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Então, concluindo, qual é a recomendação da Torá no caso da engenharia genética em geral e a clonagem em particular?
Parece-me que para extrairmos uma conclusão sobre a modificação da natureza pela clonagem precisamos levar em consideração alguns detalhes importantes. Por um lado, trata-se de uma solução para que as pessoas estéreis possam ter filhos. Um verdadeiro alívio para essas famílias. Por outro lado, não podemos esquecer de que se trata de uma decisão que pode criar uma absoluta anarquia no conceito da concepção, transformando o nosso mundo em um grande laboratório comercial. Isto pode criar graves problemas principalmente na estrutura familiar e, em geral, na forma e nos direitos do ser humano. Pode, inclusive causar um retrocesso de centenas de anos na humanidade. Como já demonstrou o Rabino Yigol Shafran (do Departamento de Medicina e Halachá do Rabinato de Jerusalém). Esta situação lembra muito um caso descrito no Talmud (Pessachim, capítulo IV): “O Rei Chizkiahu (Ezequias) pegou o Sefer HaRefuot, o livro das curas, e o enterrou, e os sábios concordaram com ele”. Este livro era uma tradição passada de pai para filho. De acordo com o Midrash, após o dilúvio, um anjo ensinou a Noé os remédios naturais que existem nas plantas e nas ervas, que são a cura para qualquer doença. Este é o conteúdo deste livro que foi passado para Abraão, até chegar às mãos do Rei Chizkiahu. Maimônides explica: “Por que Ezequias ocultou este livro, já que nele não constavam apenas as curas para as doenças, mas também uma lista de todos os venenos fatais para o homem? E quando certos homens começaram a fazer mal uso dele, matando-se uns aos outros, o Rei Chizkiahu o ocultou”. Aqui surge uma pergunta: por que os sábios judeus, conhecendo o livro, esperaram que o Rei fizesse isso e só depois concordaram com ele? Por que eles mesmos, conhecendo a situação imoral reinante, não proibiram o uso do livro? A resposta é que os sábios judeus só podem se opor a algumas proibições pela Torá (ou através de uma proibição momentânea, provisória, que é chamada de horahat shaá). Todavia, uma proibição emitida pela própria Torá é uma proibição eterna, atemporal e independente. Não podiam os sábios proibir o livro das curas, pois, afinal, ele continha a cura para muitas pessoas. O problema não era o livro, mas o mal uso feito dele. Por esta razão, os sábios esperaram o Rei Chizkiahu ocultá-lo. E como o Rei representa uma autoridade governamental, a proibição dele oriunda é uma proibição provisória. Então, os sábios dizem que o Rei ocultou o livro (e não o queimou), pois ocultação é como uma “inspeção federal e governamental” da parte do rei e, Tsadik Chizkiahu, assim procedeu a fim de vislumbrar as metas do conhecimento científico, para que não se fizesse mal uso dele.

Existem certos conhecimentos, principalmente na área da tecnologia, em nosso caso da engenharia genética, que devem permanecer ocultos. Uma vez caindo em domínio público podem acarretar conseqüências tão desagradáveis quanto irresponsáveis. Esta me parece a recomendação da Torá. Precisamos de soluções para a infertilidade. Queremos melhorar muitas coisas e, sem dúvida, isso pode ser feito pela engenharia genética e, quem sabe, através da clonagem. Porém, é necessário um controle, uma inspeção rigorosa para que isto não seja explorado para o mal, D’us nos livre.

A obrigação da sociedade, mediante as suas leis, é garantir que os recursos científicos e a tecnologia (que exige, obviamente, muitos recursos e muito conhecimento) não caiam em mãos de indivíduos. Todos os tipos de tratamento referentes à fertilização artificial, toda a engenharia genética, tem de estar apenas nas mãos de instituições oficiais, de laboratórios competentes, e inspecionadas para que ajam de acordo com a lei, permitindo soluções para casais que queiram filhos e que assumam a responsabilidade de serem os pais desde o momento da fertilização.

O Sr. tem algum exemplo positivo do que podemos aprender da clonagem?
O décimo terceiro princípio da fé judaica é crer na ressurreição dos mortos. Após a revelação messiânica, virá o dia em que D’us ressuscitará os mortos. Os falecidos se levantarão. Quando ensinava este conceito aos meus alunos, muitos me perguntavam: “e como é que ficam os corpos que foram cremados pelos nazistas ou pelos inquisidores nos atos de fé?” A resposta que eu dava, conforme consta nos livros profundos, é que em cada corpo humano existe um pequeno elemento que em hebraico se chama luz. Ele se encontra na espinha dorsal e nunca se acaba; é sempre preservado. A partir deste elemento, D’us irá reconstituir todos os corpos exatamente como eles eram. Quando eu falava isto, os meus alunos ficavam céticos, pois, afinal, de um corpo cremado não sobra nada. Parece ficção reconstituir um corpo a partir de um pequeno elemento. Hoje, graças à engenharia genética e, principalmente, à clonagem, estamos tendo um exemplo prático deste processo, em que se retira apenas um núcleo pequenino, ínfimo, que contém toda a informação genética, todo o DNA da pessoa, e a partir dele podemos clonar um ser humano. Este é um exemplo de como a ciência nos ilustra coisas já claras e escritas em nossos livros.

Quais as suas últimas considerações sobre o assunto?
Existe uma mitzvá na Torá em que o noivo deve dedicar o primeiro ano do casamento à sua esposa, conforme está escrito: “Vessimach et ishtó asher lakach.” — “E alegrará sua esposa que tomou a si”. (Deuteronômio, XXIV:5). Explica o Sefer HaChinuch, (mitsvá 582): “Fomos ordenados que o noivo alegre a sua esposa no primeiro ano porque D’us, Todo-Poderoso, teve a intenção de criar o mundo, e a Sua intenção é que ele fosse habitado por criaturas bonitas, que nascem de pai e mãe, e por isso ordenou ao povo escolhido que se dedicassem às esposas durante o primeiro ano para aumentar a vontade e a empatia entre eles, até o fundo do coração, de tal forma que quaisquer outras mulheres seriam estranhas para eles”. Estamos vendo, em um texto antigo, que a vontade do Criador é que o mundo seja habitado por criaturas que nasçam de pai e mãe, apesar de que possam existir outros métodos. Porém, não é este o mundo que D’us quer que estabeleçamos. A Torá almeja um mundo de bondade e de benevolência, assim como diz o Rei David nos Salmos (LXXXIX:3): “Ki amarti olam chessed yibane”. — “Pois o mundo está construído sobre a bondade e a benevolência”.


Rabino David Weitman
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