêmio Nobel
Em 5 de outubro de 1978, Singer foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura. A Academia Sueca citou no anúncio: ... sua melancolia redentora, seu senso de humor, sua clareza de visão livre de ilusão (descreve) o mundo e a vida do judaísmo leste-europeu tal eram vividos em cidades e aldeias, na pobreza e na perseguição, impregnados de uma piedade sincera e ritos que combinam fé cega e superstição sua língua era iídiche língua de gente simples.
O prêmio comemorava o trabalho de uma alma nostálgica e humilde que representava fielmente o belo mas trágico mundo de uma sociedade profundamente moral e pia, cruelmente extinta pelo holocausto nazista.
Singer recebeu o prêmio com modéstia: Ontem eu era um escritor iídiche, hoje sou agraciado com o Nobel, amanhã serei um escritor iídiche. Sou grato (pelo prêmio), mas ao mesmo tempo sinto pelos escritores maiores do que eu que não o receberam. No mundo de língua iídiche, o prêmio foi recebido com alegria: o iídiche alcançava dignidade aos olhos de um público de não-judeus. Eu não sou o único vencedor do prêmio. Compartilho-o com todos meus leitores e com todos os amantes da língua iídiche.
Na outorga do prêmio, assim soava o discurso de Singer perante a Academia Sueca: ... reconhecimento da língua iídiche língua de exílio, sem terra, sem fronteiras, não sustentada por nenhum governo. (...) O gueto não era apenas um local de refúgio para uma minoria perseguida, mas uma grande experiência de paz, auto-disciplina e humanismo. Eu fui criado no meio dessa gente e não tenho vergonha de admitir que pertenço àqueles que acreditam que a literatura é capaz de abrir novos horizontes e novas perspectivas filosóficas, religiosas, estéticas e até sociais. Na história da literatura judaica antiga não havia diferença entre o poeta e o profeta... Freqüentemente cultivo a idéia que quando todas as teorias sociais entram em colapso e quando guerras e revoluções afundam a humanidade nas trevas, pode surgir o poeta para nos salvar. (...) De meu irmão e mestre Israel Yehoshua Singer eu ouvi, quando criança, todos os argumentos que os racionalistas colocaram contra a religião. De meu pai e minha mãe ouvi todas as respostas que a fé em Dus pode oferecer aos que duvidam e buscam a verdade. Em nossa casa, as questões eternas eram mais atuais que as últimas notícias no jornal. Apesar do meu desencantamento e do meu ceticismo, acredito que as nações do mundo tenham muito para aprender desses judeus. Disse também que com o dinheiro do prêmio compraria uma nova máquina de escrever com caracteres iídiches, porque a dele, de 40 anos atrás, se recusava a funcionar quando não gostava do que ele escrevia. Singer insistia que continuaria a escrever também depois do Prêmio Nobel: Que outra coisa teria para fazer um homem da minha idade? Nos treze anos que transcorreram entre o prêmio e sua morte, em 1991, apareceram dois romances em inglês, um deles O Penitente.
Ele já estava com setenta e quatro anos ao receber o Nobel. Seu público crescia especialmente porque sua obra começava a ser produzida por outros meios de comunicação, teatro, cinema e televisão, com a participação ativa do autor. Singer desaprovou a versão cinematográfica de Yentl, feita por Barbara Streisand. A adaptação de Inimigos, uma história de amor, por Paul Mazursky, foi um grande sucesso cinematográfico de crítica e público.
Alma, que nos primeiros vinte e cinco anos de casamento foi a provedora da família com seu emprego na loja de departamentos Lord and Taylor, foi uma mulher exemplar quando chegou a hora de cuidar do marido doente. Em seus últimos anos de vida, Singer foi vítima do Mal de Alzheimer. Perdeu a memória e até a capacidade de reconhecer membros da família.
Isaac Bashevis Singer faleceu em 1991, aos 87 anos de idade. Seu filho, israelense, Yisrael Zamir queria que ele fosse enterrado em Israel, para que seu túmulo fosse homenageado por iidichistas, intelectuais e turistas, mas Alma recusou e o enterrou em Nova Jersey. Alma Singer faleceu em 1996.
Bibliografia:
Janet Hadda, Isaac Bashevis Singer a life: Oxford University Press. New York, 1997. |