ESCRITURA E JUDAÍSMO


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Se a Torá é a pedra angular do judaísmo, o Talmud é o pilar central que se alça dos alicerces e sustenta todo o edifício espiritual e intelectual.


Edição 33 - Junho de 2001
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A Torá

Leopold Zunz, historiador da religião judaica do século XIX, deu certa vez, uma caracterização muito feliz da Bíblia. Disse que ela tinha servido de “pátria portátil para os judeus”. Idéia semelhante tinha sido expressa nove séculos antes pelo rabino Saádia, o Gaon (Reitor) da Ieshivá (Academia) de Sura: ”Israel só é um povo graças à Torá”.

Esse fenômeno de uma Escritura que congrega em si a filosofia da crença religiosa, o guia de conduta moral, e que, num passado não muito remoto, abrangia e governava a totalidade da vida judaica, foi observado com admiração por Heinrich Heine, o grande poeta alemão, apesar de livre-pensador convicto: “Os judeus podem consolar-se de haver perdido Jerusalém, o Templo, a Arca da Aliança, os vasos de ouro e os tesouros preciosos de Salomão. Tal perda é insignificante em comparação com a Bíblia – o tesouro imperecível que salvaram. Se não me engano, foi Maomé quem denominou os judeus de “O Povo do Livro” – nome que conservaram até o dia de hoje e que é profundamente característico. Um livro é a sua pátria, seu tesouro, seu governante, sua felicidade e sua maldição. Vivem dentro dos limites pacíficos desse livro. Exercem ali seus poderes inalienáveis. Ali não podem nem ser espezinhados nem desprezados”.

Sem a Bíblia é impossível imaginar que os judeus pudessem ter sobrevivido como povo distinto ou como comunidade religiosa durante tantos séculos e através de tantas vicissitudes. Uma interessante agadá1 relatada no Talmud, ilustra a maneira pela qual o próprio povo concebia sua dedicação à Torá. Quando os israelitas estavam reunidos ao pé do Monte Sinai, a fim de firmar a solene Aliança com D’us, desceu de repente do céu, ficando miraculosamente suspenso sobre suas cabeças, uma aparição do Livro e, ao lado dela, uma da Espada. “Escolham!” ordenou a Bat Kol (a voz celestial). “Podem ter uma coisa ou outra, mas não as duas - o Livro ou a Espada! Se escolherem o livro, devem renunciar à Espada. Se escolherem a Espada, então o Livro perecerá”. O autor rabínico desse episódio concluía então, exultante, que os israelitas tomaram uma decisão memorável na história da humanidade: escolheram o Livro! “Em seguida, o Divino - Abençoado seja!- disse a Israel: (Se respeitarem o que está escrito no Livro, serão preservados da Espada, mas se não o respeitarem, a Espada os destruirá!) O fato é que na história dos judeus, escrita com sangue e sofrimento em tão grande proporção, tem sido precisamente a devoção ao Livro o que os levou tantas vezes à destruição pela Espada, brandida não por eles, mas por seus inimigos; mas o povo judeu sobreviveu a todos seus perseguidores.

A palavra hebraica para Bíblia é Tanach, composta pelas consoantes T-N-Ch, que representam as 3 divisões das Escrituras: Torá (Pentateuco), Neviim (Profetas) e Ketuvim (Escritos). De forma genérica, costuma-se designá-la por Torá, que em hebraico significa “orientação”, correspondendo à sua relação com o povo: uma orientação da vida.

Talmud e Exegese

Se a Torá é a pedra angular do judaísmo, o Talmud é o pilar central que se alça dos alicerces e sustenta todo o edifício espiritual e intelectual. Sob muitos aspectos, o Talmud é o mais importante livro judaico, o principal suporte de criatividade e vida nacional.

A palavra Talmud deriva da raiz hebraica LMD. A raiz verbal LMD se aplica em hebraico tanto a estudo (=lamed) quanto a ensino (= limed).

De forma sintética, o Talmud consiste na compilação das leis, tradições, comentários e interpretações judaicas registrados pelos doutos na Babilônia e em Israel, abrangendo um período de mais de 1000 anos (do séc. V a.e.C. ao V e.C). Num mundo em constante mutação, foi um instrumento de adaptação da religião judaica às circunstâncias sempre cambiantes da vida do povo. Nenhuma outra obra expressa tantos aspectos da essência do povo judeu e de seu caminho espiritual, nem teve influência comparável sobre a teoria e prática da vida judaica, dando forma a seu conteúdo espiritual e servindo de guia de conduta. O povo judeu sempre soube que sua contínua sobrevivência e desenvolvimento dependem do estudo do Talmud, e os que são hostis ao judaísmo também tiveram conhecimento desse fato. O livro foi ultrajado, difamado e lançado às chamas inúmeras vezes na Idade Média e igualmente submetido a indignidades similares no passado recente. Em certas ocasiões o estudo talmúdico foi proibido por ser mais do que claro que uma sociedade judaica que abandonasse esse estudo não tinha real possibilidade de sobreviver.
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