Enquanto a Bíblia se incorporou ao patrimônio da cultura universal e se tornou um clássico da humanidade, o Talmud ficou como o clássico do povo judeu. Israel, o povo do Livro, abraçou o Talmud, como o Livro do povo.
Na história cultural judaica a busca da verdade e da compreensão, em termos de valores religiosos, raramente foi interrompida ao longo de três milênios. O foco central dessa preocupação sempre foi O Livro. Em torno dele desenvolvia-se uma atividade contínua de exame e reexame de seus textos sagrados que os judeus veneravam como sendo a verdade divinamente revelada. Uma área contígua de investigação e interpretação crítica, menos importante, mas não desprezível, era a das Leis Orais da Tradição a Mishná depois que esse código foi canonicamente fixado no século II, sob a chancela editorial do patriarca da Judéia, Iehudá Ha-Nassi. Essas investigações do texto resultaram num grande número de comentários escritos que se destinavam a precisar melhor e mais profundamente o significado dos sagrados textos hebraicos. O caráter relativamente não dogmático e aberto do pensamento religioso judaico tornou possível esse trabalho de investigação erudita. Não era raro que esses comentários provocassem discórdia e controvérsia por causa da natureza presumivelmente herética das opiniões que continham, como o Guia dos Perplexos de Maimônides e as Guerras do Senhor de Gersônides, que os detratores passaram a chamar de A Guerra contra o Senhor. Apesar dessas exceções, a investigação da Torá admitia muitas diferenças de opinião.
A necessidade de esclarecer o texto bíblico e de conciliar aparentes inconsistências e contradições por meio de um método de raciocínio que os especialistas chamam de exegese, era a força motriz principal que estimulava os devotos a escrever e a estudar os comentários. Nos primeiros séculos que se seguiram à destruição do templo no ano 70 a.e.C, este aprofundamento, a busca de esclarecimento e o desejo de uma síntese religiosa resultaram na criação da monumental literatura da Guemará e do Midrash. Junto com a Mishná, da qual eram comentários rebuscados, formaram a obra rabínica coletiva conhecida como Talmud.
As primeiras tentativas de uma abordagem científica ao exame textual da Bíblia e do Talmud tiveram lugar nas academias de Sura, Pumbedita e Nehardea, na Babilônia, no assim chamado período gaônico, nos vários séculos que precederam a Idade Média.
Depois, inúmeras escolas de exegese bíblica, seguindo princípios diferentes, surgiram no Egito, em Tunis, Marrocos, na Espanha e na Provença. Até na França e na Alemanha cristãs, onde os judeus estavam menos avançados culturalmente, começou a despertar certo interesse nos setores, até então desprezados, da filologia e da gramática, embora não chegasse a resultados comparáveis aos dos sefaradim.
Ashquenazim x Sefaradim: A história judaica na Europa é uma história regional, dependendo de onde os judeus se estabeleceram. Ao contrário do Oriente, onde o modelo era determinado por decretos das academias babilônicas, cada comunidade tinha seu próprio caráter, seus próprios rituais litúrgicos e costumes e, às vezes, sua própria variante judaica da língua nativa.
A principal divisão do judaísmo europeu era entre os sefardim da Península Ibérica e os ashquenazim da Alemanha e norte da França. O judaísmo ashquenazi desenvolveu-se no ambiente do cristianismo da Europa ocidental, reagindo à queda do império romano.
No começo da Idade Média, enquanto os judeus da Itália, principalmente em Roma, viviam tranqüilos, sofreram os da França e da Espanha, para lá deportados em grande número pelos romanos, atrozes perseguições. Como se recusavam a se converter ao cristianismo, impôs-se-lhes, sob pena de expulsão, a conversão imediata. Alguns submeteram-se à conversão aparente, aceitando o batismo mas conservando em seus corações a fé no D´us de Israel. Outros preferiram emigrar para o sul da França, longe de Paris e da influência de seus bispos, ou para a Alemanha, do outro lado do Reno.
Comunidade Judaica na França Medieval
Carlos Magno e os judeus: Quando Carlos Magno (742-814) estendeu seu império sobre toda a Europa central, reunindo sob seu poder a França, a Alemanha e a Itália, a condição dos judeus nestes países começou a melhorar. Ele deteve a decadência urbana e o colapso do governo central que resultara das invasões bárbaras. Por uma questão de consciência política, ele e a dinastia carolíngia estimularam a imigração judaica. Os mercadores judeus receberam tratamento preferencial devido a suas conexões comerciais no Mediterrâneo e no Oriente. Alguns mercadores judeus, de suas bases na França, empreenderam missões exploradoras através da Europa oriental e das estepes da Rússia até o Oriente Médio, de onde continuaram para a Índia e para a China. Homens de negócios judeus tratavam familiarmente com reis e nobres da Europa ocidental durante os séculos X e XI; restrições canônicas impostas aos judeus por sucessivos Conselhos da Igreja foram desconsideradas por seus patrões reais tal era sua importância econômica. Assim, judeus se estabeleceram em Troyes, Mainz, Worms, Speyer, Colônia e outras cidades em desenvolvimento. |