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Seria o caso de os sábios da Torá proibirem a tecnologia da clonagem?
Como já mencionamos, uma vez que não há menção na Torá e no Talmud que a técnica seja proibida, não podemos proibir essa tecnologia pelo fato de que é contra o caminho natural. Já mencionamos também o famoso comentarista do Talmud, Rabi Menachem Meiri, que sustenta, claramente, que se um dia for possível gerar criaturas bonitas sem acasalamento, conforme encontrado nos livros científicos, é permitido fazê-lo. Por isto, proibir a pesquisa científica e o desenvolvimento tecnológico é algo absolutamente impossível. O homem possui uma natureza que o impele a saber cada vez mais. Ele tem a curiosidade de aprender o que o mundo contém e de usá-lo, como diz o salmista no capítulo VIII: “Tu o fizeste [o homem] somente um pouco menos que os anjos, e o coroaste com uma alma e um esplendor. Tu lhe deste domínio sobre as obras de Tuas mãos, Tu colocaste tudo sob seus pés.” Qualquer conhecimento adicional pode trazer grandes benefícios e bênçãos para a humanidade, da mesma forma que pode trazer, infelizmente, prejuízos e tragédias. Por exemplo, a descoberta da eletricidade trouxe benefícios para o mundo, que se traduzem em conforto, iluminação etc., mas trouxe também o perigo da eletrocução e o curto-circuito. Será que os sábios da Torá deveriam proibir o seu uso por causa disto? Claro que não! Seria um absurdo. O que se exige do homem, porém, é que seja responsável pelos seus atos e que utilize tudo o que descobrir em suas pesquisas unicamente para o bem. Tentar impedir a utilização de uma descoberta científica por aqueles que dela necessitam, por suspeitar que algumas pessoas mal-intencionadas poderão fazer mal uso dela, é uma decisão muito difícil pela halachá. Como disse o grande legislador desta geração, Rabino Shlomo Zalman Auerbach, não há razão para ser rigoroso e proibir o que é permitido para as pessoas boas e idôneas por causa de alguns perversos e levianos.

Até que ponto o homem pode modificar a natureza que D’us criou?
D’us é chamado o Arquiteto do Universo, como diz o Talmud em Berachot: “Ein tsaiar kelokeinu”, não há desenhista como o nosso D’us. A pergunta é se nós, que somos o desenho, também podemos, de vez em quando, “desenhar”, auxiliando D’us a “melhorar” a Sua obra. Observamos dois aspectos nesta questão. Por um lado, encontramos na Torá a proibição dos cruzamentos. É proibido cruzar espécies diferentes de animais, e também espécies diferentes de sementes. Não se pode cruzá-las, sendo tal proibição denominada kilaim. Nachmânides explica uma das razões: “Porque aquele que mistura as espécies nega a criação de D’us. É como se pensasse que D’us não fez o suficiente, que a obra não é perfeita e que precisa ajudá-Lo a acrescentar vários tipos de criaturas ou animais”. O Sefer HaChinuch explica a razão pela qual D’us proibiu certas misturas: “Porque Ele sabe que são nocivas para o homem, e D’us, que quer o bem do homem, pede a ele não fazê-las”.

Encontramos um episódio na Bíblia em que a Torá critica um homem chamado Aná (Gênese, XXXVI:24) que cruzou uma jumenta com um burro, vindo a nascer uma mula. Sabemos que todos os híbridos, inclusive a mula, são estéreis. Isto pode ser encarado como uma reação da natureza contra aquele que desrespeita a vontade Divina, contra aquele que transgride a proibição sobre o cruzamento das espécies. Este é um aspecto que nos ensina a não mexer na criação.

Mas, por outro lado, não podemos esquecer que no mundo e no Universo há muito espaço para descobrimentos, para as ciências e desenvolvimentos em geral. Aliás, este é um outro aspecto enunciado já no início da criação. No sétimo dia está escrito “Asher bará Elokim laasot” — “Esta criação que D’us criou para fazer”. O Talmud explica que D’us deixou espaço para o homem melhorar e desenvolver a criação, contribuindo com a obra Divina. Afinal, porque deixaria de ser permitido já que o homem assim procede com a sabedoria que D’us lhe deu? Em outras palavras, estas descobertas do homem também são de D’us, como diz o profeta (Yeshaiau, XXVIII:29): “Gam zot meim Hashem Tsevakot yatsa hifli etsá higdil tushia” — “Também isto é de D’us, admirável em juízo, excessivamente sábio”. Então, se D’us nos deu a sabedoria para encontrar cura e soluções, teremos de prestar contas caso não a utilizarmos para o bem da humanidade.

Isto explica o ponto de vista judaico que sempre apoiou a busca pela cura (ao contrário de muitas outras religiões e filosofias). O Zohar escreve (parte III, página 299) que “O doente é como um preso em uma prisão da doença, e se você perguntar ‘mas, afinal, como pode um médico curar se é a vontade de D’us que se encontre nessa situação?’, é a vontade do Criador que o médico adentre a casa do doente para tirá-lo das doenças físicas”. E assim é a halachá judaica: há a obrigação de curar o próximo e a si mesmo e, se a pessoa não procede desta forma, ela simplesmente faz jorrar sangue em vão. Mas mesmo o médico que está curando tem de se cuidar e se lembrar de que imitar D’us não é igual a ser D’us. O médico precisa conhecer as suas limitações. Existe, aliás, um dito talmúdico muito impopular nos meios médicos. Ele diz o seguinte: “O melhor dentre os médicos está destinado ao inferno” (Kidushin 82a). Isto significa que se o médico se vir como o melhor dos médicos, agindo com vaidade, sem moral e sem cautela, poderá cometer erros gravíssimos, inclusive fatais. Por isto, o caso específico da clonagem pode vir a ter lados positivos, como mencionado, e servir eventualmente como cura para casais estéreis.
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