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Histórico pessoal

Nas obras de Isaac Bashevis Singer se destaca uma combinação única de sofisticação, ingenuidade, solidão, desamparo, tenacidade e charme, que invadem seu trabalho. Essas qualidades são o resultado do lar singular dos Singer. Originam-se na rua Krochmalna e nas cidadezinhas de Radzimin e Bilgoray, onde o menino Isaac testemunhou os conflitos entre tradição e modernidade, masculino e feminino, depressão e entusiasmo, entre razão e misticismo.

Diferentemente de seus irmãos, ele começou a contar sua história somente depois que todos, inclusive os irmãos, haviam morrido. Por isso, seus retratos são menos mordazes e mais elegíacos.

Isaac crescia como uma criança solitária e introvertida que gostava de observar o mundo mantendo uma distância de segurança. “Meus pensamentos, que não eram iguais aos dos outros meninos, tornavam-me orgulhoso e solitário”. Em meio à dura realidade, a ficção começa a insinuar-se como único meio de salvação e consolo.

Aos treze anos, seguiu a mãe e o irmão menor para Bilgoray, onde vivia a numerosa família materna. Apesar da solidão e da estagnação do lugar, onde seu único prazer era a leitura a que se dedicava com voracidade, Bilgoray lhe forneceu ricas impressões emocionais e físicas, e uma paisagem interior que não o abandonaria nem após meio século de vida nos Estados Unidos.

No início da década de 20, já com dezoito anos e incapaz de agüentar mais um dia em Bilgoray, Isaac se mudava para Varsóvia para ficar com o irmão mais velho, Israel Yehoshua.

“De todos os problemas de que eu sofria na juventude, a timidez era talvez o mais grave e o mais engraçado. Eu me sentia envergonhado e não sabia realmente de que. Era minha roupa? Era meu cabelo ruivo? Ou era o fato de não conseguir ganhar um tostão, de não ter uma profissão, uma educação formal, de não saber falar polonês como se deve?”

Em Varsóvia, o irmão introduziu Isaac no Clube dos Escritores em Iídiche, que logo se tornaria sua casa e sua escola: “Um centro de idéias, aspirações, teorias, fantasias, sonhos”, em que todas as correntes e ideologias coexistiam. No clube, Isaac, a quem faltou uma educação secular formal, devorava os textos, desde Tolstoi a Spinoza, Thomas Mann, Cabalá, Platão. Lá também fizera amizades que o acompanhariam pelo resto da vida. Nesses anos, investia em sua formação como escritor. Sua maneira de escrever era de contador de histórias. Suas histórias tinham tanta força, que às vezes ele mesmo as confundia com a realidade. Sua compulsão para escrever derivava de sua infelicidade: “Eu não podia ser o tipo de judeu que meus pais religiosos queriam que eu me tornasse; também não podia e não queria tornar-me um não-judeu...”

Ele começou a publicar sob o nome de Yitshok Bashevis, com que seria conhecido por seu público de leitores em iídiche. O uso do matronímico indica sua escolha pela identificação com o racionalismo materno.

No clube, Isaac teve suas primeiras experiências amorosas e conheceu Ronye, com que teve seu único filho, Yisrael. Bashevis era incapaz de assumir o papel de marido e pai – continuava atormentado e infeliz. Sua preocupação emocional resultou na produção de sua primeira obra realmente importante: “Satã em Goray”, publicada em 1935. Ambientada no século XVII na Polônia, época de violentos pogroms e do surgimento do falso messias Shabetai Zvi, é a história de Rekhele, uma infeliz moça histérica e epiléptica, como sua irmã Hinde. Se acreditava que fosse possuída por um demônio. A experiência afetiva da moça consiste em ser abandonada e rejeitada. A história é um trabalho elaborado sobre a insanidade e desequilíbrio emocional.

América

Em 1935, a vida profissional de Bashevis parecia estar decolando, enquanto a vida pessoal ficava mais complicada. Era para seu filho, Yisrael, um pai muito mais ausente do que fora o seu próprio. Como em ocasiões anteriores, a salvação veio novamente do irmão mais velho, Israel Yehoshua, que na época vivia em Nova York, depois que sua obra “Moshe Kalb” fora adaptado com sucesso para o teatro. Este mandou chamar Isaac, arranjou-lhe o visto e um emprego na revista “Yidish Forverts”. Bashevis deixava para trás a mãe e o irmão menor, que nunca mais ia rever, e o filho, de quem ficaria separado durante vinte anos.

Sua chegada a Nova York, em maio de 1935, precipitou-o em uma crise de declínio e desespero que ameaçava incapacitá-lo. Ficou com um bloqueio e não conseguia mais escrever. Numa carta a um amigo, dizia: “... em Nova York vejo mais claramente que na Polônia que não há literatura iídiche e que não há para quem trabalhar...” e “... a literatura iídiche é a mais desnecessária... Nós temos absoluta liberdade; não temos leitores...”

Bashevis continuaria afundando na solidão e na depressão: “Eu passava o dia inteiro na cama”. Apresentava fastidiosos sintomas psicossomáticos.
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